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Ivan Lessa
Vá lá que seja, não é muito tempo. Estourando uns vinte minutos. O que eu levo para vir de metrô de minha casa até aqui a BBC.

Me desentendi com o jornaleiro na porta de minha estação. Num dia chuvoso, mês passado, deixei que meu guarda-chuva respingasse em cima de dois ou três número empilhados debaixo do toldo que protegia sua banca.

Reclamou num tom que não gostei. Cockney, pobre, esses folclores são muito divertidos enquanto não pisam no pé da gente. Joguei umas boas moedas (quatro libras para ser preciso: duas moedas de duas libras. Mais do que o suficiente para pagar o prejuízo) nos jornais por mim estragados e me mandei sem olhar para trás ou tentar ouvir o praguejar alto do figuraço agora odioso.

Nisso que dá, vim pensando no metrô olhando a cara estúpida das mocinhas dizendo inanidades em seus celulares. Nisso que dá se meter com jornaleiro. Mesma coisa que jornalista. Não se pode confiar nem um nem em outro. Quando menos se espera, passam-nos a perna.

Não sou homem nem de urinar nem de ler livro em público. Passei então a colocar na bolsona em que carrego meus “bilongues” (a bênção, Emília! A bênção, Monteiro Lobato!) um número das revistas que assino mais por hábito que por interesse.

Tudo palavrinha mendaz uma atrás da outra tentando enganar os trouxas. Que remédio? Tacar junto ao ouvido um desses aparelhinhos com música, mesmo a música que gosto, eu me recuso.

De Orlando Silva a Billy Eckstine, passando com imenso deleite por velhas big bands e grandes solistas de jazz, só na privacidade de meu lar e aos berros, de preferência em vinil e total solidão (Onde anda você?, na voz do Cauby. Taí. Vou escutar ainda hoje. Tenho muito disco, preciso de pistas e deixas para sair catando os 3 ou 4 minutos de loucura e de prazer que meus mortos – eu só ouço mortos, feito aquele menino do filme com o Bruce Willis – me proporcionam).

Eu estava no metrô. Sem leitura, celular ou iPod. Como é que pode?, rimaria o compositor popular. Daí me desviei, tentando evitar lembranças de meu ex-jornaleiro, e vim a me esborrachar, como sempre, numa digressão. É assim que os metrôs atrasam. Digressões, falhas nos sinais, inépcias, sempre as inépcias.

A problemática resolvida

Passei a comprar meu jornal na saída do metrô. Leio na volta e em casa. Quer dizer, “ler” é força de expressão. Passo os olhos, que eu não sou idiota. Assim como não acredito em Papai Noel, também não faço fé no que os jornais publicam. Já disse. Estou me repetindo. Privilégio dos velhos. Feito papinha e passar a mão na bunda da empregada.

Leio porque é divertido e eu preciso de algum assunto para quando falo sozinho entre 3 e 5 da tarde. Não vou entrar nisso. Muito pessoal e afastaria pelo menos 2 de meus 3 leitores. Deixo que pensem que é facécia minha. “Qual, esse cara é um pândego!”. Deixa que pensem, que falem, que digam, hein, Jair Rodrigues? O outro leitor, o terceiro, conhece a vida. Sabe de certas asperezas.

Talvez já tenha sentido também nas costas o dedinho gelado e esquelético de Alzheimer a lhe cutucar procurando chamar uma atenção que, a cada dia, vai ficando cada vez mais vaga, mais difícil de baixar ou download.

Eu quero entrar no metrô e passar os olhos num jornal. Na vida real e nessas mentiras que vou costurando neste espaço. Ora! Por que não leio o jornal grátis profusamente distribuído e que vive emporcalhando os carros do mais pesado que o ar.

Mais pesado que o ar, no caso, é o metrô e não avião da TAM ou da GOL. Sim, sim. Eu também passo os olhos em jornal brasileiro na linha (é online, pomba!). Se é para entregar o jogo, aí está. Sou uma besta e, pior, besta mendaz, que fica por aí cuspindo no prato que o come todo dia.

O Metro

Assim mesmo, sem circunflexo. Sem blicas de opinião também. Tal como deve ser. Tanto a vida quanto os jornais. Muita celebridade, caindo de aspas, em vagas andanças pelas páginas da cidade.

Kylie Minogue, para vocês terem uma idéia. Como? Não conhecem? Pobres infelizes. Vão, pois, de Juliana Paes. (Yep, estou por dentro). Tem pessoas telenovelísticas. Tem bateristas de bandas obscuras no mundo inteiro menos aqui.

Sempre que possível algo sobre a falecida Diana, Princesa de Gales, e as mais recentes revelações surgidas no mais recente inquérito (“Diana não estava grávida”, “Diana jamais se casaria com Dodi”, “Diana ainda amava o ex-amante Hasnat Khan” e por aí afora ou ai a dentro).

O espectro de Diana é imprescindível para os vivos. Feito tape de Osama Bin Laden. Metro: leviandade correndo atrás de tolice. Lê-se em 7 minutos e 23 segundos, meu melhor tempo. Deixa-se, depois, cuidadosamente dobrado no banco para o próximo tolo. Nunca no chão. Isso é falta de educação.

Próximo passo agora é deixar de lado de uma vez por todas os chamados jornalões. Ou pelo menos aquele que compro. Espero botar isso num pretérito logo, logo. Sigam o exemplo de um senhor mais velho e experiente que vos fala e aconselha.

 
 
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