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29 de abril, 2005 - 12h57 GMT (09h57 Brasília)

Jim Muir
de Bagdá

Ausência de sunitas prejudica novo governo iraquiano

O novo governo do Iraque, liderado pelo primeiro-ministro Ibrahim Jaafari, levou quase três meses para reunir os seus 37 integrantes.

Alguns dos principais problemas que dificultaram sua formação ainda têm que ser resolvidos, especialmente a questão de como representar a comunidade sunita do país.

Representando cerca de 20% da população, os sunitas boicotaram a eleição. Por isso eles têm apenas 17 dos 275 deputados do novo Parlamento.

Mesmo assim, as duas facções vitoriosas, os muçulmanos xiitas e os curdos, disseram inicialmente que queriam formar um governo de unidade nacional com representação sunita significativa.

Pouco status

Apesar de muita conversa nas fases finais das negociações para o gabinete, Jaafari não conseguiu chegar a um acordo com os grupos sunitas com quem estava lidando: a Frente Nacional das Forças Unificadas e o Diálogo Nacional.

Os sunitas queriam pelo menos sete ministérios e um cargo de vice-primeiro-ministro.

Foi oferecido ministério a menos, e os sunitas reclamaram que a maioria dos cargos dedicados a eles tinha pouco status (exceto a pasta da Defesa).

Eles queriam também compromissos políticos por escrito, especialmente na questão da "desbaatificação", a retirada da administração pública de pessoas associadas ao regime de Saddam Hussein.

Algumas das facções na coalizão xiita de Jaafari, a Aliança Iraquiana Unida, querem ver um grande programa de expurgo baatista.

Nenhum acordo havia sido alcançado, e Jaafari sentiu que tinha que anunciar seu gabinete.

A pressão aumentava, não apenas de iraquianos impacientes e ansiosos, mas também da liderança religiosa xiita.

Líderes americanos também deixaram clara sua preocupação com a demora, a que muitos atribuem um aumento drástico na violência insurgente.

Então, o governo foi anunciado, mas, estranhamente, sete postos no gabinete tiveram que ser deixados em aberto, principalmente na esperança de que os sunitas ainda possam ser integrados ao governo.

Jaafari tentará fazer isso nos próximos dias.

Isso significa que, enquanto alguns dos ministros menos políticos poderão prosseguir com seu trabalho, o governo como um todo não poderá começar a enfrentar os enormes desafios que tem pela frente: lidar com a insurgência, restaurar os serviços públicos e criar empregos.

A primeira prioridade de Jaafari terá que ser completar a formação do próprio governo, inclusive preenchendo os Ministérios do Petróleo e da Defesa.

A pasta do Petróleo, preenchida provisoriamente por um dos novos vice-primeiro-ministros, Ahmad Chalabi, indicou um outro problema que dificultou a formação do gabinete: as divergências entre as facções xiitas.

O posto foi alocado para a Aliança Iraquiana Unida, mas os 15 grupos que a constituem não conseguiram chegar a um acordo sobre um candidato.

Preço alto

Os curdos, em particular, esperavam que um governo de unidade nacional também recebesse o bloco liderado pelo primeiro-ministro interino Ayad Allawi, um xiita secular que cuja administração está se encerrando.

Mas negociações exaustivas não conseguiram estabelecer interesses comuns, especialmente entre A Lista Iraquiana, de Allawi, que tem 40 cadeiras no Parlamento, e a Aliança Iraquiana Unida.

A Lista exigia um preço alto em cargos e compromissos políticos.

Mas o fracasso até agora em satisfazer e incluir totalmente os sunitas é o grande problema na afirmação de que o governo é amplo e inclui todos.

O presidente em fim de mandato - e que é vice-presidente na nova administração - Ghazi Yawer, atuou como mediador para seus colegas sunitas e estava claramente insatisfeito. Ele não vê no gabinete anunciado um governo de união nacional.

"Tornou-se um governo que reflete os resultados da eleição mais do que um governo de união", disse ele.

"Um segmento em particular da sociedade está faltando, e isto realmente não servirá aos interesses do Iraque."

Yawer disse que espera que as vagas no gabinete sejam logo preenchidas com representantes sunitas com credibilidade.

"Se eles não conseguirem satisfazer os árabes sunitas, tanto na seleção de cargos quanto no plano político proposto pelos árabes sunitas, eu acho que os árabes sunitas podem retirar seus candidatos", afirmou.

'Desbaatificação'

Chegar a acordo sobre cargos no governo pode acabar sendo mais fácil do que obter compromissos políticos dos xiitas em questões delicadas como a "desbaatificação".

Os sunitas temem que uma radicalização do processo pode alienar sua comunidade ainda mais, embora eles concordem que aqueles com sangue nas mãos deveriam ser levados a julgamento.

As lideranças políticas querem ajudar a conquistar a simpatia dos sunitas ao libertar muitos dos detidos suspeitos de apoiarem os insurgentes, mas que não foram condenados por algum crime.

O debate terá impacto sobre a campanha contra a insurreição.

Os xiitas indicaram que vão dissolver as unidades de forças especiais, recrutadas em parte entre oficiais que serviram sob o regime de Saddam Hussein, para combater os insurgentes.

O temor de que sem sunitas com credibilidade no governo não se conquistará terreno político dos insurgentes dentro da comunidade sunita, onde eles têm suas raízes.

As relações do Iraque com seus vizinhos onde a maioria é de árabes sunitas também não será aprimorada se o governo for visto como uma coalizão de xiitas e curdos que imperam sobre uma comunidade sunita alienada.

Os líderes sunitas indicaram que ainda estão ansiosos para participar. Os próximos dias devem mostrar se os principais parceiros da coalizão - e especialmente os xiitas - desejam pagar o preço dos postos e políticas no governo, necessário para obter um real envolvimento sunita.