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Atualizado às: 25 de setembro, 2006 - 10h15 GMT (07h15 Brasília)
 
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Ivan Lessa: Os ovos do Príncipe
 
Ivan Lessa
Eu não tenho tempo para fazer café da manhã caprichado. Nem breakfast ou desjejum.

Já tive minha época de média com pão e manteiga, de pé no boteco da esquina e estávamos conversados.

Café da manha? Desjejum? Pequeno almoço, como dizem em Portugal? Breafast? Esquece. Agora, tem um troço.

Eu sou chegado a um ovo cozido quente. Cansei de, lá pelas 4 da matina, no Rio, ir de dois ovos quentes no Mau Cheiro. Que vinham num copo grande, colherona de haste longa enfiada dentro e, em geral, um pão da primeira fornada do dia com manteiga.

Nada tinha a ver com ressaca. É que pegava bem, depois de papo e uns chopes. Pifão grande, jamé de la vi, feito se dizia. Ovos quentes era de madrugada no boteco com U garçom fanho mal humorado.

Já aqui, no Reino Unido, onde eu vim tomar jeito na vida, resolvi por uma questão de afabilidade e bom gosto, aderir aos hábitos locais e tomar – ou será comer? – meus ovos quentes de manhã, feito gente. Numa pequena taça, com uma colherzinha de sobremesa, torrada com pão de forma encharcada de manteiga e, então, o ponto alto do ritual: ovos, ou ovo quente.

Tudo bem, mas quanto tempo de fervura?

Mais: conta-se o tempo do momento em que o ovo foi delicadamente colocado na panelinha ou é para ele ferver junto com a água? O tempo de ferver, claro, depende do gosto de cada um, mas e até esse cada um encontrar seu tempo de ovo quente?

Newton não teve de lutar tanto com a maçã que lhe deu as premissas da Lei da Gravidade. Depois de umas duas ou três semanas de experiências, cheguei à conclusão de que meu ovo quente (na verdade “ovos quentes”; eu sempre fui homem de dois e até mesmo, em circunstâncias excepcionais, três) era de 2 minutos e 30 segundos, nem mais nem menos.

O problema era o tempo que isso consumia. Eu gostava mais da época em que pedia, comia, pagava e seguia em frente. Acabou-se a sopa. Ou acabaram os ovos quentes do Mau Cheiro.

De positivo, ficou a lição de que eu deveria degustar mais os danados. Como se viessem trufados ou coisa assim. Está aí uma boa idéia: ovos quentes ligeiramente trufados. Fica para este inverno que não chega.

Dos ovos reais

No sábado, aqui no Reino Unido, lá estava em todos os jornais: o príncipe Charles aprecia um bom ovo quente depois de uma boa, ou mesmo má, caçada.

Só que tem que estar no ponto preciso que ele prefere. Em consequência, a criadagem tem de deixar sete ovos quentes em sete tacinhas para que Sua Alteza venha, dê uma colherada na cabecinha de cada um, até encontrar aquele que estiver mais no ponto principesco.

O fato vem contado em novo livro a ser lançado por esses dias, intitulado “Sobre a nobreza” e assinado por Jeremy Paxman, jornalista de primeiro time da BBC, conhecido como o “Torquemada das 10 e meia”, já que é nessa hora que o programa que apresenta, e atormenta (faz muito bem) políticos vai para o ar.

Paxman não é homem de botar azeitona na empada de ninguém -- ou torrada em ovo quente dos outros, nobres ou não. Dadas suas credenciais é que a história virou notícia de primeira página.

Teve um jornal que enfileirou sete ovos em seus copinhos. A equipe que porta a nobre voz do príncipe voou no mesmo sábado para negar com veemência, conforme fazem tantas Vossas Excelências no programa de Paxman. Este manteve-se calado, coisa rara.

Algumas coisas, eu só gostaria de saber uma coisa: quantos minutos leva o nobre ovo quente ideal? E mais e principalmente: o príncipe Charles decapita o ovinho (ou ovinhos) pelo lado mais fino, aquele da pontinha, ou o outro, o maior, aquele que poderia ser seu (dele lá, do ovo) derriére?

Jonathan Swift escreveu algumas de suas mais gloriosas páginas a respeito da guerra entre os que quebravam os ovos de um lado ou do outro. Talvez, nessa besteirada toda, o melhor seja reler Swift e deixar os vivos para lá, que eles sempre acabam se virando. Em 2 minutos e meio, acho.

 
 
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