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Perguntas e Respostas: Entenda a crise na Geórgia

A ex-república soviética da Geórgia está em um grande impasse político, com os oposicionistas tomando controle do Parlamento e forçando a renúncia do presidente Eduard Shevardnadze.

A crise teve início com as eleições parlamentares realizadas no início deste mês, as quais têm sido criticadas internamente e também por observadores internacionais por causa de irregularidades.

A BBC Brasil aborda questões que estão por trás da atual situação.

Por que Shevardnadze foi forçado a renunciar?

A oposição estava revoltada pelo que vêem como uma série de promessas não cumpridas e oportunidades perdidas pelo presidente Eduard Shevardnadze.

Para muitos na Geórgia, Shevardnadze – conhecido por seu papel como ministro do Exterior soviético no fim da Guerra Fria – não tem conseguido combater a pobreza e a corrupção que assolam o país e nem problemas como a crise no setor de energia e o conflito separatista na região de Abkhazia.

Recentemente, o presidente fez uma outra promessa – realizar eleições parlamentares democráticas e justas.

Mas no dia das eleições – 2 de novembro – estava claro que a promessa não havia sido cumprida. Observadores internacionais disseram que o pleito foi marcado por sérias irregularidades. O resultado, dando vitória a dois grupos que apóiam Shevardnadze, contrariou pesquisas de opinião que sugeriam que o governo e seus aliados iriam perder a maioria no Parlamento.

O fato de que o resultado oficial só foi divulgado no dia 20 de novembro, quase três semanas depois do dia das eleições, fez com que as dúvidas sobre a legitimidade do pleito aumentassem ainda mais.

Os protestos contra o governo começaram nas ruas de Tbilisi, a capital do país, quase que imediatamente após as eleições e continuaram até a renúncia de Shevardnadze.

Quem assumiu o poder após a renúncia de Shevardnadze?

Nino Burjanadze, representante da oposição no Parlamento, foi nomeada por outros políticos da oposição como presidente em exercício.

Porém, apesar de a constituição da Geórgia permitir tal transição, não há um parlamento em exercício para ratificá-la. Os parlamentares que foram eleitos nas eleições do dia 2 de novembro não tomaram posse e também não foram reconhecidos pela oposião.

Portanto, somente novas eleições (tanto presidencial quanto legislativa) permitirão que o país tenha um líder legítimo.

Por que a Geórgia está em uma situação econômica tão difícil?

A Geórgia já foi uma das regiões mais prósperas da extinta União Soviética e chegou a ser conhecida como a "cesta de frutas" do bloco. Mas a situação econômica tem se deteriorado desde a independência por causa de uma série de conflitos étnicos, uma guerra civil em 1992 e anos de corrupção generalizada e má administração.

Atualmente, a grande maioria da população vive abaixo da linha de pobreza.

Qual é a posição da Rússia?

Shevardnadze havia tentado até recentemente se distanciar da influência da Rússia.

A relação entre os dois países tem sido tensa. Os dois governos têm tido confrontos por causa do apoio russo aos separatistas de Abkházia e por causa da presença de rebeldes chechenos em Pankisi Gorge, que fica na Geórgia, perto da fronteira com a Chechênia.

Mas a aproximação de Shevardnadze com Abashidze, que é pró-Rússia e foi seu oponente no passado, sugere que o presidente está tentando arrastar Moscou para uma crise que ele não tem conseguido resolver sozinho.

Há duas semanas, o presidente russo, Vladimir Putin, prometeu ajudar Shevardnadze da maneira que pudesse.

Ele chegou a mandar o ministro das Relações Exteriores russo, Igor Ivanov, para mediar as negociações na Geórgia.

Qual é a importância estratégica da Geórgia?

Com a Rússia ao norte e a Turquia e o Irã ao sul, a região sul do Cáucaso tem sido um campo de batalhas entre impérios, religiões e ideologias.

Mas, agora, também é uma fonte de preocupações para os Estados Unidos. O governo americano investiu politicamente e financeiramente no oleoduto que passa por Baku, Tbilisi e Ceyhan e que levará petróleo extraído do Mar Cáspio, no Azerbaijão, até a costa mediterrânea da Turquia.

É uma fonte de energia com potencial imenso caso haja ainda mais instabilidade no Oriente Médio.

Durante anos, o governo americano viu Shevardnadze como o responsável por levar estabilidade e democracia à região e procurou ajudar financeiramente o país depois da independência.

A Geórgia se tornou o segundo maior receptor de ajuda financeira per capita dos Estados Unidos, ficando atrás apenas de Israel.

Mas, agora, Shevardnadze estava sendo visto como um líder fraco que não era capaz de garantir um futuro melhor para o seu país.

As irregularidades nas eleições parlamentares podem ter sido a gota d'água para os Estados Unidos. O departamento de Estado americano disse estar "profundamente decepcionado" com a liderança de Shevardnadze.