O que faz uma baleia encalhar? Até o suicídio está entre as hipóteses

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Image caption Baleias encalharam em grupo na Austrália, em Julho de 1986

Testemunhar o encalhe de uma baleia ou de um golfinho ao vivo é uma experiência altamente tocante, especialmente quando você acaba acompanhando a morte do espécime. Meu estômago ainda revira quando me lembro de um episódio do tipo na Escócia.

Porém, as razões pelas quais esses mamíferos encalham ainda são misteriosas. Golfinhos e baleias por vezes podem fazê-lo em grupos – recentemente, dez baleias-piloto encalharam em uma praia perto de Calais, na França. Sete morreram.

Porém, ainda não conseguimos encontrar uma razão especial para o ocorrido. Na verdade, vários fatores estejam envolvidos.

Alguns encalhes em massa são fáceis de solucionar porque os espécimes envolvidos têm ferimentos ou sinais de doenças similares. Nesses casos, os bichos encalham porque são empurrados para a beira do mar por correntes enquanto agonizam. Ou vão para terra firme porque estão muito fracos para nadar.

Alguns tipos de algas tóxicas estão ligadas a casos de encalhes em massa de baleias que datam de priscas eras. Epizootias – doenças em populações animais – também são um suspeito usual. Um surto de sarampo em golfinhos no Atlântico Norte causou uma série de encalhes em massa na Costa Leste dos EUA em 1987 e 88.

Fatores ambientais

Acidentes também acontecem. Exercícios navais, em que não é incomum o uso de sonares poderosos, estão ligados à ocorrência de encalhes em que espécimes ficaram confusos ou se feriram tentando escapar das emissões dolorosas.

É comum até que sofram de problemas semelhantes aos de mergulhadores que voltam depressa demais à superfície – a chamada doença da descompressão, causada pela formação de bolhas de nitrogênio no sangue.

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Image caption Ainda não entendemos por que baleias encalham

Há também tendências ligadas a fatores ambientais: estoques de alimento em baixa, alterações na temperatura da água, ou poluição. Quaisquer desses fatores podem fazer os cetáceos se comportarem de maneira diferente. Alguns estudos também apontam para fatores geográficos que podem desorientar os animais. Por fim, assim como humanos, baleias e golfinhos também erram.

É preciso lembrar também que muitas dessas espécies vivem em grupos. Assim como em comunidades humanas, se um indivíduo é afetado por alguns dos fatores acima, os outros também serão expostos ao problema.

Animais saudáveis

Mas doença, ferimentos e erros nem sempre estão por trás dos encalhes. Essa situação pode ocorrer com animais aparentemente saudáveis. Isso é particularmente verdadeiro no caso dos “engarrafamentos em massa” de baleias-piloto, como o recentemente ocorrido em Calais. Por que um animal em perfeita saúde se colocaria em uma situação de perigo de forma tão desnecessária? Será que eles estariam tentando o suicídio?

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Image caption Corpos dos animais não são feitos para áreas rasas

Essas baleias vivem sociedades matriarcais, em que os grupos são formados por famílias centradas em torno das fêmeas. Com base nessa estrutura social, é comum pensar que animais saudáveis encalham de propósito para tentar salvar seus parentes. No entanto, estudos recentes, usando testes genéticos, revelaram que animais encalhando juntos podem não ter parentesco. Isso parece mais do que uma tragédia familiar.

A evolução de cetáceos é uma das mais bem documentadas do mundo animal. Essas espécies evoluíram de ancestrais terrestres e dividem uma herança genética com ungulados – algo como “vacas com atitude”.

Sua invasão dos mares foi progressiva, e por isso podemos especular se, em momentos de dificuldade, espécimes ainda agem instintivamente, como se a terra ainda oferecesse um elemento de segurança.

Mas o fato é que, quando feridos ou doentes, esses mamíferos aquáticos poderão descansar melhor se encontrarem uma área rasa em que possa parar de se mover. E isso os coloca em situações de risco. Isso porque encalhar é algo perigoso. Para começar, isso leva a mais ferimentos, como cortes e arranhões, além de ferimentos internos causados pelo peso do corpo sobre os órgão vitais - algo que não ocorre em águas mais profundas, já que seu corpos foram feitos para nadar e boiar, não ficar em terra.

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Image caption Técnicas de salvamento evoluíram, mas encalhamentos ainda ocorrem

A hipótese de que esses animais estão sendo solidários uns com os outros com o ato de encalhar é a explicação favorita por enquanto: eles o fazem para ficar em contato com companheiros doentes ou feridos, mesmo que não sejam parentes.

O que não está claro é o mecanismo por trás disso. Podem ser simplesmente instintos ou mesmo comportamentos mais complexos, como uma espécie de altruísmo em nome do grupo. A verdade provavelmente está no meio termo.

Felizmente, nos últimos 25 anos foram desenvolvidas técnicas para salvar o máximo de espécimes possíveis durante incidentes de encalhamentos em massa. Isso inclui um processo rápido de triagem para ver quais animais devem ser devolvidos ao mar primeiro e a identificação do indivíduo “problemático” – aquele que pode ter originado o encalhamento.

O problema é que espécimes muitas vezes vão encalhar novamente e morrer apenas horas depois de resgatados – possivelmente porque estavam feridos ou doentes. Mas alguns escapam.

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