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Atualizado às: 01 de junho, 2006 - 18h15 GMT (15h15 Brasília)
 
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Uma noite em Londres com mestres da Bossa Nova
 

 
 
João Donato
João Donato durante show em Londres
Ausente da mídia brasileira, a bossa nova provou que continua muito viva em Londres, o que confirma uma realidade que observo a cada show que faço como cantora radicada na Grã-Bretanha.

Nesta semana, a capital britânica foi palco de um mega-concerto que reuniu um pioneiro do movimento, João Donato, e ainda Marcos Valle, a cantora Wanda Sá e outros convidados - eu incluída.

Exatamente. Eu, que cresci ouvindo e cantando a música desses mestres, tive a honra de participar do projeto e de cantar ao lado dos meus heróis.

Nós nos apresentamos para uma platéia calorosa, de mais de 800 pessoas, no Cadogan Hall, região central. Fomos aplaudidos de pé.

A imprensa londrina saudou a vinda de Donato como sua estréia na cidade, já que em sua primeira visita, há 40 anos, o compositor e pianista veio acompanhar Astrud Gilberto.

Donato, hoje aos 72 anos, lançou recentemente no Brasil o DVD Donatural. Ele acaba de gravar um álbum com o saxofonista Paulo Moura. Na Grã-Bretanha, alguns de seus álbuns foram relançados pelo selo WhatMusic.

Conhecido por suas respostas evasivas a jornalistas, o autor de clássicos como A Paz, Amazonas, Bananeira e A Rã falou abertamente comigo sobre composições, Londres e João Gilberto.

Circula entre os músicos brasileiros uma história. Alguém teria perguntado ao outro João, o João Gilberto, o que ele achava do João Donato. Segundo contam, o João Gilberto teria respondido: "O Donato? Muito louco...". O que você acha disso?

João Donato - (Rindo). Eu acho legal. Se ele acha que eu sou maluco, é um elogio. Vindo dele, é a melhor coisa que eu poderia ouvir.

Por quê? Você o admira?

JD - Muito. É uma das pessoas mais bonitas que eu conheço. É muito agradável ouvir um comentário desses. "Ele é maluco". Isso é o que eu ouço a respeito de pessoas geniais, como Einstein. As mulheres também. Algumas são doidas e igualmente maravilhosas.

Você diria que tem muito da música do outro João na sua?

JD - Como assim?

A pergunta é meio óbvia. Com certeza existe muito da sua música na música de João Gilberto e vice-versa. Afinal, os dois são pioneiros da bossa nova.

JD - Sim, nós compartilhamos meio-a-meio a nossa própria originalidade (risos). Como eu gosto de fazer com todo mundo. Metade da minha felicidade pertence a você. Metade da minha tristeza pertence a você também.

Londres tem um significado especial para você?

JD - É a minha segunda visita a Londres. A primeira foi há 40 anos, com Astrud Gilberto, a Garota de Ipanema. Nós tocamos, Paul McCartney estava lá ouvindo. Nos conhecemos, conheci sua namorada na época. Agora, vim com Marcos (Valle) e Wanda (Sá), o que também é ótima companhia. Me sinto tão bem como da última vez. Até melhor. Eu mudei, Londres deve ter mudado junto comigo.

Estou encantado com o estilo de vida londrino. O estilo britãnico de vida. É muito confortável, silencioso. É como me sinto. Algumas cidades te dão... (procurando a palavra)

Paz?

JD - Paz. A atmosfera de Londres é deliciosa, não importa o tempo que esteja fazendo.

(Cantando) "A paz invadiu o meu coração..." A paz de Londres invade seu coração?

JD - (Rindo) Sim. Eu acho que é o melhor sentimento do mundo. Me sinto bem aqui.

Você está compondo?

JD - Eu componho 24 horas por dia. Os japoneses brincam comigo dizendo que sou um compositor aberto 24 horas por dia. Quando estou acordado, penso o tempo todo em música. Mesmo quando falo neste microfone com você. Às vezes decido que está na hora de escrever, ao invés de só pensar. Então escrevo as músicas para não esquecer. Como alguém que escreve uma carta para um amigo. Quanto mais feliz e em paz me sinto, mais bonita é a música que ouço dentro de mim.

Sabe que gravei duas músicas suas? A Rã e Bananeira..

JD - É mesmo? São duas das minhas favoritas.

Os músicos de jazz por aqui amam suas harmonias e melodias. Eu adoro a forma como a harmonia vai mudando embaixo da melodia em A Rã.

JD - Eu tento não interferir na voz da música. Ela tem sua própria maneira de viajar. Simplesmente desfruto do que estou ouvindo. Se algo me agrada, penso que aquilo deve estar agradando também a outras pessoas.

Você é conhecido por suas respostas lacônicas, do tipo "sim" e "não", quando é entrevistado. Por quê?

JD - Eu era assim. Talvez porque não tivesse certeza do que estava pensando, ou não soubesse do que gostava ou não gostava. Respondia sim e não, sem explicar o porquê. Hoje tenho mais clareza do que quero de você, das pessoas, de mim, da vida.

Será que isso se chama maturidade?

JD - Acho que sim. Posso dizer que cresci e amadureci um pouco. Às vezes você não alcança maturidade com os anos, você amadurece com o seu desenvolvimento espiritual. Algumas crianças são muito maduras.

(Entrevista interrompida. É hora de passarmos o som antes do espetáculo.)

* Mônica Vasconcelos tem cinco discos gravados na Grã-Bretanha e é jornalista da BBC Brasil em Londres.

 
 
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