O jeito novo e mais fácil de se tornar um dono de hotel

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Image caption Ser dono - ainda que de um pedacinho - de um hotel em Miami pode não ser um sonho distante

Investir no ramo de hotéis não é um negócio tão proibitivo como parece à primeira vista. Quando uma empresa precisa de financiamento, a via tradicional é procurar investimentos privados ou levantar fundos por meio da venda de ações da companhia nos mercados financeiros.

Mas quando o Synapse Development Group decidiu investir em um novo projeto de hotel – uma nova filial da rede high tech Yotel em San Francisco (EUA) -, a companhia decidiu fazer algo totalmente diferente: colocou o projeto em um site de financiamento coletivo.

Oferecer um retorno anual de 18% a 20% do dinheiro dos investidores despertou interesse. “Hotéis frequentemente são mais rentáveis que outros ativos no mercado de imóveis. Sendo assim, sob uma perspectiva de investimento, atraem bastante a atenção especialmente em mercados maiores”, explica o diretor-executivo do SDG, Justin Palmer.

Investidores também foram atiçados com a promessa de descontos em diárias, brindes exclusivos e, dependendo do nível de dinheiro injetado, festas de arromba e até coquetéis batizados em homenagens aos mais generosos.

Crescimento

Palmer diz que a primeira etapa do projeto foi “um sucesso”. O plano do hotel 1095 Market Street teve mais de 40 investidores, de Londres a Hong Kong. Os investimentos foram, em média, de US$ 50 mil. A vantagem do financiamento coletivo é que ele permite tanto às empresas quanto aos indivíduos levantar grandes quantias de dinheiro por meio de pequenas doações em campanhas online.

O fundador do site de crowdfunding RealCrowd, Adam Hooper, acredita que uma das mais animadores perspectivas de obter capitalização na indústria hoteleira pelo financiamento coletivo é a criação de uma base fiel de investidores. E, para estes, é uma chance de combinar um retorno rentável a um ativo com que se possa interagir.

Estima-se que a quantidade de dinheiro levantado ao redor do mundo em crowdfunding para projetos imobiliários cresceu de US$ 1 bilhão em 2014 para US$ 2,5 bilhões em 2015, de acordo com um recente relatório da Massolution, empresa de pesquisa especializada em projetos de financiamento coletivo. Analistas como Wouter Geert, da Euromonitor International, acreditam que hotéis são boas apostas.

O financiamento coletivo para projetos imobiliários ganhou impulso nos Estados Unidos depois de uma mudança na legislação, ocorrida em Setembro de 2013, possibilitando a empreendedores anunciar publicamente que estavam buscando capital para oportunidades específicas de investimento. Daí surgiram projetos exitosos como o Hard Rock Hotel Palm Springs, que levantou US$ 1,5 milhão através do site Realty Mogul, e o AKA Wall Street, que obteve US$ 25 milhões por meio da Prodigy Network.

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Image caption Mudança de legislação nos EUA abriu espaço para a entrada de mais investidores em projetos de financiamento coletivo

A tendência correu mundo, com novos empreendimentos deste tipo na Tailândia e nos Emirados Árabes Unidos, todos buscando capital individual para construir os hotéis. As regras sobre quem pode investir variam de região para região.

Em Singapura, por exemplo, as plataformas de financiamento decidem os requerimentos. Nos EUA, a legislação exige renda anual de mais de US$ 200 mil ou fortuna avaliada em pelo menos US$ 1 milhão, sem contar o valor de sua residência principal. Mas esses valores serão reduzidos em 2016, o que poderá abrir mais espaço para investidores de primeira viagem.

A venda de ações é a oferta mais comum neste tipo de investimento. Neste esquema, os investidores se tornam donos de parte da companhia. Se é uma oferta de débito, elas recebem juros de acordo com o termos específicos do contrato.

Em geral, os investimentos mínimos são de US$ 10 mil e muitos investidores escolhem distribuir seu risco em diversos projetos diferentes. Peter Fishman, por exemplo, já investiu em diversos projetos em San Francisco, em diversas plataformas, e reservou US$ 25 mil para o 1095 Market Street.

“O financiamento coletivo permite que eu tenha diversos interesses no mercado imobiliário da região sem necessariamente precisar agir como um senhorio”, diz o analista de dados, de 35 anos.

“E sou apenas uma pequena parte do projeto, o que me possibilita ter alguma diversificação em meus investimentos”.

Riscos

Mas como qualquer investimento, o financiamento coletivo tem riscos. O principal deles é que o projeto não vá adiante por causa de negligência do empreendedor. Pode ser ainda que o retorno cumprido não seja o mesmo que o prometido e que investidores não possam liquidar seus bens quando quiserem.

Nos EUA, oportunidades deste tipo são tratadas como alocações privadas, em que não há oferta pública de ações e, por isso, não há garantia de resgate financeiro por parte do governo. Plataformas de financiamento coletivo são rápidas em recomendar cautela e analisar bem os investimentos antes de decidir.

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Image caption Investidores são atraídos por promessa de retorno e podem também usufruir dos hotéis

Nos últimos dois anos, tem sido alta a taxa de sucesso para os empreendimentos que agora estão fechados para mais investimentos – 80% das firmas analisadas atingiram a meta de arrecadação, de acordo com Janet Rosenblum, analista do mercado de financiamentos coletivos da empresa de consultoria Crowdnetic.

“Analisamos 280 indústrias e o mercado imobiliário obteve pelo menos 25% dos comprometimentos de capital que rastreamos. No que diz respeito a financiamentos, o setor tem sido incrivelmente bem-sucedido", diz.

A Crowdnetic busca suas informações em várias plataformas, mas não tem informações diretas sobre o comportamento individual de investidores. Projetos de financiamento coletivo são relativamente recentes e investidores tendem a “segurar” seus ativos por um longo período de tempo, o que torna difícil uma análise mais detalhada de riscos e recompensas, avisa Rosenblum.

Geerts, porém, acredita que hotéis têm apelo especial para investidores que gostam de manter seus investimentos por mais tempo: o aumento das viagens internacionais no mundo deve resultar em aumento de demanda por quartos de hotel. Por isso, o financiamento coletivo de hotéis é uma das nove tendências destacadas pela Euromonitor para projetos do gênero em 2016.

Fishman diz que sempre espera um alto índice de risco, mas acredita que, no caso do Yotel encontrou um operador experiente que se aliou a um empreendedor imobiliário sagaz, o que diminui as ameaças. “Claro que estou animado com a possibilidade de retorno para o investimento, mas é algo bem legal passar em frente à obra e ver o progresso da construção de um imóvel que, ainda de forma bem pequena, é seu”.

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