Maca peruana: 'kit para engravidar' proibido se espalha nas redes e é investigado no Brasil

Imagem mostra tela de celular exibindo post em página de Instagram que vende produto supostamente à base de maca peruana como "kit para engravidar"
Image caption Perfil no Instagram divulga cápsulas como solução para engravidar em 30 dias, um comércio que, segundo a Anvisa, não é permitido

"Meninas, o que vocês estão fazendo para conseguir o positivo?", pergunta *Ana em uma rede social.

Ela tem 36 anos, tenta engravidar desde 2016 e, no Instagram, descobriu e comprou o que vários perfis diziam ser infalível: um kit para engravidar, com maca peruana.

De um deles, a brasileira recebe a seguinte mensagem, atribuída a uma mulher que teria finalmente engravidado após 10 anos de tentativas frustradas: "Tenho que agradecer a Deus e a Maca Peruana por ser uma luz em nossas vidas! Tive meu positivo no primeiro teste depois de tomar. Um único embrião e hoje tenho meu Vitor nos Braços (sic)", diz o "print" do depoimento que a reportagem da BBC News Brasil identificou como falso, ao lado de outros indícios de irregularidades na venda e promoção de um produto que se espalha no País com a ajuda das redes sociais.

Nos Estados Unidos, maior importador mundial de maca em pó, em farinha e em sêmola, a Food and Drug Administration (FDA)- agência do Departamento de Saúde do governo - encontrou Viagra escondido em uma das marcas, com riscos para pessoas com diabetes, pressão alta, colesterol alto e doenças cardíacas. E orienta, desde junho, os consumidores a não usarem o produto.

Direito de imagem Wenz Hoppus
Image caption A maca peruana é encontrada em 13 diferentes cores. A vermelha, a amarela e a preta são as que chegam ao mercado brasileiro

A maca peruana é uma raiz cultivada e exportada principalmente pelo Peru.

É produzida a mais de 4 mil metros de altitude, nos Andes, e promovida oficialmente pelo país como "superalimento" que "ganhou o mundo".

Não só isso. "Ela oferece múltiplos benefícios à saúde de quem consome, devido ao seu alto valor nutritivo e medicinal", diz um material promocional enviado à BBC News Brasil pela Promperú, órgão vinculado ao governo peruano que promove produtos locais.

O texto diz que o consumo da raiz "é associado a melhorias de pressão alta, depressão, ansiedade e, 'de um jeito ainda não totalmente entendido', também ao equilíbrio de hormônios". A propaganda oficial não faz referência aos supostos benefícios à fertilidade.

O Brasil, que há 10 anos aparecia em 20º lugar entre os maiores compradores da maca em pó, farinha e sêmola, passou à segunda posição, atrás apenas dos Estados Unidos.

As importações em 2018 somaram US$ 862 mil (R$ 3,22 milhões) e um volume de 280.420 kg - com alta de 62% sobre 2017.

'Energizante'

Mas o que está por trás desse avanço?

Para exportadores, seria o poder "energizante" da planta, aliado a uma demanda crescente por produtos naturais.

Mas é prometendo bem mais do que isso que cápsulas supostamente recheadas com esse pó se espalham, vendidas no Brasil como "supermedicamentos" para "engravidar rápido" e combater a infertilidade.

"São muitas positividades, que fazem você crescer o olho e criar esperança", diz *Ana.

Ela teve as chances de engravidar reduzidas porque anos atrás fez uma cirurgia de ligação de trompas.

"Fui mãe muito nova, tive quatro filhos e já me sentia completa. Não queria mais engravidar", diz à BBC News Brasil.

"Mas aí me casei de novo, meu marido não tem filhos e eu decidi fazer a operação para 'desligar'".

"A médica disse que eu posso engravidar, mas até agora não consegui e resolvi comprar a maca para ver se me ajuda nisso".

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Image caption As importações brasileiras de pó, farinha e sêmola da maca peruana dispararam nos últimos 10 anos e a tendência é de crescimento

Investigação

A BBC News Brasil mergulhou durante um mês nos meandros desse negócio.

A reportagem verificou um estímulo ao consumo através de propaganda enganosa e sem comprovação científica que enaltece os poderes de aumentar a fertilidade, e incrementar a libido. Os produtos são oferecidos online a preços que variam de R$ 97 a R$ 2 mil.

