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20 de setembro, 2006 - 22h27 GMT (19h27 Brasília)

Chris Hogg
De Tóquio

Sucessor de Koizumi é líder popular, mas inexperiente

Shinzo Abe é um homem com política no sangue. Ele vem de uma família que já gerou dois primeiros-ministros - seu avô e seu tio-avô.

Seu pai era um ministro das Relações Exteriores que só não chegou ao cargo máximo japonês devido a um câncer no pâncreas. Para alguns tradicionalistas, é natural que agora Shinzo Abe receba de “herança” o cargo.

Para os padrões japoneses, Shinzo Abe, de 51 anos (nesta quinta-feira, ele completa 52), é jovem para o cargo de primeiro-ministro.

Ele ainda é inexperiente nos grandes cargos de governo. Sua posição atual, de ministro-chefe do Gabinete, é seu primeiro emprego no altíssimo escalão.

Popular

“Ele é relativamente novo na política”, afirma o analista político Koichi Nakano, professora da Universidade de Sophia, em Tóquio.

“Ele nunca esteve em uma pasta que exigisse um olhar aprofundado sobre seguridade social ou diplomacia – uma pasta ministerial de substância.”

Apesar disso, Abe é muito popular. Antes da sua eleição, mais de metade do eleitorado japonês o apoiava.

Como ministro-chefe do Gabinete – na prática o principal porta-voz do governo – ele tinha muita visibilidade, conduzindo coletivas de imprensa quase que diariamente.

Sua posição firme contra a Coréia do Norte, país que iniciou testes balísticos neste ano, fez com que ele conquistasse o apoio de grande parte dos japoneses.

Facções partidárias

O cargo parece ter sido preparado sob medida para ele pelo primeiro-ministro Junichiro Koizumi e por outros políticos do Partido Liberal Democrático (PLD).

A sigla governa o Japão quase sem interrupção desde 1955. O PLD é, na sua maioria, conservador, mas engloba diferentes facções que rivalizam pelo poder.

A influência dessas facções caiu durante o governo de Koizumi, mas elas ainda são importantes e poderão provocar dor de cabeça no novo chefe do partido e do governo.

“O maior desafio de Abe será a formação de um novo gabinete”, diz o professor Masatoshi Honda, do Instituto Nacional de Pós-Graduação em Estudos de Política.

“Se ele não acertar no equilíbrio das demandas das facções concorrentes, pode ser difícil preservar a harmonia com sua equipe. De certa forma, ele terá de priorizar o consenso, em vez de exibir liderança forte.”

Outros analistas acreditam que o esforço de Koizumi para mudar a forma como a política é conduzida vai ajudar Shinzo Abe.

“Na tradição do PLD, ele não têm muito poder, já que ele não é o líder de uma facção e não tem uma carreira longa, na qual poderia ter acumulado favores de outros políticos”, afirma Tsuneo Watanabe, do Instituto Mistui de Estudos em Estratégia Global, em Tóquio.

“Mas na 'nova tradição Koizumi', ele tem poder, porque é uma figura popular com apelo junto aos eleitores. Ele poderia atrair muitas pessoas para votar a favor do PLD, que provavelmente é o real motivo que o tornou o preferido entre os políticos do partido.”

Relações pobres

Quais devem ser as prioridades de Shinzo Abe?

Antes das eleições, ele deu poucas pistas sobre suas preferências no campo da política econômica.

Ouviu-se mais sobre seu desejo de “criar uma nova diplomacia na qual o Japão, por vezes, assume a liderança e afirma opiniões para estabelecer as regras mundiais”.

Alguns acreditam que isso significa que o Japão será, sob o comando de Abe, muito mais firme do que no passado. Isso preocupa alguns dos vizinhos asiáticos do Japão.

Ele também manifestou a vontade de mudar a consituição do país, já que a atual foi esboçada pelos americanos, na época da ocupação do pós-Guerra.

Outra proposta de Shinzo Abe é a revisão da lei básica de educação do Japão, de 1947, que exige que escolas ensinem as crianças como amar o país. Tais medidas aproximam o futuro primeiro-ministro da parte mais conservadora do eleitorado do PLD.

O economista Martin Schulz, do Instituto de Pesquisa de Fujitsu, em Tóquio, alerta que o novo primeiro-ministro terá dificuldades se ele negligenciar as reformas econômicas.

“Ele precisa conquistar grandes vitórias no âmbito das reformas de pensões e saúde pública. Isso será muito difícil de realizar, e exigirá ação firme e decisiva assim que ele for confirmado no cargo.”

Para o correspondente do periódico The Oriental Economist, Takao Toshikawa, a principal tarefa de Shinzo Abe será melhorar as pífias relações do Japão com os países vizinhos.

“Acredito que ele fará uma visita para Pequim para uma cúpula com o presidente chinês Hu Jintao assim que assumir o cargo”, diz ele.

“O principal trunfo que a oposição tem contra o PLD é a fraqueza da política do partido em relação à Ásia. Se ele fizer uma cúpula, essa crítica não será mais válida.”