Como as pandemias acabam?

Estamos em meio a uma pandemia como nenhuma outra na história recente. Embora as pessoas depositem suas esperanças em uma vacina para dar fim a tudo isso, o fato é que a maioria das doenças infecciosas enfrentadas por nossos antepassados ainda estão entre nós.

Role a tela para baixo para entender como algumas daquelas pandemias acabaram e como isso nos nos dá pistas sobre o nosso futuro.

Essa é Jasmine.

Assim como no nosso caso, seus antepassados sobreviveram a uma série de pandemias.

Viaje de volta no tempo para ver quais doenças eles enfrentaram.

Peste bubônica - a doença devastadora que ainda está entre nós

Três grandes surtos, com o primeiro registrado em 541 a.C.

Há 60 gerações, os parentes de Jasmine enfrentaram uma série de surtos da peste bubônica.

A doença, causada por uma bactéria transmitida por pulgas que vivem em ratos e por gotículas respiratórias de pessoas infectadas, foi devastadora.

A bactéria Yersinia persis circula entre certas espécies de roedores.

Ilustração da bactéria Yersinia persis, que pode ser encontrada em pulgas que vivem em ratos

Ela matou centenas de milhões de pessoas ao longo de um período de 2 mil anos.

O surto de peste negra de 1346-1353 é considerado o mais mortal de todos.

A peste matou milhões, mas poucos morrem atualmente

arrow Atualmente: *584
Total de mortes: Até 200 milhões
*Dados para 2010 a 2015 Atenção: Como a população global cresceu muito ao longo do tempo, o impacto de doenças do passado teria sido muito maior quando a população global era menor Fonte: Organização Mundial da Saúde, pesquisas científicas

Acredita-se que a doença, que causa inchaço e infecções nos nódulos linfáticos, foi finalmente controlada com uma quarentena rígida e melhorias das condições sanitárias, entre outras medidas.

Mas nada disso poderia ter ocorrido sem uma compreensão de como a doença é transmitida, diz Steven Riley, professor de dinâmica de doenças infecciosas no Imperial College London, no Reino Unido. Isso ainda é válido hoje em dia.

"Uma vez que você tem o conhecimento e o compartilha, você é capaz de tomar medidas para conter a transmissão", diz Riley.

Mesmo assim, casos da peste ainda ocorrem, como, por exemplo, na Mongólia em julho deste ano, e, em teoria, Jasmine ainda pode pegar essa doença.

No entanto, o número de casos permanece baixo, e a doença pode ser hoje tratada com sucesso com antibióticos.

Varíola - o vírus erradicado pela ciência

Vários surtos, com o primeiro registrado em 1520

Centenas de anos depois, os antepassados de Jasmine enfretaram a varíola.

A doença, causada pelo vírus varíola minor, é uma das mais mortais conhecidas pelo homem.

Ela causa pústulas repletas de fluido em todo o corpo e, no seu auge, chegou a matar três de cada dez pessoas infectadas.

Pode ser transmitida por gotículas expelidas pelo nariz ou boca de uma pessoa infectada ou por meio de suas feridas.

O vírus varíola minor não tem hospedeiros animais

Ilustração do vírus varíola minor

Assim como a peste, a varíola matou centenas de milhões de pessoas, 300 milhões só no século 20

A varíola matou ao menos 350 milhões de pessoas, mas ninguém morre por causa dela atualmente

Atualmente: 0
Total de mortes: Ao menos 350 milhões
Fonte: Organização Mundial da Saúde, pesquisas científicas

Mas, graças à vacina desenvolvida pelo médico britânico Edward Jenner em 1796 e aos esforços da comunidade científica, a doença foi erradicada, ainda que se tenha levado quase dois séculos para isso.

A varíola ainda é a única doença humana que foi erradicada dessa forma. Riley diz que isso foi um dos maiores feitos da humanidade, rivalizando com os pousos na Lua.

"Foi o maior retorno de investimento da história", diz ele, em referência ao que o mundo economizou com a erradicação da doença.

Por causa desse feito da ciência, nós, e Jasmine, não corremos mais risco de pegar varíola.

Cólera - a doença endêmica nos países mais pobres

Vários surtos até hoje, com uma grande pandemia em 1817

Então, há apenas oito gerações, os antepassados de Jasmine enfrentaram a cólera.

A doença, causada por comida e água contaminada, matou milhões de pessoas em sete pandemias, segundo a Organização Mundial da Saúde.

