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O passado de terror na Itália

Investigadores italianos concentram suas atenções em um grupo obscuro que tem base supostamente em Bolonha, depois de uma série de atentados com cartas-bomba iniciados pouco depois do Natal.

Eles suspeitam que várias das cartas-bomba recebidas por pessoas ligadas à União Européia - inclusive pelo presidente da Comissão Européia, Romano Prodi - são obra de anarquistas italianos.

Um grupo sediado na Itália autodenominado Federação Anarquista Informal reivindicou responsabilidade pelos atentados.

Investigadores acreditam que o grupo tem mais de 300 membros no país.

O grupo previamente desconhecido compartilha a sigla FAI com um outro, notório, do norte da Itália, a Federação Anarquista Italiana. A federação, contudo, condenou os ataques, que considerou contraproducentes e negou envolvimento.

Brigadas Vermelhas

A Itália tem uma história de grupos extremistas. O mais notório, o Brigadas Vermelhas, tinha sede em Bolonha e inspiração marxista-leninista.

Formado na década de 70 por estudantes que defendiam a luta armada contra o Estado capitalista, o grupo ganhou notoriedade em meados da década de 80 por iniciativas violentas para tentar desestabilizar o país, sabotando fábricas, roubando bancos e realizando seqüestros.

O Brigadas Vermelhas criou tal clima de terror que a época ficou conhecida na Itália como "Anos de Chumbo", numa referência à quantidade de balas disparadas.

Em 1978, o grupo seqüestrou e matou Aldo Moro, líder cristão-democrata que tentava obter um "acordo histórico" com os comunistas. Depois de prisões em massa no final da década de 80, o grupo se tornou gradativamente irrelevante.

Mas os italianos foram levados a relembrar daqueles anos turbulentos com o assassinato de Massimo D'Antona e Marco Biagi, respectivamente em 1999 e 2002. Ambos assessoravam o governo sobre relações industriais e reformas do mercado de trabalho.

Um grupo autodemominado Novas Brigadas Vermelhas reivindicou responsabilidade pelos assassinatos, embora não esteja claro o quão perto eles estavam do movimento clandestino original.

"Menos perigoso"

As autoridades italianas dizem acreditar que a Federação Anarquista Informal representa menos perigo do que o Brigadas Vermelhas. Enrico di Nicola, promotor-chefe do gabinete da magistratura de Bolonha, disse que falta à FAI estrutura, organização e as posições políticas de um grupo marxista.

Gianfranco Pasquino, um professor de ciências políticas e especialista em terrorismo da Universidade de Bolonha, disse que não há provas de que a FAI esteja ligada ao grupo Brigadas Vermelhas.

"Parece ser um pequeno grupo ligado ao movimento antiglobalização", disse ele à BBC.

O jornal italiano La Repubblica publicou trechos de uma declaração feita pela FAI, que diz que a organização é contrária aos "mestres da Europa, sua guerra, sua paz, sua repressão (e) seu controle".

"Seus objetivos não são claros porque eles ainda não publicaram um manifesto", afirmou Pasquino. "Mas eles provavelmente estão tentando utilizar a insatisfação dentro de alguns setores do norte, onde cidadãos são contra (a integração com) a Europa."

"A Itália, de maneira geral, é favorável à integração da União Européia, mas há aqueles, especialmente no norte, que estão expostos à crescente competição que isso criou, sentem-se desafiados pelo aumento da imigração e acham que foram deixados de lado na integração. Eu acho que esse grupo provavelmente vai tentar canalizar essa insatisfação", disse o acadêmico italiano.

Segundo Pasquino, o grupo não está buscando atingir um objetivo específico no momento, mas que as cartas-bomba serviram para mostrar que ele existe.

O FAI parece não ter muita sofisticação tecnológica, disse Pasquino. "Os explosivos que eles usaram não eram bombas verdadeiras", afirmou ele.

Bolonha

Não está claro se os integrantes do FAI são nascidos em Bolonha ou se apenas decidiram se identificar com a cidade por causa de sua antiga associação com atos de violência.

Bolonha é uma cidade proeminente. É um reduto tradicional do Partido Comunista, abriga uma universidade grande, é próspera e é vista como um centro importante na Itália, ligando o norte e o sul do país.

"Se você quiser criar caos na Itália, faça isso via Bolonha", disse Pasquino.

Em 1998, uma série de pacotes com explosivos foram enviados a políticos, jornalistas e juízes, despertando temores de uma volta ao tipo de terror provocado pelo Brigadas Vermelhas.

Acredita-se que anarquistas e esquerdistas tenham sido responsáveis pelos atentados.