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Atualizado às: 13 de julho, 2007 - 10h50 GMT (07h50 Brasília)
 
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Do embranquecimento
 
Ivan Lessa
Outro dia, aqui mesmo neste canto que me cabe e onde caibo, como gosto de falar, andei mencionando esse problema que os brancos andam criando com representantes de outras raças.

Sim, sim, eu sei, só existe uma raça, a raça humana, coisa e tal, mas todos sabem o que eu quero dizer. Está nos documentos que nos exigem, está nos recenseamentos por que passamos.

Nos Estados Unidos, que tantos preconceitos raciais nutriram, e ainda nutrem, resolveram com uma palavrinha simples: afrodescendente. Aqueles que nos filmes de caubói já foram "índios" ou "peles-vermelhas"? São "American natives", nativos americanos.

Nós também temos, quero crer, ameríndio, mas o termo é muito pouco usado pela mídia e várias camadas sociais, mesmo as mais esclarecidas, já que ninguém sabe direito o que e quem seja.

O que fica claro – e me perdoem o infame jogo de palavras – é que todo mundo quer mesmo é ser "branco", tão simplesmente, embora não seja tão fácil quanto possa parecer. Ser branco, isto é.

Acreditem-me, parafraseio o poeta Drummond, de costas para o mar, e garanto que eu também já fui branco como vocês e sei como é que é. Fogo.

Uma solução marota

Não vejo a vantagem em ser branco. Qualquer matiz ou tonalidade de branco. Tendo um dinheirinho no banco e em ações e ganhando razoavelmente, é óbvio.

Por isso nunca entendi o que tanto aflige, apenas para ficar em sua expressão mais popular, o Michael Jackson. Menino, rapaz e homem de tremendo talento, ganhando fortunas inimagináveis por dia, hora e minuto, boa pinta quando na flor de sua juventude, de repente, talvez com a adolescência, sempre um problema, resolveu ser branco na vida.

Pior. Resolveu ser branco e Joan Crawford simultaneamente.

Entendo mais ou menos, ou tento entender, sua pinimba com a cor da própria pele, os enredos de seus cabelos encaracolados, o chato do teimoso nariz que não se arrebita como, para citar apenas um exemplo que me tenta, Susan Hayward.

E os lábios? Eternamente sensuais, mesmo diante da aparição de Nossa Senhora de Fátima, para ficar em um outro exemplo diferente de estrelas de Hollywood.

Sim, era duro ser Michael Jackson. A dinheirama que ele auferia deveria compensar isso tudo.

Acredito na tese adiantada por muitos de que os problemas familiares – essa danada dessa inveja – colaboraram para a deterioração de seu bom senso. Nunca entendi foi a cismeira com Joan Crawford. Certo perdeste o senso, rapaz!

Não citei Susan Hayward? Pois poderia ter citado outras esplêndidas estrelas de aparência física soberba. Ingrid Bergman, Ava Gardner, Kathryn Grayson.

Mas Joan Crawford?! Ora, vamos e venhamos. Na verdade, vamos.

Uma rua chamada brancura Rinso

Há em Londres uma rua chamada Harley. É a rua dos médicos. Sinônimo de medicina. George Bernard Shaw a usou para cair de pau na profissão em uma de suas peças, O dilema de um médico. Ela continua lá dando um bom-nome (e muitas vezes mau-nome) às folias hipocráticas.

Harley Street, como a chamam, esteve semana passada nos noticiários. Mais de um jornal publicou reportagem sobre como um bom número de cirurgiões plásticos vem oferecendo à distinta clientela afro- ou caribo-descendente, além dos asiáticos, cremes que supostamente clareiam a pele
sem causar danos à saúde.

Os que criticam a existência desse mercado se opõem devido ao fato de que as tais panacéias cremosas, além de constituírem perigo à saúde, sim, senhor, não fazem mais do que perpetuar atitudes racistas.

Parece incrível, mas ainda há, nos dias de hoje, gente que, como Michael Jackson, quer "embranquecer", como se tal fosse possível ou desejável. A água sanitária, muito empregada em supostas "soluções mágicas", não é uma boa.

Quantos estarão, neste momento, com fotos de Joan Crawford abertas diante dos cirurgiões, pedindo: "Doutor, eu quero ficar igualzinho (sim, igualzinho) a essa moça. Dá?"

Tomara que não dê.

 
 
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