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Atualizado às: 22 de agosto, 2007 - 10h45 GMT (07h45 Brasília)
 
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Projeto usa DNA para mapear expansão humana
 

 
 
Fabrício Santos explica o projeto Genográfico para operários de origem Quechua no Altiplano Peruano, perto da cidade de Cusco (Foto: Pedro Paulo Vieira)
O biólogo Fabrício Santos coordena o projeto no Brasil (Pedro P. Vieira)
Um projeto da National Geographic e da IBM está tentando reconstituir a história da ocupação do planeta pela espécie humana através da análise do DNA de cem mil pessoas de populações indígenas em todo o mundo.

Os cientistas envolvidos no Projeto Genográfico acreditam que essas populações guardem no seu DNA informações valiosas sobre os seus ancestrais, que podem esclarecer e detalhar os caminhos pelos quais a humanidade se espalhou pelos cinco continentes, a começar pelo primeiro grupo de homens modernos que deixou a África dezenas de milhares de anos atrás.

Para o projeto, a sociedade científica montou dez centros ao redor do mundo, incluindo um em Belo Horizonte, Minas Gerais, sob a coordenação do biólogo e professor Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e que servirá de base para trabalhos na América do Sul.

"Este projeto pretende colocar em evidência os povos indígenas na história do Brasil e da América pré-colombiana, da qual temos pouquíssimos registros já que os indígenas não conheciam a escrita", afirmou Santos.

Mas a participação de populações indígenas brasileiras ainda depende de uma aprovação da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), que está pendente desde 2005.

Enquanto não sai a autorização da Conep para dar início aos trabalhos de amostragem de indígenas brasileiros, os pesquisadores do centro mineiro se preparam para dar início à análise de amostras de DNA colhidas em outros países.

"Queremos contar a história da ocupação da América do Sul: como a gente chegou aqui e ocupou isso tudo", acrescentou Pedro Paulo Vieira, que trabalha com Santos no projeto como coordenador das atividades de campo.

No Peru, por exemplo, o projeto já começou, com uma expedição de campo em julho, na qual já foi estabelecido o contato - e colhidas algumas amostras de DNA - de indígenas Quechua e Aimará.

Pedro Paulo Vieira diz que a aprovação de qualquer projeto que envolva indígenas no Brasil é complexa porque tem de levar em conta "um histórico pregresso de falta de respeito no contato com esses povos", mas reconhece que estão no limite do prazo para concluir os trabalhos até 2010, quando termina o projeto.

Contato

Pedro Paulo Vieira em visita à comunidade Aymara no Lago Titicaca (Foto: Jason Blue-Smith)
Pedro Paulo Vieira coordena atividades de campo do projeto na América do Sul

Além do centro mineiro, haverá outros nove espalhados pelo planeta. O objetivo é que cada um deles processe de 5 mil a 10 mil amostras de DNA de indígenas de cada continente. Cerca de 30 mil pessoas já foram testadas e a idéia é chegar a 100 mil até 2010.

No caso do Brasil, todo o contato com as lideranças indígenas será feito, se o projeto for aprovado, por intermédio da Funai (Fundação Nacional do Índio). Populações completamente isoladas - estima-se que haja 46 delas na Amazônia - não serão abordadas.

A National Geographic chama as populações que terão seu DNA testado de "populações chave". Na definição da sociedade científica, são populações estáveis que vivem nas suas respectivas regiões geográficas e preservam a sua cultura há diversas gerações.

"Os indígenas brasileiros podem contar um pouco da história pré-colônia através de seus DNAs", exemplifica Santos.

Ele ressalta ainda que não se trata de um projeto "de geneticista para geneticista" e, sim, de um trabalho conjunto que envolve áreas como arqueologia e linguística e que pretende trazer respostas de como esse continente foi ocupado.

"Quando estudamos história do Brasil, pouco se fala da história dos indígenas antes da chegada dos europeus. É com ciências como a genética, arqueologia, linguística e antropologia que é possível resgatar a história dos povos indígenas e levá-las para conhecimento da sociedade, incluindo os próprios indígenas."

Entre outras perguntas que os pesquisadores pretendem responder estão como se deu a expansão dos Tupi no Brasil? É verdade que os vikings chegaram à América do Norte antes de Colombo? Os índios Botocudos são descendentes de Luzia, como foi batizado o esqueleto mais antigo encontrado nas Américas?

Expansões humanas

O biólogo Walter Neves, Professor Associado do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP, explica que as teses atualmente vigentes usadas para explicar o que ele prefere chamar de "expansões humanas" – já que o termo migrações implicaria um destino conhecido, que não existia – são baseadas, sobretudo, em descobertas da arqueologia a da paleontologia.

Centros da National Geographic
Melbourne, Austrália
Xangai, China
Tamil Nadu, Índia
Beirute, Líbano
Filadélfia, EUA
Moscou, Rússia
Belo Horizonte, Minas Gerais
Joanesburgo, África do Sul
Projeto Genográfico

Neves, que também é antropólogo e arqueólogo, explica que há um certo consenso na comunidade científica de que o homo sapiens surgiu na África por volta de 200 mil anos atrás e de lá "tentou sair" três vezes.

Na primeira, explica Neves, há 120 mil anos, o homem só conseguiu chegar até o Oriente Médio. A segunda expansão, 70 mil anos atrás, levou o homem até o litoral sul da Ásia, de onde ele foi para o Sudeste Asiático e para a Austrália. Na terceira, ocorrida entre 45 mil e 50 mil anos atrás, já provido de uma tecnologia mais avançada, o homem teria conseguido se expandir para todos os lados.

Segundo Neves, a genética pode não só pôr essas teses à prova como revelar mais detalhes sobre os primórdios da humanidade.

"Para ter uma compreensão mais detalhada das expansões humanas, mas sobretudo da última, que foi mais retumbante, precisamos necessariamente estudar a diversidade genética que existe hoje", afirmou Neves, responsável pelo estudo de "Luzia", o esqueleto humano mais antigo das Américas.

Além de testar as populações tradicionais, a National Geographic abriu ao público geral a possibilidade de participar do projeto, comprando um "kit de genealogia" no site da entidade. Eles ajudarão a contar capítulos mais recentes da história da humanidade, como a formação das grandes cidades.

Cerca de 220 mil kits já foram vendidos; a renda obtida será revertida para um fundo que financiará futuras pesquisas de campo e projetos educativos e de preservação cultural de povos indígenas.

Os exames da "parte pública" do projeto estão sendo feitos pelo Laboratório Family Tree DNA, que tem entre seus sócios o brasileiro radicado nos Estados Unidos Max Blankfeld.

 
 
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