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Atualizado às: 15 de setembro, 2003 - 07h45 GMT (04h45 Brasília)
 
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Muçulmanos em São Paulo dizem que não são radicais
 

 
Patrícia Soares
Patrícia usa véu, mas não no trabalho

O empresário Ahmad Aref, presidente da Sociedade Beneficente Muçulmana do Brasil em nada se parece com o estereótipo do muçulmano que os brasileiros se acostumaram a ver nos programas sobre o Oriente Médio nos últimos anos.

Vestido de forma elegante, ele recebe com um beijo no rosto – de fraternidade, explica – os amigos e parentes que chegam para o culto que acontece todas às sexta-feira na mesquita ao lado da sede da entidade, num bairro na região central de São Paulo.

Logo depois das orações, quando homens e mulheres ficam em salas separadas, todos se juntam para um almoço que reúne mais de 200 pessoas todas as semanas.

A grande maioria é formada por imigrantes ou filhos de imigrantes que vieram do Líbano e da Síria. Mais recentemente, alguns africanos também começaram a frequentar a mesquita, mas ainda são uma pequena minoria.

O cardápio é semelhante aos dos restaurantes árabes da cidade, só que sem bebidas alcoólicas. Todos conversam animadamente no dia que é o mais importante da semana para os muçulmanos, como o domingo para os cristãos. A tradição diz que não se trabalha neste dia, mas a maioria sai dali direto para cuidar de seus negócios na empresa.

Hijab

Aref confirma a impressão de que eles se concentraram principalmente no comércio. “Os da minha geração são, na maioria comerciantes, mas os filhos já estudam e têm outras profissões”, afirma.

Filhos e filhas. Assim como nas religiões “ocidentais” as mulheres muçulmanas estudam e nem todas usam o hijab, o véu com que cobrem a cabeça.

Os próprios muçulmanos brasileiros se consideram menos radicais do que os do Oriente Médio. Nem todos seguem ao pé da letra, por exemplo, preceitos muçulmanos como a obrigação de rezar cinco vezes por dia, com o corpo voltado na direção de Meca, cidade sagrada para o islamismo que hoje fica na Arábia Saudita.

Os muçulmanos chegaram ao Brasil principalmente durante a Primeira Guerra Mundial, nos anos 20, e a guerra do Líbano, nos anos 60.

Os atentados nos Estados Unidos e as guerras no Afeganistão e no Iraque aumentaram o interesse dos brasileiros pela religião. “A divulgação foi muito boa, mesmo com as informações erradas, porque despertou o interesse das pessoas e nós passamos a ter mais oportunidade de explicar o que é realmente o islamismo”, acredita o médico Ismail Rajab.

Escaldados com o preconceito e a desconfiança com a quais muçulmanos passaram a conviver depois dos atentados nos Estados Unidos em 2001, se apressam a dizer que não sofrem qualquer tipo de discriminação “dos brasileiros” como tendem a chamar os que não são muçulmanos.

Não é essa, no entanto, a percepção de Patrícia Soares, que adotou o nome de Fátima depois de se converter ao islamismo, há alguns anos. “Tem preconceito sim”, afirma.

Ao contrário da maioria das mulheres muçulmanas em São Paulo, inclusive as que nasceram em famílias muçulmanas, Patrícia usa o hijab o tempo todo, exceto no trabalho. E lamenta ser obrigada a tirá-lo para trabalhar – justamente porque era vítima de piadinhas dos alunos.

Professora da rede pública, ela conta que a diretora da escola pediu que não fosse trabalhar com o véu evitar problemas com os alunos depois dos atentados de 11 de setembro. “Não existe no Brasil um ambiente islâmico no trabalho”, reclama.

De família cristã, Patrícia conta que se interessou pelo Islã quando era militante de um partido político de extrema esquerda, na década de 80, e participava de um comitê de apoio aos palestinos. “Fui estudar os ensinamentos do profeta e me converti”, diz Patrícia.

Ao contrário da percepção que se tem no Ocidente, de que o islamismo oprime as mulheres, ela considera a religião revolucionária. “O islamismo prega coisas que facilitam a vida das pessoas. Num mundo em que as mulheres são usadas como objeto, para vender cerveja, ele prega o respeito”, afirma.

Na verdade, o uso ou não do hijab parece preocupar pouco os próprios muçulmanos. Muitas mulheres não usam o véu sequer para a celebração religiosa de sexta-feira, o dia sagrado dos muçulmanos.

Elas contam que, pelo menos no Brasil, usar ou não o véu é uma questão pessoal. Muitas vezes a filha começa a usar antes da mãe. É o caso da professora de árabe Mahiba Murad de Mrad, autora de um livro sobre islamismo. A filha de Mahiba usa o hijab desde os 22 anos, mas ela mesmo só começou a usar há dez anos, depois de uma viagem a Meca, quando teve uma regressão que passou a ver como uma prova de que deveria adotar os preceitos mais rígidos da religião.

“O mais bonito do véu não é usar ou não usar, mas o motivo que leva a mulher a querer usar”, conta.

Para a psicopedagoga Laila Yassine, brasileira filha de libaneses, esse dia ainda não chegou. “Cada um tem sua revelação num momento. Deus coloca as coisas na vida da gente na hora certa”, diz ela, justificando sua decisão de não usar o hijab. Mas ela acha que esse dia ainda pode chegar.

“O uso ou não do véu não é um problema para nós. É uma decisão de cada um que todo mundo respeita”, afirma.

 
 
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