A BBC News Brasil encontrou também outros indícios de irregularidades: depoimentos forjados de supostos consumidores satisfeitos, como o da mulher citada no início desta reportagem, uso indevido de registros farmacêuticos e venda irregular de tratamentos.

Os sinais foram identificados em perfis no Instagram, Facebook e YouTube, que remetem a lojas online, contrariando regras das próprias plataformas.

Nas redes sociais, conteúdos recheados de propagandas para vendas não autorizadas se multiplicam, chegam a ser visualizados por milhões de pessoas e levam parte delas, como *Ana, a comprarem - e consumirem - o que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) chama de "produto clandestino".

A Anvisa afirmou à BBC News Brasil que vai abrir "investigação para averiguar possíveis irregularidades".

O Facebook e o Instagram disseram, após contato da reportagem, que estão investigando o caso e que removerão conteúdos que violem as políticas das plataformas.

Ajuda a engravidar?

Segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), Nilka Donadio, a maca não é indicada "nem como ajudinha, nem como medicamento".

"A Sociedade Brasileira de Reprodução Humana contraindica o uso da maca como tratamento. Existem pouquíssimos trabalhos científicos na área, trabalhos sérios, em revistas renomadas e que tragam avaliação da metodologia do estudo. Todos os que existem têm estatísticas muito pequenas. Então, não há embasamento científico. Eu não posso dizer que uma mulher vai tomar e engravidar em 30 dias. Isso não existe. Isso é impossível. Isso está errado. Não tem o menor cabimento falar isso", disse ela, que é PhD em Infertilidade e Fertilização in vitro.

Maca liberada?

A venda do produto no Brasil só é liberada como alimento (Consulte aqui marcas autorizadas).

Como medicamento que auxilia na fertilidade, ele precisaria ter um registro da Anvisa comprovando tal benefício, com sua segurança e qualidade atestadas.

Mas esse registro não existe, ao contrário do que diz, por exemplo, o perfil @engravidar.macaperuana.

"O comércio sem registro caracteriza infração sanitária e crime contra a saúde pública", disse a Anvisa à BBC. "É uma irregularidade atribuir propriedades terapêuticas, funcionais ou de saúde relacionadas ao consumo da maca peruana, pois essas não foram avaliadas e aprovadas pela Anvisa".

Também "não constam em nenhuma política, diretriz ou recomendação técnica do Brasil a utilização do kit para engravidar, nem mesmo evidências científicas para o uso da substância, derivados ou preparações com maca peruana", segundo o Ministério da Saúde.

'Infrações'

Direito de imagem Reprodução Instagram
Image caption A reportagem identificou um perfil do Instagram afirmando que o produto que vende sem registro é liberado pela Anvisa

A Anvisa diz que anúncios apontando a maca, por exemplo, como "supermedicamento 100% natural" capaz de "aumentar a fertilidade, diminuir a mortalidade dos embriões e aumentar a produção de espermatozoides" não são, portanto, permitidos. É assim, no entanto, que eles aparecem nos sites andesprimemaca.com.br e kitparaengravidar.com.br.

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Image caption Botões como "sim eu quero engravidar" e "quero reverter minha infertilidade" levam a páginas de vendas em alguns sites

Ambos vendem o produto "Andes prime red maca" - apesar da publicidade e comercialização terem sido proibidas em todo território nacional e mídias em uma resolução de 2018 que, segundo a Anvisa, continua em vigor.

Direito de imagem Reprodução do site
Image caption Mesmo proibida pela Anvisa em 2018, a divulgação do produto Andes Prime continuou e se espalhou pela rede

Em vez de sumir do mercado, o produto foi mantido e brotou, nos meses seguintes, em diversas contas nas redes sociais.

O site www.macaperuanaoficial.com.br usa publicidade semelhante para o produto que vende como "Maca Peruana Oficial" - divulgado junto a frases como "A PRÓXIMA MAMÃE PODE SER VOCÊ! EXPERIMENTE A NOSSA MACA PERUANA E REVERTA A SUA INFERTILIDADE!". O www.macaperuanavermelha.com também comercializa esse produto.

Em comum em quase todas as propagandas analisadas pela BBC News Brasil está o uso do logo do Globo Repórter ao lado da palavra "COMPROVADO", sugerindo que uma entrevista transmitida no programa em 2013 com o pesquisador Gustavo Gonzales tivesse atestado os poderes de aumento de fertilidade da maca.

