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Atualizado às: 19 de agosto, 2004 - 05h05 GMT (02h05 Brasília)
 
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Haitianos são goleados, mas fazem festa
 

 
 
Ronaldo
Ronaldo, o Fenômeno, acabou não marcando o dele na goleada
O Brasil não facilitou as coisas para a seleção do Haiti e ganhou por 6 a 0 o "Jogo da Paz", realizado na quarta-feira na capital do país, Porto Príncipe.

Mas ao contrário do que temia o presidente Lula – que chegou a pedir que a equipe brasileira evitasse um placar exagerado –, a goleada parece não ter estragado em nada a festa dos haitianos que são, em sua maioria, torcedores fanáticos do Brasil.

Durante o jogo no estádio Sylvio Cator, os torcedores gritavam e torciam tanto nos ataques da Seleção brasileira quanto nas tentativas da equipe local.

"Se tivessem facilitado, nós teríamos considerado uma humilhação. Nós preferimos perder e ficamos felizes porque os jogadores brasileiros tiveram um grande coração por vir fazer este jogo aqui", disse Jean Marie, o médico da seleção haitiana.

O estádio de Porto Príncipe tem capacidade para receber apenas 13 mil pessoas, mas outras dezenas de milhares se espalharam pelas ruas pelas quais passaria a Seleção para saudar o time.

Lula

Depois da partida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou o futebol a "água benta", da qual todos gostam.

"Você imagina que, estes jogadores do Haiti, acho que nunca sonharam em jogar com a Seleção brasileira. Quem sabe um dia vamos ter uma final de Copa do Mundo entre o Brasil e o Haiti", disse o presidente.

Muitos haitianos também esperam que a iniciativa leve a um desenvolvimento do esporte no país.

"Os jogadores estão mais confiantes. Isso é, sem dúvida, um incentivo para que os atletas se esforcem e tenham algum dia condições de jogar com o Brasil com chances de ganhar", disse o músico Alberto Martino, líder da T-Vice, uma das bandas mais populares do Haiti.

O cantor estava assisitindo ao jogo no estádio e diz que para ele "perder é uma grande lição".

"Futebol é futebol e ninguém dá presente. Nós perdemos dos campeões do mundo, e a grande lição moral disso é que, como na vida, temos de lutar e nos esforçar sempre mais para conseguir vencer", disse o músico.

Pelé do Haiti

Alguns haitianos contam que uma das origens do fanatismo do país pelo Brasil seria a crença – que surgiu nos anos 70 – de que Pelé seria, na verdade, um haitiano naturalizado brasileiro.

A idéia teria se propagado a partir de 1971, quando Pelé participou com o Santos de um jogo de exibição no país.

"Naquela época, quase não tínhamos acesso a informação. Televisão era coisa rara aqui. Quando Pelé veio jogar, apareceu a história de que ele seria haitiano e muita gente, inclusive eu, acreditou nisso por muito anos", contou o tradutor Alain Charles.

Muito mais do que uma vitória, o que os haitianos queriam era ver seus grandes ídolos de perto.

Mesmo com o forte esquema de segurança e as diversas barreiras montadas no estádio e ao redor dele, não foi fácil tirar os jogadores do local.

Torcedores haitianos e também muitos soldados brasileiros cercaram os veículos blindados que iriam levar os jogadores ao aeroporto. Os fãs atiravam sem parar camisetas para os jogadores, principalmente Ronaldo, em busca de autógrafos.

Mensagem

Um torcedor traduziu para o português uma mensagem que queria passar para Ronaldo, mas não conseguiu chegar perto do jogador o suficiente para entregá-la.

"Eu te amo. Eu tenho muito orgulho de você. Eu amo sua sabedoria. Ronaldo, você me inspira. Nós te amamos", leu Mervelier Pierrot, explicando que se tratava de uma mensagem de todo o seu bairro.

O jogador Juninho Pernambucano disse que o resultado do jogo não importava.

"O que importa é que por 90 minutos trouxemos alegria para este povo com tantos problemas", disse o jogador.

Cooperação

Pelo menos nos discursos feitos pelo presidente Lula e pelo presidente haitiano, Alexandre Boniface, antes da partida, ficou clara a idéia de que a partida de futebol pode ser um gesto simbólico importante, mas tem efeitos práticos limitados na resolução dos problemas do Haiti.

"Agradecemos profundamente este gesto do Brasil, que está trazendo grandes alegrias ao Haiti. Mas o mais importante para nós é ter a cooperação internacional de que o Haiti precisa para se desenvolver", disse Boniface Alexandre.

"A solução para o Haiti só será encontrada quando as nações ricas perceberem que este é um país que precisa de investimentos para que seu povo tenha trabalho e busque melhora das suas condições de vida. O Brasil não tem dinheiro, mas tem conhecimento e tecnologia para apoiar este país irmão", afirmou Lula.

O senador Eduardo Suplicy – que faz parte de um grupo de parlamentares que está no Haiti observando a ação brasileira – é favorável à cooperação em outras áreas.

"No Brasil temos diversas experiências de urbanização e melhoria significativa de qualidade de vida em diversas favelas. Poderíamos enviar para cá estas pessoas para colaborarem no trabalho nas favelas daqui", exemplificou o senador.

Protestos

Havia relatos, confirmados pelos militares brasileiros, de que grupos fiéis ao ex-presidente Jean-Bertrand Aristide iriam realizar protestos no dia do jogo.

Muitos partidários de Aristide entendem que o ex-presidente foi deposto em fevereiro num golpe de Estado orquestrado pelos americanos. Por conta disso, eles acreditam que a presença de tropas estrangeiras no país significa apenas a legitimização do golpe.

No entanto, se as manifestações ocorreram, elas ficaram invisíveis, eclipsadas pelo enorme número de haitianos comemorando a chegada da Seleção.

O secretário de assuntos institucionais da executiva nacional do Partido dos Trabalhadores, Paulo Ferreira, diz que o PT dá total apoio às ações tomadas pelo governo em relação ao Haiti.

"É verdade que partidos de esquerda com os quais mantemos relações na América Latina e no mundo manifestaram oposição à presença de uma força armada de paz aqui no Haiti. Não é isso o que pensa a esquerda haitiana", disse.

"O PT tem contato com vários grupos aqui no Haiti que entendem que esta força da ONU tem a importante função de estabilização e pacificação do Haiti. O PT está tranqüilo quanto a isso."

 
 
Soldados brasileiros no HaitiHaiti
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