'Temer terá que ter relação muito boa com Senado; se perder 3 votos, a Dilma volta', diz Perrella

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Image caption Zezé Perrella votou a favor da admissibilidade do impeachment

Em entrevista logo após a sessão do Senado que aprovou o processo de impeachment, o senador Zezé Perrella (PTB-MG) disse à BBC Brasil que as pedaladas fiscais não foram o motivo que levou a presidente Dilma Rousseff a ser afastada do cargo pelo Congresso.

Segundo ele, a petista caiu por sua "prepotência" e pelas "trapalhadas do governo".

Perrella, que foi alvo de escândalo em 2013 quando quase 500 kg de pasta de cocaína foram encontrados em um helicóptero de sua família que pousava no aeroporto de Afonso Cláudio, no Espírito Santo, disse que "já teve de enfrentar a insatisfação do povo (como Dilma enfrenta agora), mas que era uma situação diferente" e reiterou que "não se preocupa com as ruas, mas sim com a sua consciência".

O senador, que votou a favor da admissibilidade do impeachment, disse ainda que Temer precisará ser cuidadoso na articulação com o Congresso para não correr o risco de perder o posto na votação definitiva do julgamento de Dilma no Senado – em que serão necessários dois terços dos votos para garantir o impedimento da presidente.

"Eu espero que ele tenha sensibilidade para fazer o contrário do que a Dilma fez", concluiu.

Leia a entrevista completa:

BBC Brasil - Nestas últimas semanas, o senhor foi um dos principais defensores do afastamento da presidente Dilma Rousseff. Qual é a sua avaliação do resultado?

Zezé Perrella - Eu esperava uma situação mais confortável. Nós esperávamos algo em torno de 58, 59 votos. (...) Do jeito que ficou, o Michel Temer não está numa situação tão confortável assim. Ele vai ter que ter uma relação muito boa com o Senado Federal, porque, se perder três votos aqui, a Dilma volta.

Pode parecer incoerente a pessoa votar hoje a favor e amanhã não, mas a política é muito dinâmica. O que espero é que o Michel consiga agora implementar sua agenda, que ele tenha o apoio do Congresso Nacional e do Senado principalmente, para que ele possa desenvolver os projetos que ele tem em mente.

Nós não podemos pensar no impeachment somente pelas pedaladas fiscais. Dilma caiu pela prepotência, caiu pelo aparelhamento do Estado, caiu principalmente pela insatisfação das pessoas nas ruas, caiu pelo desemprego. Estamos num momento muito sensível da vida nacional. Qualquer passo em falso do Michel Temer daqui para a frente… se ele não conseguir aprovar a reforma da previdência, a CPMF, e alguns temas polêmicos necessários ao ajuste fiscal, ele terá muita dificuldade.

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BBC Brasil - Qual é a avaliação do senhor agora que a situação está definida?

Perrella - Como a vida é muito dinâmica, eu quero crer que a Dilma não vai voltar. Mas o governo vai ter que ter a habilidade que a Dilma não teve para lidar com essa Casa, para lidar principalmente com o Senado, para não ter risco nenhum da presidente voltar, porque é uma decisão ainda em caráter temporário. Ela não está definitivamente afastada. Então, vamos aguardar. Eu espero que, com a habilidade do (Romero) Jucá (cotado para o Ministério do Planejamento) e de outras pessoas que conhecem bem a Casa, ele consiga implantar uma agenda mínima, pois hoje a consciência é que nós temos que ajudar.

Do jeito que estão sendo feitas as composições dos ministérios, eu já vejo alguma insatisfação dentro do PSDB, eu já vejo insatisfação dentro do meu próprio partido, eu já vejo insatisfação aqui dentro com a maneira que esses ministérios estão sendo montados.

Não porque a gente esteja buscando ministérios, mas está gerando insatisfação. O Michel Temer já deu cargos, como no Rio de Janeiro. Ele deu o Ministério do Esporte para uma pessoa que votou inclusive contra ele. Isso acaba gerando mal estar dentro da base de apoio dele.

Eu espero que ele tenha sensibilidade para fazer o contrário do que a Dilma fez. Ela não teve nenhuma habilidade para lidar com a Casa e acabou caindo por isso. Claro que o motivo maior da queda não foram as pedaladas, porque nós estamos num julgamento também político. Ela caiu pelas vozes das ruas, pelas trapalhadas do governo, principalmente pela falta de articulação do governo aqui dentro, coisa que o Michel Temer está mais bem preparado do que ela.

BBC Brasil - Dilma sofre uma rejeição grande no Congresso e nas ruas, e o senhor já passou por um momento de rejeição forte nas ruas. Qual é a sensação?

Perrella - Isso é ruim, mas aquele episódio para mim está absolutamente superado. Aqueles bandidos estavam grampeados, graças a Deus, os mesmos grampos que nos livraram. A gente não consta nesse processo nem como testemunha.

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Image caption Senado aprovou por 55 a 22 a admissibilidade do impeachment

Mas política é isso, as pessoas usam as coisas de maneira maldosa, fomos vítimas de uma gangue que foi toda desbaratada, todas as pessoas estão presas.

Eu passei por um momento de dificuldade, mas isso é uma situação completamente diferente dessa daqui. Mas a gente sabe como política é dinâmica e como as pessoas usam qualquer episódio para tentar desestabilizar.

BBC Brasil - O senhor acha que conseguiu convencer as ruas nessa questão?

Perrella - Eu nem me preocupo com as ruas, eu me preocupo com a minha consciência, com a minha família e com as pessoas que eu conheço. Aqueles baderneiros que não querem acreditar vão continuar sempre com essa história.

Eu devo ser o superpoderoso, né, porque estão querendo prender o (ex-presidente) Lula, e o Zezé Perrella está aqui de boa dando entrevista.

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