Mesmo depois de meio século, 'Três Homens em Conflito' segue reverenciado

Alamy Direito de imagem Alamy
Image caption Clint Eastwood (à direita) ganhou fama internacional com o filme de 1966

Três homens bigodudos e castigados por anos de exposição aos elementos estão encarando uns aos outros em um cemitério. Eles trocam olhares suspeitos, mas permanecem quase que perfeitamente parados, sem dizer uma só palavra. A situação dura quase três minutos.

Não parece exatamente ser algo interessante em termos de cinema, parece?

Pelo contrário: esta é uma das mais celebradas sequências cinematográficas de todos os tempos. Trata-se do duelo que encerra o filme de faroeste Três Homens em Conflito, de Sergio Leone. Em 2016, o filme completa 50 anos de lançamento.

Cinco décadas de imenso impacto no cinema e na cultura popular. O legado do lendário diretor italiano ficou para sempre associado ao western espaguete, um subgênero de filmes produzidos nos anos 60 e 70, inspirado nos tradicionais filmes americanos de bangue-bangue. Eram produções feitas por diretores europeus, trabalhando com orçamentos menores, mas com um bravo espírito inovador.

Legado

Mas nenhum western espaguete ficou tão famoso quanto Três Homens em Conflito. O filme de Leoni conta a história de três foras-da-lei em busca de uma fortuna desparecida. O filme apareceu em inúmeras listas de melhores produções ao longo dos anos, graças a técnicas revolucionárias de narrativas que foram usadas, ensinadas e roubadas por diretores de todas as partes do mundo.

A famosa cena do enfrentamento no cemitério é considerada por críticos e especialistas como um dos melhores exemplos de edição da história do cinema. E o impacto daqueles momentos é a razão pela qual o filme ainda ressona tão fortemente meio século depois: não é apenas o que acontece, mas COMO algo acontece.

Desde o começo, o filme dá pistas de que vai ser um festival de bravura visual. A primeira cena é uma longa tomada de um vale desértico. Mas tudo dura apenas segundos – Leone usa a paisagem para uma mudança de enfoque, e logo o rosto duro de um cowboy com a barba por fazer aparece em cena, perto o suficiente da câmera para que possamos ver suas narinas. Uma tomada à distância se transforma em um close-up extremo, sem cortes ou mudanças de posição da câmera.

O recurso é tão elegante quanto ousado. A vastidão do cenário estabelece o contexto, anunciando uma história que terá um desenvolvimento marcado por guinadas traiçoeiras.

Direito de imagem Getty
Image caption Sergio Leone (à direita) fez diversos filmes "espaguete" nos anos 60 e 70

Tão importante quanto a edição é a trilha sonora que acompanha o filme, considerada uma das melhoras da história do cinema. Criada pelo maestro italiano Enio Morricone, a trilha entrou para o hall da fama do Grammy Awards. E um livro inteiro foi escrito sobre sua composição, que ao lado de trilhas como a de Tubarão e Star Wars está entre as mais rapidamente reconhecíveis da história do cinema.

Mas o clímax é mesmo a cena do cemitério, uma momento de bravura cinematográfica em que os três protagonistas (interpretados por Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach) enfrentam-se em uma área coberta de cimento. Para entender a importância dessa cena é preciso saber um pouco mais sobre os elementos básicos da cinematografia.

O mais fundamental princípio da edição – conhecido como continuidade – é geralmente usado para contrair o tempo. Isso quer dizer que momentos da vida podem ser “adiantados” . Uma tomada de uma pessoa subindo uma escada, por exemplo, é cortada para outra em que ela emerge no alto.

Porém, a cena de Três Homens em Conflito esbanja inatividade e essencialmente conta uma história onde não parece haver nenhuma. O confronto mudo entre os três personagens é marcado por uma tomada mostrando-os em um arranjo triangular, com túmulos e lápides em frente a eles e por trás deles.

A ordem dessas tomadas começa de forma perfeitamente balanceada entre os personagens. Há três closes da pistola de cada um, por exemplo, seguidos por três closes de suas faces, para depois a câmera se aproximar ainda mais da face dos personagens.

Direito de imagem Alamy
Image caption "Cães de Aluguel" tem cena "roubada" do filme de 1966

A cena fica mais frenética e as tomadas cada vez mais curtas à medida que a música de Morricone aumenta de volume. É como se audiência começasse a sentir no interior das mentes dos protagonistas e, assim como eles, tremesse de medo e ansiedade.

Trata-se também de uma sequência que fãs e estudiosos de cinema já analisaram tomada por tomada, como se fossem cientistas dissecando o corpo de um ET em busca de seus segredos.

Três Homens em Conflito até hoje tem influência no cinema. Mas nenhum diretor mostrou mais apreciação ao filme que Quentin Tarantino, para quem a produção é o maior feito da história do cinema. E, fiel à cartilha de que grandes artistas “roubam”, o diretor americano declara seu amor ao filme de Leone em boa parte de suas produções. Ao ponto de, em seu mais recente trabalho, Os Oito Odiados, Tarantino ter encomendado uma trilha sonora original a Morricone.

De um jeito ou de outro, Tarantino sempre parece homenagear o longa. Uma dos mais descarados tributos ocorre em Cães de Aluguel, quando três bandidos armados apontam armas uns para os outros, um esperando que o outro atire. Até a formação e triângulo foi inspirada pela obra-prima de Leone.

Direito de imagem AFP
Image caption Tarantino encomendou trilha sonora para Morricone

O filme inspirou muitos outros diretores, incluindo Martin Scorsese e Robert Zemeckis. E o sucesso de Pistoleiro Sem Nome transformou Clint Eastwood em um astro internacional. Seria ótimo dizer que, depois deste western, os outros filmes do gênero espaguete causaram furor similar. Mas não foi o caso – os filmes variam substancialmente em qualidade.

Mas se uma produção simboliza o que há de bom nos espaguetes – a inovação, a energia psicológica, a atmosfera tensa -, esta produção é Três Homens em Conflito. E seu clímax ainda continua eletrizante de assistir.

Notícias relacionadas