A bactéria Vibrio cholerae pode ser encontrada em alimentos e água contaminada

Ilustração da bactéria Vibrio cholerae

Mas, embora a melhoria da higiene e do saneamento no Ocidente tenha eliminado a ameaça da doença, ela continua endêmica (ou comum) em muitos países de baixa renda e mata entre 100 mil e 140 mil pessoas todos os anos, de acordo com a OMS.

A cólera já matou milhões de pessoas e milhares ainda morrem todos os anos hoje em dia

arrow Atualmente: *95 mil
Total de mortes: 40 milhões (estimativa)
*Estimativa anual Fonte: Organização Mundial da Saúde; Ali M, Nelson A.R., Lopez A.L., Sack D.A., Updated Global Burden of Cholera in Endemic Countries, 2015

"Você melhora o saneamento para evitar a cólera", diz Riley. "Mas, se o saneamento é ruim, ela pode se espalhar muito rápido."

Por causa disso, dependendo de onde Jasmine more, ela ainda pode correr o risco de pegar cólera e morrer, apesar da disponibilidade de uma vacina e do tratamento da doença ser fácil.

Influenza - a ameaça sazonal

Várias pandemias, entre os anos 1800 e os anos 2010

A família de Jasmine também teria enfrentado uma série de pandemias de gripe. A maior foi registrada no início do século 20, na época de seus tataravós.

A pandemia de influenza de 1918, também conhecida como pandemia de gripe espanhola, foi o surto mais grave da história recente, matando de 50 milhões a 100 milhões de pessoas no mundo.

Assim como o novo coronavírus hoje, medidas de isolamento e quarentena contiveram a transmissão.

O vírus H1N1 causou a pandemia de gripe espanhola.

Ilustração do vírus H1N1

Após duas ondas, entre 1918 e 1920, essa cepa específica do H1N1 tornou-se mais benigna e circula ainda hoje, com ciclos anuais.

Milhões morreram por causa da gripe espanhola, e a gripe sazonal ainda mata muitas pessoas.

arrow Atualmente: *Até 650 mil pela gripe sazonal
Total de mortes: Mais de 50 milhões
pela gripe espanhola
*Estimativa anual Atenção: O número de mortes atual é relativo a cepas sazonais da gripe que são diferentes da gripe pandêmica. Fonte: Organização Mundial da Saúde, Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA

Mas outras pandemias de gripe ocorreram depois.

A gripe de Hong Kong de 1968 matou 1 milhão de pessoas e ainda circula sazonalmente. Assim como a gripe suína, uma versão do vírus H1N1 que infectou 21% da população mundial em 2009.

A gripe continua a ser "uma ameaça pandêmica", diz Riley, e Jasmine e nós continuamos sob o risco de enfrentar outra pandemia causada por esses vírus.

Também corremos o risco de pegar a gripe sazonal, que ainda mata centenas de milhares todos os anos.

HIV/Aids - a epidemia contínua

1981 - presente

Então, cerca de quatro décadas atrás, os pais de Jasmine sobreviveram à disseminação do HIV/Aids, o que foi considerado por alguns como uma pandemia, mas descrita como uma "epidemia global" pela OMS.

O vírus da imunodeficiência humana (HIV), transmitido por fluidos corporais, matou mais de 32 milhões de pessoas no mundo até agora.

O HIV ataca o sistema imunológico

Ilustração do HIV

O HIV pode ser considerado um "vírus do pior cenário possível", diz Riley, devido ao tempo que uma pessoa infectada leva para desenvolver os sintomas e sua alta taxa de mortalidade. Ele se espalha rápido, porque as pessoas não sabem necessariamente que o têm.

No entanto, avanços nas técnicas de diagnóstico e campanhas globais de saúde pública, que mudaram o comportamento sexual e aumentaram a disponibilidade de seringas seguras para usuários de drogas, ajudaram a desacelerar o crescimento do número de infecções.

Apesar disso, estima-se que 690 mil pessoas morreram de Aids em 2019, segundo a OMS.

O HIV/Aids matou milhões, e milhares ainda morrem hoje em dia.

arrow Atualmente: *690 mil
Total de mortes: 32 milhões
*Dados mais recentes de 2019 Fonte: Organização Mundial da Saúde

Embora não haja cura para o HIV, se Jasmine viver em um país com bons serviços de saúde e acesso a medicamentos antirretrovirais, ela pode levar uma vida longa e saudável.