Na entrevista, Gonzales ressalta os poderes da maca como estimulante sexual, citando estudos científicos conduzidos em seu laboratório. A doutora em pesquisa biomédica Cynthia Gonzales integra a equipe do médico no Laboratório de Reprodução e Endocrinologia da Universidade Peruana Cayetano Heredia.

Ela diz que experimentos com animais e ensaios clínicos em humanos mostram que alguns tipo de maca aumentam, por exemplo, a produção de espermatozoides, mas ressalta que "não há evidência de que a maca ajude a mulher a engravidar".

Mesmo benefícios já pesquisados, no entanto, não são reconhecidos como suficientes para dar embasamento científico ao produto como tratamento de infertilidade, segundo o Ministério da Saúde e a Anvisa.

Difusão nas redes

Nas redes sociais, porém, alguns produtos são livremente divulgados.

A BBC News Brasil identificou ao menos 52 perfis no Instagram, posts em um grupo para "grávidas e tentantes", com 97.207 membros no Facebook, páginas na mesma rede social e vídeos no YouTube onde "kits para engravidar" chegam a ser exibidos como "milagrosos".

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Image caption No Facebook e em outras redes sociais, os kits para engravidar proibidos aparecem como remédio ou métodos infalíveis

Para atrair potenciais consumidores, os perfis usam em títulos e hashtags palavras e expressões como "engravidarrapido", "tentantes" e "querosermae".

Os perfis exibem de 0 a 78 mil seguidores - parte deles perguntando sobre preços e uso do produto - e links que levam a lojas online.

'Tudo vem na sua porta'

Todas as informações que divulgam são encontradas por meio de mecanismos de busca na internet, como o Google, e foi assim que chegaram este ano ao celular de *Ana - mulher citada no início da reportagem - após um colega de trabalho do marido contar que usa a maca e ela ajuda o casamento na parte sexual.

"Como eu não tomo nada sem ler, entrei no Instagram para pesquisar", relembra *Ana.

"Aí eu também dei uma olhadinha no YouTube e vi várias pessoas dizendo que conseguiram engravidar tomando. Dei uma olhada no Google também e (o produto) apareceu no meu Facebook. Quando você abre uma coisa assim (nas pesquisas), tudo depois vem na sua porta, te mostrando. Foi aí que eu resolvi comprar para tomar junto com meu marido", disse ela.

No Facebook, um grupo fechado para "afiliados do kit para engravidar" identificado como Maca Peruana Oficial reúne 403 membros. Para fazer parte é preciso preencher um formulário com nome, endereço de e-mail, link do perfil no Facebook e número de WhatsApp. A ideia é aumentar o número de afiliados que se tornam divulgadores/vendedores de maca.

Ao se tornar um afiliado, a pessoa é enquadrada como iniciante, intermediário ou avançado. Há um campo também para que o interessado indique quantas vendas já realizou - de 0 a mais de 100 - e como pretende divulgar o kit para engravidar, se através do Facebook, do YouTube, Ads (serviço de publicidade da Google que exibe o anúncio no momento exato em que uma pessoa está pesquisando produtos e serviços relacionados), via SEO, ou seja, otimizando o site, para que ele apareça em destaque quando o usuário buscar o produto, ou de outras formas.

Também são exibidas sete regras do grupo. Entre elas, as que proíbem entrar em contato com pessoas que não estão buscando informações sobre o kit, assim como usar vídeos para divulgação com vozes robotizadas do Google.

Quem quer fazer parte também não pode divulgar imagens e logomarcas de concorrentes diretos e se compromete ainda a manter o preço correto no material de divulgação.

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Image caption *Ana - nome fictício - comprou o "kit para engravidar " parcelado em 12 vezes, movida, segundo ela, a muita esperança

Compra

*Ana comprou o kit na página "macaperuanaoficial", por intermédio do perfil @engravidar.macaperuana.

Com um preço superior a R$ 300, o kit consumiria cerca de 40% do que ganha em um mês como manicure, e foi parcelado em 12 vezes.

Poucos dias depois, chegou pelos Correios.

"Tomo duas cápsulas antes do café da manhã e duas antes de dormir. São dois potes meus e dois do meu marido".

Essa dosagem aliada à "prática sexual de 2 a 3 vezes por semana, tendo de 1 a 2 dias de descanso", segundo post da página, torna "provável engravidar ainda nas primeiras semanas".

