O que dizem os envolvidos no vídeo que mostra jovens zombando de indígena veterano de guerra nos EUA

Aluno de escola católica encara o indígena Nathan Phillips, veterano da Guerra do Vietnã, em Washington DC, no dia 18 de janeiro 2019 Direito de imagem Reuters
Image caption Nick Sandmann (à esquerda) e Nathan Phillips (à direita) disseram que estavam tentando apaziguar os ânimos

Um vídeo em que adolescentes aparentam estar zombando de um indígena veterano de guerra causou polêmica nos EUA.

As imagens, que viralizaram nas redes sociais, mostram um grupo de alunos brancos de uma escola católica rindo e gritando, enquanto Nathan Phillips, originário da tribo Omaha, do Nebraska, canta e toca tambor.

O conteúdo provocou uma série de críticas em relação ao comportamento dos garotos, classificado por muitos como um ato de desrespeito e intolerância.

Mas o estudante Nick Sandmann - que aparece no vídeo encarando o indígena com um sorriso no rosto - nega que estivesse debochando de Phillips.

"Eu não fiz nenhum gesto com a mão ou movimentos agressivos", disse ele. "Eu acreditava que, permanecendo imóvel e calmo, eu estava ajudando a resolver a situação", declarou Sandmann.

O que sabemos

Pelo menos três grupos parecem estar envolvidos no incidente que ocorreu na última sexta-feira.

Alunos da Covington Catholic High School, de Kentucky, tinham acabado de participar da Marcha pela Vida, uma manifestação antiaborto, e estavam reunidos no Lincoln Memorial, em Washington.

O grupo de adolescentes era predominantemente branco, e muitos usavam bonés com slogan da campanha do presidente Donald Trump "Make America Great Again" (Faça a América Grande de Novo).

O indígena Phillips, veterano da Guerra do Vietnã, e muitos outros ativistas nativos americanos também estavam no memorial, após terem participado da Marcha dos Povos Indígenas, no mesmo dia.

Além disso, um terceiro grupo de homens negros, que se autodenominava Israelitas Hebraicos, se encontrava no local. Imagens de vídeo mostram eles gritando insultos tanto para os nativos americanos, quanto para os estudantes.

Direito de imagem Reuters
Image caption Phillips (ao centro) participava da Marcha dos Povos Indígenas antes do conflito

Enquanto o grupo gritava com os jovens, alguns adolescentes começaram a cantar e um deles tirou a blusa.

Phillips teria se aproximado dos estudantes, entoando cânticos e batendo tambor, no que ele chamou de uma "oração para aliviar as tensões".

Ele estava rodeado pelos adolescentes, alguns dos quais começaram a cantar também.

Como começou a polêmica?

Um vídeo curto mostra Sandmann sorrindo de pé em frente a Phillips, enquanto ele batia o tambor. Outros estudantes riam, gritavam e batiam palmas.

O vídeo viralizou nas redes sociais, à medida que muitos usuários acusaram os jovens de zombar e serem desrespeitosos com o indígena.

A Covington Catholic High School pediu desculpas a Phillips, disse que investigaria o caso e tomaria as medidas apropriadas, o que poderia incluir a expulsão dos alunos.

Os defensores dos estudantes disseram, no entanto, que eles estavam sendo acusados injustamente, enquanto alguns começaram a buscar vídeos nas redes sociais em que o grupo autodenominado Israelitas Hebraicos grita com os jovens, e Phillips se aproxima deles.

Em um comunicado divulgado por uma empresa de relações públicas, Sandmann disse que "mentiras descaradas" estavam sendo disseminadas a respeito dele e sua família, e que ele havia recebido ameaças de morte como resultado do incidente.

A versão de Nick Sandmann

Ele disse que o grupo de manifestantes afro-americanos acusou os estudantes de racismo.

"Como estávamos sendo atacados e insultados em público, um aluno do nosso grupo pediu permissão a um dos nossos professores para começar a cantar um dos cantos espirituais que aprendemos na escola para combater as palavras de ódio que estavam sendo gritadas para nosso grupo."

Em seguida, disse ele, os nativos americanos se aproximaram dos estudantes, incluindo Phillips, que estava tocando tambor.

"Eu não vi ninguém tentar bloquear o caminho dele", afirmou. "Ele fez contato visual comigo e se aproximou de mim, chegando a centímetros do meu rosto. Ele tocou tambor o tempo todo que estava na minha cara."

"Para ser honesto, fiquei surpreso e confuso sobre o motivo de ele ter me abordado", acrescentou.

"Eu nunca achei que estivesse bloqueando o manifestante nativo americano. Ele não tentou dar a volta. Eu não estava intencionalmente fazendo caretas para o manifestante. Eu sorri em determinado momento porque eu queria que ele soubesse que eu não ia ficar com raiva, intimidado ou me sentir provocado a um confronto maior."

"Eu respeito o direito dele de protestar e se engajar em atividades de liberdade de expressão. Acredito que ele deveria repensar suas táticas de invadir o espaço pessoal dos outros, mas isso é uma escolha dele."

As outras versões

Sandmann afirmou que os estudantes entoaram apenas cantos escolares, que não ouviu ninguém fazer comentários de ódio ou racistas.

No entanto, Phillips, que apareceu transtornado em um vídeo após o episódio, disse que ouviu os adolescentes dizendo "construa o muro, construa o muro" - uma referência ao muro prometido por Trump na fronteira com o México.

"Quando eu estava lá cantando, ouvi eles gritarem 'construa o muro, construa o muro'", afirmou o indígena, enquanto enxugava as lágrimas em um vídeo publicado no Instagram.

Essa frase não é audível no vídeo do incidente. Mas dois outros participantes da Marcha dos Povos Indígenas, e um fotojornalista que cobria o evento, contaram à imprensa americana que ouviram pessoas gritando "construa aquele muro" e "Trump 2020".

Phillips disse à agência de notícias AP que estava tentando chegar à estátua de Lincoln para rezar quando um dos estudantes se colocou no seu caminho.

"Eles estavam comentando entre si... [algo como] 'No meu Estado, esses índios não são nada além de um bando de bêbados", disse ele.

Além disso, Marcus Frejo, que acompanhava Phillips, disse ao jornal The New York Times que ouviu os estudantes fazerem um barulho que parecia zombar dos cânticos entoados pelo indígena - embora também tenha escutado alguns jovens cantarem junto.

A imprensa americana relatou que os estudantes fizeram o haka (grito de guerra da cultura maori), e alguns pareciam fazer um gesto de machadinha - o que muitos nativos americanos consideraram desrespeitoso.

Reações

A congressista Deb Haaland, uma das primeiras mulheres indígenas eleitas para o Congresso americano, afirmou que a cena foi de "partir o coração" pela demonstração de desrespeito e intolerância.

"Este veterano arriscou a vida por nosso país. A demonstração de ódio, desrespeito e intolerância desavergonhada dos estudantes é um sinal de como a decência comum se deteriorou sob este governo", escreveu no Twitter.

Enquanto isso, Ruth Buffalo, congressista por Dakota do Norte e membro da Nação Mandan, Hidatsa e Arikara, declarou que o episódio foi apenas uma amostra do que os nativos americanos enfrentaram e continuam a enfrentar.

A atriz e ativista Alyssa Milano disse no Twitter que o vídeo a fez chorar, enquanto o ator Chris Evans considerou a postura dos estudantes "assustadora" e "vergonhosa".


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