No entato, se ela viver em um país pobre e não tiver acesso a esses recursos, ela pode ainda correr risco.

Sars e Mers - os coronavírus mais fáceis de conter

2002 - 2003 e 2012 - presente

Duas ou três décadas mais tarde, já durante a época de Jasmine, surgiram as ameaças da Sars e da Mers.

A Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, ma sigla em inglês) foi a primeira epidemia mortal causada por um coronavírus e matou mais de 800 pessoas entre 2002 e 2003, segundo a OMS.

O coronavírus da Sars, conhecido como Sars-Cov, foi identificado em 2003

Ilustração do coronavírus da Sars (Sars-Cov)

Mas, já no fim de 2003, nenhum novo caso foi registrado, e a OMS declarou que o surto havia chegado ao fim.

Um pouco depois, veio a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers, na sigla em inglês), também causada por um coronavírus e que matou 912 pessoas. A maioria dos casos ocorreu na Península Arábica.

Apesar do risco de contrair o vírus, conhecido como Mers-CoV, na maioria dos países seja muito baixo, esse risco ainda é elevado no Oriente Médio, onde humanos costumam ser infectados por camelos.

A Sars matou pouco mais de 800 pessoas

Total de mortes: 813
Fonte: Organização Mundial da Saúde

Por isso, embora Jasmine ainda possa contrair a Mers, o risco de isso acontecer é baixo na maioria dos países.

Covid-19 - o coronavírus sem precedentes

2019 - presente

Agora, em nossa época e de Jasmine, enfrentamos a ameaça de um novo coronavírus, que causa a doença respiratória covid-19.

O Sars-Cov-2, como é conhecido esse vírus, é uma versão evoluída do vírus da Sars de 2003 e é considerado por especialistas em doenças como único, graças à sua gama de sintomas, que variam de inexistentes a mortais, e altos níveis de transmissão por pessoas sem sintomas ou antes de desenvolvê-los.

"Por causa disso, muitos países não têm sido capazes de controlá-lo", diz Riley.

O vírus Sars-Cov-2 está relacionado ao vírus da Sars de 2003

Ilustração de um vírus Sars-Cov-2

Mais de 1 milhão de pessoas já morreram até agora, mas o total será provavelmente muito maior.

O novo coronavírus já matou mais de 1 milhão de pessoas até agora

Total de mortes: ?
Atualmente: Mais de 1 milhão
Fonte: Universidade Johns Hopkins

Enquanto a busca por uma vacina e um tratamento eficaz continua, o risco de contágio segue elevado para a maioria da população do mundo. Jasmine, assim como nós, ainda corre perigo.

O que virá a seguir?

A crise gerada pelo novo coronavírus é apenas a mais recente de uma longa série de pandemias causadas por patógenos emergentes, como vírus ou bactérias.

Atenção: Como a população global cresceu muito ao longo do tempo, o impacto de doenças do passado teria sido muito maior quando a população global era menor Fonte: Organização Mundial da Saúde, Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, publicações científicas, Universidade Johns Hopkins

Um maior conhecimento sobre como ocorre a transmissão, campanhas de saúde pública, novos tratamentos e vacinas contribuíram para acabar com as crises anteriores.

Para que a atual pandemia chegue ao fim, também será necessária uma combinação de medidas semelhantes.

Ainda que uma vacina "segura e eficaz" possa acabar com a pandemia, Riley diz que ainda não temos certeza de que vamos conseguir criar uma.

Em vez disso, talvez tenhamos que aprender a conviver melhor com essa doença enquanto, ao mesmo tempo, desenvolvemos uma maior resistência a ela.

"Definitivamente nos próximos cinco anos, mas espero que muito antes, teremos uma vacina boa ou uma parcela grande da população terá se contagiado e desenvolvido imunidade e teremos aprendido a conviver com pequenos surtos", diz Riley.

Como a erradicação da varíola provou, quando a comunidade científica se une, grandes feitos se tornam possíveis.

Ainda que o nosso coronavírus seja mais desafiador, por causa dos altos níveis de transmissão assintomática, Riley está otimista que conseguiremos solucionar esse problema.

"O mundo nunca teve uma missão compartilhada como essa", diz Riley. "Tomara que se torne um sucesso compartilhado em algum momento."

No entanto, pode ser útil nos recordarmos de que a maioria dos patógenos que as sociedades do passado enfretaram ainda estão entre nós. Aquelas crises chegaram ao fim, mas os vírus e bactérias que as causaram circulam entre nós até hoje.