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Atualizado às: 24 de maio, 2006 - 08h17 GMT (05h17 Brasília)
 
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Ivan Lessa: O Código das Vinte
 
Ivan Lessa
Não se trata de ficção ou lenda urbana: se você traçar uma linha reta ligando todas as críticas negativas ao filme O Código Da Vinci, não importa a língua, verá surgir, num mapa do globo terrestre, como por encanto, uma porção de linhas desordenadas, correndo para cima e para baixo, se entrecruzando, tirando o chapéu umas para as outras, saindo na mão, trocando abraço e beijinhos, acenando para os passantes.

Trata-se um velho mistério, guardado a duas chaves (pedir cópia para o porteiro), passado de conhecido a desconhecido, em bares de reputação duvidosa. Chama-se o “código das vinte”.

Para os mais jovens, e não tabagistas, ponho os óculos de professor caduco, tomo da lupa, abro na mesa o bolorento dicionário, sopro fora a poeira e explico que “as vinte”, em gíria antiga, era o restozinho – o cotoco ou guimba – que sobrava do cigarro. Em tese, dava para, nela, se pegar vinte tragadas, daí o nome.

Não nego: fiz um infame jogo de palavras. Fi-lo, porque qui-lo, com “vinte” de fumo, mas, a distinta platéia sentiu que, me desse na veneta, eu poderia ter engrossado para valer. Contive-me. Mais não digo.

Volto ao assunto, com o mesmo tédio a que se assiste a filme com Tom Hanks, e revelo que a “justa posição” das tais linhas que resultam no “código das vinte”, examinadas sob o ângulo correto, deixam bem claro que, quem comentar, a sério ou brincando, o filme de Ron Howard (te esconjuro!), baseado no romance de Dan Brown (vade-retro!), acabará virando os olhos para dentro, dando uma volta de 360º na cabeça, falando em voz rouca de Louis Armstrong e vomitando verde.

Abro parágrafo para pedir desculpas aos fãs de jazz e do incomparável Louis Armstrong, por colocar o nome do divino trompetista e cantor no meio destas vis canalhices em que me meti. Mas trata-se de um dos efeitos do “código das vinte”.

Sinto muito. Quem vomita verde, que me perdoe também. Quase que não foi culpa minha.

Segredos asiáticos

Tudo culpa do “código das vinte”. O outro código, o que está dando esse bolo todo, irritando grupos cristãos que incluem países tão esotéricos quanto as lendas que cercam os Cavaleiros Templários, tais como a Coréia do Sul (a do Norte limitou-se a sorrir enigmaticamente, como uma Gioconda), a Tailândia e a Índia.

Na Tailândia, o grupo cristão local chegou a exigir do governo o corte dos últimos 15 minutos do filme, além de um aviso, antes e depois, de que tudo aquilo era obra de ficção. Quer dizer, eles pensavam que podia ser documentário.

Em Bombaim, que dissidentes, baseados no mais oculto dos ocultismos, insistem em chamar de “Mumbai”, Joseph Dias, líder do Fórum Secular Cristão, entrou em greve de fome e avisou que várias outras pessoas seguiriam seu exemplo.

Misteriosamente, o nome Anthony Garotinho não foi mencionado. Há 18 milhões de católicos na Índia, a complicar ainda mais a natação no Ganges e o pastar das vacas sagradas.

Deu branco

Chique mesmo, para mim, em matéria de protesto, foi o articulado pelo americano Michael McGowan, da Associação Nacional para o Albinismo e a Hipopigmentação, que deixou bem claro (epa!) a irritação provocada na irmandade pela existência, em filme e livro, de um monge assassino albino que, para preservar o segredo do Santo Graal (é Maria Madalena, para quem ainda não sabia), promove uma sacudida série de assassinatos.

Para McGowan, mais uma vez o albinismo (não confundir com “alpinismo”, onde as quedas são menores) volta a ser sinônimo de vilania, em dois gêneros – ficção e cinema – onde inexistem, segundo ele, albinos simpáticos ou heróicos.

Amigos, bronzeados e morenos, o segredo do “código das vinte” é simples: fique na esquina fumando seu cigarrinho, dê o toco para o primeiro pobre que pedir e não veja, não leia e não tenha nenhuma opinião sobre o – ô cansaço ter de digitar o nome! – Código Da Vinci.

 
 
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