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Atualizado às: 24 de setembro, 2007 - 07h59 GMT (04h59 Brasília)
 
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Deixem meus poloneses em paz!
 
Ivan Lessa
Um grupo de 3 ou 4 poloneses esteve, há uns tempos, fazendo umas obras no andar térreo da casa em que moro. Não ficaram mais que uma semana.

Começavam cedo, no horário permitido, que são as 8 horas da manhã, davam uma parada, por volta do meio-dia, para dar cabo dos sanduíches de celofane, como os chamo, trazidos cuidadosamente de casa, e mandavam-se às 4 e meia da tarde em ponto, conforme o combinado com a administradora responsável.

Jovens, bom aspecto, modos impecáveis no “good morning” e “goodbye”.

Danados de eficiente, mesmo aos olhos leigos, como os meus.

Melhores que a filha do Pitanga

Os trabalhadores poloneses em Londres fazem um sucesso que parece até novela das 8 da Globo.

Não consegui descobrir o que acham deles seus rivais locais, ingleses ou irlandeses.

Como com eles, em diversas ocasiões, tive desentendimentos, alguns sérios, e deixei de fazer fé um sua capacidade, ou vontade, de trabalho, desconheço o que pensam da doce invasão polonesa.

Devem estar rancorosos pelos pubs da cidade virando copo de cerveja que não acaba mais. Bebendo mal, como sempre. Conforme na época em que tinham trabalho garantido.

A Polônia entra em ação

O problema é que a Polônia, através de seu presidente, Lech Kaczynski, e a ministra do Trabalho, Joanna Kluzik-Rostkowa, deu início a uma campanha no sentido de trazer de volta a rapaziada (todos entre 18 e 32 anos) que compõe a diáspora de 600 mil poloneses que, desde que a Polônia entrou para a Comunidade Européia, em 2004, deixou o país em busca daquilo que nós todos, não importa a nacionalidade, chamamos de “uma vida mais melhorzinha”.

A maior parte deles se mandou principalmente para aqui, na Grã-Bretanha, ou para a Irlanda.

Há uma ligeira mas segura pressão no sentido de seduzi-los à volta ao torrão natal, que, com uma população de 38 milhões de habitantes, ressente-se agora da falta de médicos, enfermeiros, engenheiros e operários.

A Polônia está tensa. Greve sucede greve. Aqueles que ficaram exigem melhores salários.

Há uma grande falta de poloneses na Polônia. O próprio presidente Faczynski, no início do ano, queixou-se de não encontrar um decorador decente para fazer as obras necessárias.

O desemprego anda pela casa dos 15% e, entre os com menos de 25 anos, precisamente 25% também.

Estratagemas indiretos já

Estudos realizados aqui na Grã-Bretanha indicam que, da moçada de 600 mil, aqui dando duro, perto de 60% estariam dispostos a fazer a viagem de volta.

Carecem, no entanto, de incentivo. E têm um certo medo. País que foi comunista dá nessas coisas.

Acostumaram-se, os poloneses de cá, aos costumes locais ( “Have a nice day”, “Take care”) e pelo menos um sanduíche de atum na hora do almoço. O governo polonês já começou a tentar convencer parentes e amigos do peito dos 600 mil no sentido de entusiasmá-los (ou seja a tal da “pressão”) com a possibilidade de uma volta.

Mais: deram início a uma campanha publicitária, em vários partes da Comunidade Européia, tentando seduzir os (eles não chamados assim) “fujões”, que, ao todo, chegam a 2 milhões.

É muito polonês por estas Europas, é pouco polonês por aquela Polônia.

A parte que me toca

Pela parte que me toca, no melhor sentido, claro, e sem insinuações vias, torço contra a campanha. Quero os poloneses aqui. Ao meu alcance.

Tem um, inclusive, que montou uma bem sucedida empresa de quebra-galhos informáticos. Você liga e, dez minutos depois, de moto, tem a seu dispor um “geek” prontinho para dar um jeito no seu micro.

O rapaz não fala inglês, mas é bamba em eletrônica. Tenho cartão da firma. O meu computador vai bem, obrigado. Mas nunca se sabe.

Finalizo, passando a bola para o outro extremo do campo: e a diáspora brasileira? Vocês aí querem ou não querem a turma de volta?

Há mais brasileiros espalhados pelo mundo do que há poloneses na Polônia, me juram. Perto de 38 milhões. Sendo que 20 milhões deles de Minas Gerais.

Já que o país – refiro-me ao Brasil – está com a burra do dinheiro curvada debaixo de tamanho peso, que tal uma campanha publicitária para valer (vai ter dinheiro pra todo mundo) chamando de volta nossa gente boa, alegre e trabalhadora?

Garanto que voariam de volta. Menos os que jogam futebol, óbvio. Isso é especialidade que por aqui não há e vale um dinheirão que nós não temos como pagar, em vista do alto preço gasto com executivo, legislativo, judiciário e arredores, conforme atestam nossas folhas. De pagamento, inclusive.

Seja como for, só quero o seguinte: ninguém que venha tentar meus (sou possessivo) poloneses. Que fiquem por aqui. Bem pertinho. Ou então me mandem um mineirinho só para mim.

 
 
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