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Atualizado às: 24 de outubro, 2005 - 19h35 GMT (16h35 Brasília)
 
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Vitória do 'não' marca Brasil como 3º Mundo, diz ativista
 

 
 
Para analistas, militantes do 'não' jogaram com temores da população
Para analistas, militantes do 'não' jogaram com temores da população
A vitória do "não" no referendo sobre comércio de armas de fogo e munição ocorreu, na opinião de ativistas internacionais ouvidos pela BBC Brasil, em decorrência de "truques sujos" e "marcou o Brasil como uma nação do Terceiro Mundo".

John Crook, presidente da organização não-governamental Gun Control Austrália, país que possui uma das mais duras legislações mundiais contra a venda de armas, diz que a opção pelo "não" representa um "passo para trás".

"É uma decisão que marca o Brasil como um país de Terceiro Mundo. Os países terceiro-mundistas não são apenas aqueles com economias em caos, mas também os que não confiam em suas instituições. E essa decisão mostra falta de confiança no sistema legal do país e na habilidade da polícia".

O ativista afirma que "o sistema de controle de armas foi implantado com sucesso na Austrália, gradualmente, ao longo de 30 anos. O Brasil tem cerca de 50 vezes mais homicídios que a Austrália e agora esse índice deve aumentar ainda mais".

De acordo com ativistas autralianos, após a proibição de armas semi-automáticas e de pistolas e revólveres, o país sofreu uma queda de crimes com armas de até um treço do que vinha sendo registrado nas décadas de 60 e 70.

"Trapaças"

Rebecca Peters, diretora da organização não-governamental antiarmamentista International Action Network on Small Arms (Iansa), sediada em Londres, comenta que a campanha pelo "não" se valeu de "trapaças, mentiras e truques sujos".

Rebecca Peters, que é australiana, diz que a facção que defendia o vota contra a proibição da venda de armas usou argumentos falsos sobre o aumento da criminalidade na Austrália após a adoção de leis mais rigorosas contra a venda de armas.

"Eles disseram que houve um aumento da violência na Austrália e o que ocorreu foi justamente o contrário, um fato provado por uma série de estudos."

A ativista também defende que o uso da imagem do ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela pelos militantes do não foi "ultrajante", uma vez que, segundo ela, o líder sul-africano "é conhecido como um ativista da não-violência e como um militante pelo controle armamentista".

"Chocante"

Tim Cahill, o representante da Anistia Internacional para o Brasil, afirma que ainda que sua entidade já contemplasse a possibilidade de o "não" sair vencedor, o índice de mais de 60% obtido pelos que se opunham à proibição ao comércio de armas foi "um pouco chocante".

Segundo Cahill, o resultado reflete o fato de que a campanha do "não" se valeu dos temores da população "e por isso foi mais eficaz". "Foi um voto contra o sistema de segurança público existente no Brasil, que é marcado pela corrupção e pela violência. Hoje em dia, há uma grande parcela da população brasileira que se sente sem proteção", comenta Cahill.

O ativista da Anistia Internacional frisa, no entanto, que "a luta pelo desarmamento não acabou". Segundo ele, a entidade tem pressionado diferentes países para promover um controle internacional das armas de pequeno porte, "para assegurar que armas adquiridas legalmente não parem nas mãos de bandidos".

O britânico Brian Johnson Thomas, perito em armas de fogo que presta serviço para a ONU e para organizações não-governamentais, afirma que o referendo brasileiro foi "distorcido" devido a supostas contribuições financeiras da National Rifle Association, associação americana que defende o uso de armas de fogo e conta com cerca de 4 milhões de integrantes.

Procurada pela BBC Brasil, a entidade afirmou que não fez contribuições vultosas para a campanha do "não".

Segundo Brian Johnson Thomas, o resultado do referendo possui similaridades com a sensação de medo vivida recentemente pelos países dos Bálcãs e pela Albânia.

Nesses locais, segundo ele, existe a crença de que "quando você tem sua própria arma, você está mais seguro. É uma sensação comum em países onde não há confiança na polícia e nas autoridades de segurança, mas não é necessariamente verdade".

Mas ele acrescenta que esses países deram passos em direção ao que julga ser o sentido correto.

"Na Albânia, eram comuns vinganças de sangue resolvidas à bala, assim como acontece no Brasil. Mas ao entrar no século 21, os albaneses perceberam que o progresso não se daria através do cano de um revólver. Hoje em dia, exceto pelos rifles, uma vez que o país tem uma tradição de caça, é proibido à população civil adquirir armas de fogo."

 
 
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