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30 de maio, 2007 - 10h53 GMT (07h53 Brasília)

Carolina Glycerio
De São Paulo

Resultado 'bate' com o que eu sinto, diz Djavan

O cantor Djavan disse que o resultado do exame de DNA que indica que ele é 65% africano, 30,1% europeu e 4,9% ameríndio "bate" com o que ele sente.

"Eu sou uma pessoa do mundo, mas me sinto indubitavelmente negro em tudo. A minha música é negra, eu sou um homem negro e adoro as religiões que descendem da África", disse Djavan, em entrevista à BBC Brasil.

"Eu fui criado sob a cultura negra, tenho total a coisa do sangue negro, da veia negra na minha vida", contou o artista, que foi criado pela mãe – "uma negra linda com a cultura africana no sangue".

Quanto aos 30% de ascendência européia indicados no exame, Djavan disse que já esperava ter uma alta carga de genes vindos da Europa porque sabia que seu pai era descendente de holandeses.

"Meu pai era louro de olhos azuis", disse o cantor. "Se eu tivesse saído com os olhos azuis, não teria sido nenhuma aberração."

"Só achei um pouco baixa a parte índia. Pensei que fosse de 10% a 15%. Tenho um pouco de índio também, eu sinto."

Identificação com a África

O artista acredita que suas raízes africanas expliquem seus talentos musicais e o sentimento de identificação que teve nas viagens que fez pelo continente.

"Na primeira vez que eu fui à África, em 81, tomei o maior susto, quando eu pude identificar ali a raiz da minha música, porque eu tenho uma música que no início da minha carreira era muito contestada por muita gente. Diziam que era uma coisa estranha, que não tinha nem pé nem cabeça, que a minha divisão rítmica era uma coisa estranha e tal."

"Cheguei em Angola e pude ver nitidamente onde estava a raiz disso tudo", completou Djavan, que também contou ter ficado muito à vontade na Argélia. "Então a minha identificação com a África é muito grande. Pela religião, cultura, música, a comida também."

O geneticista Francisco Salzano, professor titular de Evolução Humana da UFRGS, diz, no entanto, que não há fundamentos científicos para associar aptidões artísticas a uma determinada origem geográfica.

"É discutível", disse Salzano. "Não há nenhuma indicação formal até hoje de que preferências ou estilos musicais ou qualidades no esporte sejam específicos de um grupo étnico."

Bisavó escrava

Assim como fez com os outros oito convidados da BBC Brasil, o geneticista Sérgio Danilo Pena, professor titular de Bioquímica da UFMG e diretor do Laboratório Gene, fez três exames de Djavan: o de ancestralidade genômica (que estimou as porcentagens de genes de origem africana, européia e ameríndia) e dois outros para rastrear ancestrais do lado materno e paterno.

Djavan sabia pouco da história familiar da mãe, a não ser que a bisavó era escrava e a avó, "semi-escrava".

O teste que examinou a ancestralidade materna do cantor revelou um conjunto de seqüências genéticas (haplogrupo) que é predominantemente encontrado na África Ocidental e atinge freqüências máximas (17%) no Senegal.

"Na população de pretos de São Paulo ele representa 6% dos indivíduos testados", diz o relatório sobre Djavan. "Seqüências idênticas às de Djavan foram vistas na seguintes populações: Mali (Mali), Peul (Senegal), Bassa (Camarões), Yao e Chwabo (Moçambique) e Nairobe (Quênia)."

Já o exame que rastreou a linhagem paterna identificou um haplogrupo "tipicamente europeu e mais característico dos países do norte", mas não precisa em que país exatamente ela teria se originado.

"Estima-se que a mutação que criou o haplogrupo (de Djavan) tenha ocorrido de 22 mil a 23 mil anos (atrás)."

Em geral, quanto mais antiga uma linhagem, mais difícil é precisar sua origem.

Embora saiba apenas da ascendência holandesa, Djavan também acredita ter raízes espanholas pela identificação que diz sentir com a cultura moura do país.

"Na primeira vez que eu tive em Sevilha, fiquei chocado com a identificação. O cheiro da cidade me transportou para uma sensação que eu nunca tinha sentido. É como se eu já tivesse vivido naquele lugar por vários e vários anos na minha vida e estivesse voltando."

Djavan também considera ser "uma coisa estranha" ele ter fluência em espanhol, sem nunca ter estudado a língua. "Quando eu viajo, dou entrevista em espanhol."

Os resultados do teste de Djavan - ancestral materna africana e paterna européia - revelam um padrão da população brasileira, que nasceu da mistura dos colonizadores portugueses (que vieram em grupos com muito mais homens do que mulheres) com as índias nativas e, a partir de 1550, com as africanas trazidas como escravas.

"No processo de mistura interétnica que houve no Brasil as relações foram assimétricas. Isto é, o parceiro masculino era geralmente europeu e a mulher, africana ou ameríndia", explica o geneticista Francisco Salzano.

"Por isso você costuma ter uma percentagem maior de ancestralidade ameríndia no DNA mitocondrial (que indica a linhagem materna) e uma percentagem de ancestralidade européia no cromossomo Y (que indica a linhagem paterna)."