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27 de março, 2008 - 09h43 GMT (06h43 Brasília)

Márcia Carmo
De Buenos Aires para a BBC Brasil

Para empresário boliviano, Brasil é 'terra de oportunidades'

O empresário Ervin Gonzalo Hurtado, de 40 anos, nasceu em La Paz, na Bolívia, e chegou a São Paulo, ainda criança em 1973.

"Naquela época, quando a gente via um boliviano, atravessava a rua para perguntar de onde ele era. Hoje, aqui em São Paulo, já não são mais novidade. São tantos que já nem nos cumprimentamos”, disse à BBC Brasil.

Para ele, a mudança de La Paz para a capital paulista 35 anos atrás ampliou as oportunidades de sua família.

"O Brasil abriu as portas pra gente. E continuo cada vez mais confiante em seu progresso. Daqui a dez anos, com essa estabilidade econômica, o Brasil será um país do primeiro mundo", afirmou.

Geração

Segundo Hurtado, cada geração da sua família vai melhor que a anterior. O pai era professor do primário em La Paz e "começou do zero" em São Paulo como ajudante de obras. Posteriormente, se formou em eletricista industrial.

"Meu pai trabalhou para grandes empresas como a Lewis aqui em São Paulo e, hoje, está aposentado e não pensa em voltar para a Bolívia".

Hurtado é empresário e acredita que seus filhos – Cindy, de 22 anos, Ervin, de 16 anos, e Kevin, de 9 anos – estão tendo ainda mais oportunidades do que ele teve.

Ele fala português com sotaque, como ele mesmo reconhece, mas se considera mais brasileiro do que boliviano. "Cresci aqui, estudei aqui, tenho amigos e filhos que nasceram aqui. Minha mulher, meu pai e meus irmãos são bolivianos, mas me sinto brasileiro", declarou.

Ele chegou a São Paulo com o pai, Conrado, e a madrasta. Estudou um longo período em colégio interno e quando saiu fez diferentes especializações no Senac, como administração.

"Trabalhei em oficina de costura durante quinze anos e depois da etapa de confecção, trabalhei em restaurante, voltei pra confecção e, agora, tenho cabines telefônicas para a comunidade boliviana", afirmou.

Gonzalo é apontado como exemplo de sucesso entre os integrantes da Associação dos Residentes Bolivianos, como contou Marlene Valencia, que cuida da área social da entidade. "Ele trabalhou e venceu", disse ela sobre o conterrâneo.

Marlene está há 25 anos em São Paulo e concorda com Gonzalo Hurtado ao dizer que um número cada vez maior de bolivianos chega ao país para trabalhar, principalmente, no ramo da confecção – trabalham e dormem no local de emprego.

"Eu tento dizer a eles que não venham, que insistam em criar oportunidades na Bolívia, para não passar tanto sufoco aqui. Mas é muito difícil dizer para as pessoas: ‘parem de sonhar’", disse.

"Há mulheres que chegam grávidas para ter um filho brasileiro e ter o direito de ficar aqui. Então, eu digo: já que vieram, que colocaram o pé no solo brasileiro, tirem documentos, trabalhem, estudem, virem cidadãos. Ou vão querer que os filhos sejam costureiros durante 15 horas? Que virem escravos também?", acrescentou a boliviana.

Marlene e o marido montaram um pequeno consultório para atender os bolivianos – muitos com turbeculose e problemas de visão, resultado das horas excessivas de trabalho com máquinas de costura.