Banksy: ONG brasileira lança campanha para grafiteiro mais famoso do mundo pintar parede em periferia de SP

Anúncio no jornal Metro
Image caption ONG Projeto Sonhar, que oferece atendimento psicológico a famílias pobres de São Paulo, quer que Banksy pinte parede da instituição, no Capão Redondo

"Banksy, eis uma parede para você". Ao lado dessa chamada num jornal que circula pelo Reino Unido, está a foto de uma parede desbotada de uma ONG na periferia de São Paulo.

É o início de uma campanha para que o grafite do pintor urbano mais famoso do mundo dê visibilidade a ações sociais que o Instituto Projeto Sonhar promove com famílias pobres do Capão Redondo, um dos bairros mais violentos da capital paulista.

O primeiro anúncio foi publicado nesta quarta-feira (6) no jornal Metro, que é entregue gratuitamente pelas ruas de Londres.

"Nós sabemos que você ama pintar paredes ao redor do mundo. E sabemos que, às vezes, os donos dessas paredes não ficam tão felizes com todos os visitantes que passam para ver a sua obra. Eles não querem atenção. Mas essa é a questão: nós adoraríamos a atenção. Nós precisamos dela", diz o anúncio publicado no jornal, que não cobrou para veicular a mensagem.

Conhecido pelas obras repletas de sarcasmo e críticas políticas, Banksy começou a ficar famoso nos anos 90 ao pintar, sem autorização, muros e paredes pela cidade de Bristol, no Reino Unido, sua cidade natal.

Hoje em dia, ele tem obras pelas ruas de várias metrópoles, entre elas Nova York, Los Angeles, Londres e até no muro que separa a Palestina de Israel. Independentemente da localização, toda parede que amanhece com o grafite do pintor vira, instantaneamente, atração turística.

Mas, apesar da fama, até hoje a verdadeira identidade de Banksy não é conhecida. Em 2017, Menina com Balão, que originalmente foi pintada num muro no leste de Londres, foi votada a obra predileta do Reino Unido.

Ajuda aos mais carentes

"A ideia de pedir para o Banksy pintar a parede da nossa ONG surgiu há 15 dias, de uma conversa com amigos publicitários. Resolvemos tentar anunciar nosso apelo nos jornais de Londres", contou à BBC News Brasil o fundador do Projeto Sonhar, Alex Sandro Gomes de Lima.

Ele diz que aguarda a publicação do mesmo anúncio em outro jornal britânico e o lançamento de três outdoors pelas ruas de Londres. "Conseguimos essas publicações gratuitamente, negociando com os jornais e por meio de ONGs parceiras que atuam no Reino Unido", afirma.

Criado em 2013, o Instituto Projeto Sonhar presta assistência social e psicológica a famílias de baixa renda do Capão Redondo, oferecendo orientação em diferentes áreas, como saúde, educação, emprego, moradia e saúde mental.

"Nós fazemos visitas semanais às famílias e criamos um plano de ação em várias esferas. Abordamos a evolução escolar das crianças, tentamos arrumar creche para as crianças menores, orientamos sobre obtenção de documentos de identidade e na busca por emprego e assistência à saúde", explica Lima.

Direito de imagem Press Association
Image caption Entre as intervenções de Banksy, está uma obra no muro que separa Israel de territórios palestinos

Famílias que precisam de ajuda psicológica são atendidas por duas psicólogas da instituição. Segundo Lima, as atividades são financiadas com doações, já que a ONG não conta com recursos do governo.

"A ideia de provocar o Banksy é atrair olhares para a organização. Todos os lugares por onde ele passa viram pontos turísticos e seria fantástico ter uma pintura dele para divulgar não só o projeto, mas essa região de São Paulo, que é muito pobre", afirma o fundador da ONG.

'Ônus e bônus' da visibilidade

Mas ser "dono" de uma parede premiada com uma obra de Banksy nem sempre é fácil. Em janeiro, um metalúrgico da cidade de Port Talbot, no Reino Unido, veio a público dizer que não estava conseguindo lidar com a "responsabilidade de proteger" a parede da própria garagem, após ela amanhecer com um grafite de Banksy.

Depois que a pintura apareceu, uma semana antes do Natal de 2018, hordas de turistas passaram a visitar o local.

Image caption 'É demais para mim ter que cuidar de uma atração artística sozinho', diz metalúrgico do Reino Unido que teve o muro da garagem pintado por Banksy

"Tem sido muito, muito estressante. É demais para mim ter que cuidar de uma atração artística sozinho", reclamou Ian Lewis. "Tem cerca de mil pessoas passando por aqui por dia, a todo o momento, de dia e de noite. Eu não estou conseguindo lidar com isso."

O problema é que as obras de Banksy se tornaram tão valiosas que passaram a ser alvo de furtos. Houve casos em que pedaços inteiros de paredes e murais foram arrancados e furtados.

Em outubro do ano passado, um estêncil com uma pintura do artista foi vendido na famosa casa de leilões Sotheby's, de Londres, por 1,7 milhão de libras (cerca de R$ 8 milhões). Logo após o lance, um dispositivo eletrônico foi acionado e um cortador de papel oculto sob a tela picotou o desenho, batizado de "A Menina com Balão".

O caso ganhou atenção internacional. A mulher que havia comprado a obra sem saber que ela seria picotada decidiu manter o desenho sem pedir o dinheiro de volta. Afinal, a visibilidade que o episódio gerou pode significar uma valorização ainda maior da obra.

Image caption O muro de uma garagem de propriedade de Ian Lewis amanheceu pintado em dezembro do ano passado

Esperança

É exatamente esse tipo de visibilidade que a ONG brasileira espera receber caso Banksy atenda ao apelo para que pinte o muro no Capão Redondo.

"Atenção traz doação, e doações tornariam a nossa vida mais fácil. Por isso, queremos doar todas as nossas paredes a você. Por favor, venha até aqui e ajude as pessoas a nos conhecerem", diz o anúncio do Projeto Sonhar, publicado no jornal Metro.

Até agora, Bansky não respondeu ao pedido.

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Image caption Banksy tem obras em várias cidades do mundo, como Nova York, Los Angeles e Londres

"Por enquanto, só recebemos uma doação de US$ 10 pelo site, depois da publicação do anúncio. Parece pouco, mas já ajuda muito!", comemora o fundador da ONG.

Perguntado se tem esperanças reais de que Banksy desembarque no Brasil e presenteie sua parede com um grafite, Alex Lima diz:

"A esperança é a última que morre. Entramos nessa daí acreditando que pode acontecer. Enquanto ele não rejeitar nosso pedido oficialmente, vamos manter a esperança de que ele venha até aqui."

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