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Kraftwerk leva sua paisagem sonora para o século 21

Ao longo de 33 anos de carreira, o grupo Kraftwerk fez uma série de músicas e discos inspirados no ato de viajar, como Tour de France, Autobahn e Trans Europe Express

O recém-lançado Tour de France Soundtracks é o primeiro da banda após 12 anos e faz alusão tanto no título como em diversas faixas ao clássico Tour de France, lançado em 1983.

Fiel ao seu estilo conceitual, o quarteto de Dusseldorf volta a tentar criar uma paisagem sonora que remete à competição de ciclismo da Volta da França, que completa seu centário em 2003.

Em uma rara entrevista à BBC, Ralf Hütter – um dos criadores do grupo, juntamente com Florian Schneider – explicou o conceito por trás do disco e falou sobre o papel do Kraftwerk no atual cenário pop.

Pedalando

"Quando o ato de pedalar chega a seu melhor momento, você atinge o silêncio. Nessa hora, você não ouve mais nada, exceto sua bicicleta deslizando e talvez o som de sua respiração. Foi esse silêncio que nos serviu de ponto de partida", disse.

Não é à toa que o ato de locomoção e de viajar é recorrente na música do Kraftwerk. Ralf Hütter diz sentir a música nos sons que ouve no trânsito do dia-a-dia.

"Existe um mundo do som nos carros, na tonalidade dos automóveis. Às vezes, você se vê preso no som padrão das auto-estradas. São esses sons que tentamos reproduzir através dos sintetizadores e da repetição de batidas. Para nós, é como se o som do tráfego fosse música."

Não foi o único som inusitado que eles tentaram reproduzir no novo disco. Tour de France Soundtracks traz até o som de um eletrocardiograma realizado por Hütter.

Defasados?

O jornal britânico Guardian saudou o novo disco, afirmando que "ninguém faz conceitualismo eletrônico como os mestres teutônicos".

O novo disco, no entanto, não foi uma unanimidade entre os críticos. De acordo com o diário britânico Independent, "é estranho como uma banda tão obcecada com movimento conseguiu se tornar tão estática".

O jornal The Times, ainda que tenha frisado que "ninguém consegue manter a austeridade sonora destes caras", lembrou que muito se passou desde que o grupo lançou seu disco anterior, há 12 anos.

"O tecno se tornou uma força que não pode ser ignorada e bandas como Röyksopp samplearam as águas de Dusseldorf e as converteram em milhões de barulhinhos", acrescentou o crítico do Times.

Mas a banda não se sente defasada nem se preocupa com o fato de muitos hoje dominarem os truques que eles foram os primeiros a demonstrar.

"Acho maravilhoso que hoje com todas as ferramentas estejam disponíveis e que todos estejam mexendo com música eletrônica", disse.

Formação

A chegada à música eletrônica foi uma trajetória tão incomum quanto as paisagens sonoras que o grupo tenta reproduzir.

"Desde pequenos, nós fomos criados dentro da música clássica. Depois, começamos a ter influências do cenário artístico de Dusseldorf e da música eletrônica de vanguarda. Então, percebemos que precisávamos criar nossa própria linguagem musical", contou.

Essa linguagem se difundiu e serviu de inspiração para os estilos mais variados com base na música eletrônica, desde o hip hop até o tecno.

Para muitos críticos, esse vasto alcance permite dizer que o Kraftwerk é mais influente na música pop contemporânea do que os Beatles.

Pop

Ainda que seja considerado um grupo experimental e a despeito de seus integrantes evitarem exposição a todo custo, Hütter não rejeita que faça música pop.

"Fazemos parte do cenário pop e temos características pop, como nosso humor negro."

A explicação de Hütter para o surgimento de Tour de France Soundtracks parece fazer uso desse humor negro.

"A idéia de Tour de France surgiu há 20 anos, mas quando lançamos o primeiro disco, não o concluímos. A idéia renasceu e surgiu Tour de France Soundtracks."