Sem gelo, com uma gota d'água: como se bebe uísque em ilha escocesa com 8 destilarias

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Image caption Poucas pessoas sabem a diferença entre "blends" e maltes puros

A primeira vez em que provei uísque escocês eu era um estudante sem dinheiro. Bebi direto do gargalo de uma garrafa que custou menos de R$ 20, deitado do lado de fora de minha tenda, no sopé do Ben Nevis, a mais alta montanha do Reino Unido. Foi depois de uma refeição que consistiu em uma lata de macarrão. Nada requintado, mas prometi que, da próxima vez que voltasse à Escócia provaria o melhor que o país tivesse a oferecer em se tratando da bebida que o fez famoso ao redor do mundo.

O primeiro uísque escocês que tomei era um blend. Claro que, naquela época, eu não entendia a diferença entre os processos de destilação da bebida. Na verdade, muita gente não sabe. O uísque blended, responsável por mais de 80% do mercado, e que inclui marcas como a Johnny Walker, é uma mistura de uísque de grãos e malte que vem de múltiplas destilarias.

O single malt, que por apreciadores da bebida é chamado apenas de malte - e nunca scotch, como é conhecido fora do Reino Unido -, é feito apenas com malte de cevada e em uma única destilaria.

Eles não são necessariamente sempre melhores que blends mas consistem na maioria dos mais apreciados (e caros) uísques escoceses. Os blends são mais fáceis de beber, já que os maltes podem ser um pouco intensos no que diz respeito ao sabor.

A grande maioria dos maltes vem de três regiões produtoras escocesas. As Highlands - basicamente a parte norte do país - e o Speyside (nordeste) são facilmente acessíveis para quem viaja para as principais cidades escocesas, Glasgow e Edimburgo. Seus uísques são também relativamente "simples" para os novatos e são caracterizados por sabores mais suaves e florais.

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Image caption Islay produz bebida de características marcantes

O malte de Islay

Simplicidade não é a palavra para descrever o acesso a Islay, a ilha mais ao sul do arquipélago de Hébridas Interiores, a 32 km da costa da Irlanda do Norte. Geograficamente, está no fim de uma linha reta de 113 km/h partindo de Glasgow. Mas, a não ser que você pegue um voo para o minúsculo aeroporto da ilha, a jornada leva duas horas e meia até o vilarejo portuário de Kennacraig, de onde parte uma barca que leva três horas para chegar até Islay.

Uma piada entre os conhecedores de uísque é que o malte de Islay é de acesso ainda mais difícil que a ilha. Bebedores de primeira viagem que detestaram a bebida, achando-a "defumada demais", provavelmente tomaram um uísque da ilhota.

Os maltes de Islay têm como marca registrada o sabor influenciado pela queima de turfa, o mesmo tipo de camadas formadas por vegetação decomposta usadas para o aquecimento de suas casas, durante o processo de secagem da cevada. Os resultados dividem opiniões: alguns puristas acusam a turfa de 'estragar' o verdadeiro sabor do uísque; outros ficam "viciados" e passam a procurar uísques mais e mais "defumados".

A quantidade de turfa utilizada varia imensamente. A destilaria Bruichladdich, por exemplo, é a única de Islay que produz uísques "não-defumados". Na outra ponta do espectro está a Laphroaig: sem perdão, a destilaria serve um produto carregado do que os escoceses definem como sabor peaty.

Recentemente, a empresa fez uma campanha pedindo que o público definisse a experiência de sorver seu malte. Uma delas fez sucesso especial: "É como lutar com um monstro de turfa em chamas, mas no meio do combate você e o monstro param e se beijam".

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Image caption Blocos de turfa são usados para secar o malte em Islay, o que dá sabor característico

Apreciadores de vinho gostam de falar sobre terroir - a combinação de condições ambientais, geologia e geografia que dá a um vinho seu sabor. No entanto, alguém precisa de conhecimentos bastante apurados de enologia para saber a exata origem de um vinho a partir de uma "degustação cega". No caso do uísque, um amador seria capaz de saber se a bebida veio de Islay.

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Nada sobre Islay sugere facilidade: a ilha tem relevo acidentado e clima tempestuoso, marcado por poderosas e inclementes rajadas de vento vindas do mar. Bolsões de prédios brancos compõe as duas principais cidades, Bowmore e Port Ellen; o resto da ilha é praticamente mais habitado por ovelhas e pássaros do que humanos. As turfeiras espalham-se por quilômetros a fio.

Islay tem oito destilarias e um grande problema para quem quer visitá-las: a ilha tem 620 quilômetros quadrados, mas seu transporte público é praticamente inexistente. Degustações de uísque não combinam com direção. Sendo assim, durante os três dias que passei em Islay, usei o dedão para pedir carona a locais que foram prestativos o suficiente para parar seus carros.

Destilarias são locais mágicos, onde alquimia e ciência se encontram. São museus de aromas, em que cada cômodo parece ter sua fragrância distinta. Visitar uma destilaria é também um programa altamente rentável para o bolso. Algo entre R$ 25 e R$ 35 normalmente garantem um tour e pelo menos um ou duas doses de uísque vindo direto do barril - e sem adição de água.

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Image caption Degustações turísticas oferecem oportunidade para provar maltes raros

Outras destilarias oferecem experiências mais exclusivas e que incluem a degustação de maltes raríssimos. Um exemplo é a Lagavulin, em que minha visita (que custou apenas R$ 60, incluiu três degustações, incluindo a de um malte de 30 anos de idade que em qualquer pub britânico não sairia por menos de R$ 250 a dose) - e se você conseguir encontrar, que fique bem claro.

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Por falar em bares, existe um certo protocolo para pedir uísque na Escócia. Regrinhas básicas:

A primeira: não chame de scotch. É uísque ou malte.

A segunda: a não ser que você queira ser ridicularizado, não peça malte on the rocks. O gelo deixa a língua dormente e derrete muito rápido. Malte tem que ser bebido sem gelo ou com uma gota d'água para "abrir o sabor".

On the rocks só é aceitável no caso dos blends ou se a temperatura ambiente for tropical. Mas as chances de isso acontecer na Escócia são remotas - há quem diga que o verão escocês é um mito - um pouco menos famoso que o do Monstro do Lago Ness.

Leia a versão original dessa reportagem (em inglês) no site BBC Travel.

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