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18 de janeiro, 2006 - 17h40 GMT (15h40 Brasília)

Saiba mais sobre o conflito na Costa do Marfim

A Costa do Marfim, que já foi considerada o país mais rico da África Ocidental, foi dividida em duas regiões em setembro de 2002 – a norte, controlada pelos rebeldes, e a sul, controlada pelo Exército do país.

Os dois lados chegaram a fechar um acordo para a realização de eleições, mas houve uma escalada dos confrontos recentemente e líderes locais dizem que o país está à beira de uma guerra civil.

Leia abaixo um guia sobre o conflito em forma de perguntas e respostas.

Qual foi o motivo do conflito?

As forças rebeldes acusam os últimos governos de discriminarem a região norte, de maioria muçulmana, bem como os residentes no país de origem estrangeira.

Para estes, seria difícil tirar a nacionalidade e possuir títulos da terra. E os candidatos à Presidência do país têm que comprovar que ambos os pais são da Costa do Marfim.

Os partidos de oposição e os rebeldes pedem mudanças nessas leis.

Um acordo entre as duas partes, instaurou um governo de unidade nacional, mas ele também fracassou.

Para os simpatizantes do presidente Laurent Gbagbo, os rebeldes não podem ser "premiados" com cargos na cúpula do governo por terem iniciado uma luta armada.

Há muitos estrangeiros na Costa do Marfim?

Embora não seja mais o país mais rico da África Ocidental, a Costa do Marfim permanece como o maior produtor de cacau do mundo.

Ela atraiu milhares de imigrantes de vizinhos mais pobres, principalmente de Burkina Faso e Mali, que trabalhavam na lavoura de cacau.

No entanto, a economia começou a se deteriorar nos anos 90, e os marfinenses passaram a ressentir a quantidade de estrangeiros no país, que chegaram a contar um terço da população.

Foi então que o então presidente, Henri Konan Bedie, criou o conceito de "marfinez" ou "marfinidade".

Isso evitou que o líder da oposição, Alassane Ouattara, um ex-primeiro-ministro, se candidatasse à Presidência, baseando-se no fato de a família dele ser de Burkina Faso.

Muitos dos muçulmanos no norte da Costa do Marfim têm parentes além das fronteiras e interpretaram a atitude como um sinal da própria marginalização.

O que aconteceu com os acordos de paz anteriores?

O governo de unidade nacional proposto em janeiro de 2003 no acordo de paz intermediado pela França nunca chegou a ser posto em prática.

Em protesto contra a matança de 120 pessoas durante uma manifestação proibida pelo governo, que aconteceu em Abidjã, em março de 2004, os rebeldes e o partido de Ouattara deixaram o poder.

Uma investigação das Nações Unidas concluiu que as forças de segurança tinham identificado os manifestantes suspeitos de liderarem a oposição, formada por muçulmanos e estrangeiros, e tiveram a intenção de matá-los.

Em julho de 2004, os rebeldes e a oposição voltaram ao governo, depois de um acordo de paz intermediado por líderes da África Ocidental.

Segundo o trato, novas leis que facilitariam a naturalização daqueles de origem estrangeira, bem como o direito a se candidatar à Presidência, seriam introduzidas no fim de setembro daquele ano. O desarmamento dos rebeldes aconteceria duas semanas depois.

As leis acabaram sendo aprovadas, mas os rebeldes afirmaram que elas tinham sido tão diluídas que não fariam diferença.

No entanto, depois de um acordo intermediado pela África do Sul, Gbagbo aceitou passar por cima da Constituição e disputar as eleições com Ouattara, uma antiga exigência dos rebeldes.

Houve muitos confrontos armados?

Desde o início da crise, em setembro de 2002, a situação se transformou muito mais em um impasse do que um confronto aberto.

Os rebeldes tomaram rapidamente cidades de maioria muçulmana no norte, mas as tropas francesas impediram que eles chegassem até a principal cidade marfinense, Abidjã.

Essa divisão entre o norte e o sul praticamente não mudou desde então.

Em novembro de 2004, o Exército bombardeou uma base rebelde em Bouake e acabou matando também nove soldados de paz franceses.

Os franceses retaliaram destruindo a Força Aérea marfinense, o que detonou revoltas contra a França em Abidjã.

Qual é a participação da França nessa crise?

A Costa do Marfim foi colônia da França, e o país mantém uma base militar no território africano desde a década de 60.

Os franceses também garantem o franco marfinense e dominam a iniciativa privada do país.

Até os protestos anti-França levarem o governo a pedir a saída de cidadãos "não-essenciais" do país, havia 16 mil moradores na Costa do Marfim.

Os franceses mantêm 4 mil soldados na zona intermediária entre sul e norte, ao lado de outros 6 mil soldados da ONU.

A imprensa oficial, que apóia o presidente Gbagbo, vem incentivando protestos contra os franceses, e já existe um forte sentimento antifrancês no país.

O Exército marfinense acusou os franceses de atuarem como forças de ocupação quando eles patrulharam as ruas de Abidjã em uma tentativa de impor calma e proteger os cidadãos franceses.

Quais são os motivos dos últimos protestos?

Desde dezembro, o processo de paz parece estar avançando. Depois de semanas de negociação, o primeiro-ministro, Charles Konan Banny, foi nomeado líder do governo de unidade.

Ele deveria assumir o poder deixado por Gbagbo e conduzir a Costa do Marfim às eleições.

No entanto, um grupo de mediadores indicados pela ONU afirmou que o mandato do Parlamento não deve ser estendido.

Gbagbo tem maioria no Parlamento, e os simpatizantes dele afirmam que isso configuraria um "golpe de Estado constitucional".

Eles afirmam que vão sair do governo de unidade nacional e querem que a ONU e as tropas francesas deixem o país.