'Ilusórias'

"Eu até suspeitava que essas propagandas fossem ilusórias, mas, vem a esperança, vem a fé, e eu acho que a maioria das mulheres cai por pensar que tem uma luzinha no fim do túnel, de você querer algo e saber que aquilo ali pode conceder. Eu confesso que acreditei", diz *Ana.

Quando foi entrevistada pela BBC, ela havia tomado as cápsulas durante um mês e se preparava para abrir o último frasco do produto. Havia feito um teste de gravidez, porque também tomava um indutor de ovulação prescrito pela ginecologista.

"Mas o resultado deu negativo".

Fake

*Ana diz que relatos que encontrou no perfil @engravidar.macaperuana e em outras páginas a incentivaram a comprar o kit. Ela foi estimulada por depoimentos como o de "Ana Paula", que a BBC News Brasil confirmou ser falso.

Utilizando uma ferramenta de busca reversa para descobrir a origem da foto, foi possível chegar à verdadeira dona da imagem: a escritora americana Lesley Kinzel, que atuou como roteirista e produtora na série de comédia Mystery Science Theater 3000 (MST3K), disponível na Netflix.

Por e-mail, Lesley disse à reportagem que o depoimento "é totalmente falso". "Eles estão mentindo - eu nunca usei esse produto ou qualquer produto de fertilidade", afirmou, dizendo que conversaria com seu advogado sobre o caso.

A reportagem verificou o uso de depoimento falso em algumas páginas, mas também viu e ouviu histórias contadas por mulheres reais sobre o eventual consumo de maca peruana. As experiências que narram vão de "consegui engravidar, após tomar", passando por "não tive resultado", até desconfiança a respeito do potencial que veem anunciado sobre o produto.

Direito de imagem Reprodução Instagram
Image caption Depoimento apresentado em vários perfis como de brasileira que engravidou graças à maca exibe foto, na verdade, de americana

Vendas

No YouTube, a influenciadora digital Patrícia Moreira - que se define como professora e estudante de artigos de medicina - é a apresentadora de alguns dos vídeos com mais visualizações sobre o tema oferecidos pelos mecanismos de busca em resposta a consultas do tipo "gravidez" ou "maca peruana para engravidar".

Ela explica no canal o que é a maca peruana e ensina como usar o produto.

Também alerta que "é preciso ter muita atenção na hora de comprá-lo, com alguns representantes aí".

"Porque a maca peruana é assegurada pela Anvisa. Essa Agência assegura que este alimento não venha a causar nenhum efeito colateral", diz em um vídeo postado em 14 de setembro de 2018 que tinha 36 mil visualizações até julho.

Na descrição, um link levava para o site kitparaengravidar.com.br - cujo produto tem a divulgação e venda proibidos pela Anvisa.

Com 488 mil pessoas inscritas em seu canal Boa Gravidez, Patrícia também exibia um link para o siteMacaperuana_ Andes Prime na descrição de um vídeo sobre gravidez, postado em 12 de junho de 2018 e que teve 2,3 milhões de visualizações. Nos vídeos, ela também divulgava outro produto feito à base de maca peruana, o Fertil Caps.

Em um dos textos que acompanhavam seus vídeos, a maca era apontada como "o método mais potente para engravidar em até três meses".

Textos e links foram removidos por ela após ser procurada pela BBC News Brasil para comentar sobre o teor da reportagem.

Patrícia não comentou sobre o Andes Prime, mas sobre a Fertil Caps, disse não ter vínculo com a marca e que veiculou "propaganda com vídeo e link, por contratação de serviço de divulgação".

"Já bloqueei e desvinculei as propagandas e já cobrei à Fertil Caps um posicionamento sobre o assunto", disse ela.

A BBC News Brasil procurou a Fertil Caps e a Andes Prime, mas não obteve retorno. Outros sites que vendem os kits e o perfil @engravidar.macaperuana também não responderam.

O YouTube, que diz não permitir posts que vendam diretamente ou tenham links para sites cujo conteúdo viola suas diretrizes da comunidade" - incluindo na lista medicamentos sem receita médica - não comentou se irá adotar alguma medida sobre canais que fazem essa divulgação.

Em nota, o YouTube disse, sem especificar se havia feito essa avaliação, que "quando não há violação clara à política de uso do produto, a análise final sobre a necessidade de remoção de conteúdo cabe ao Poder Judiciário, nos termos do Marco Civil da Internet".

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Image caption Imagens e links para compra dos "kits para engravidar" se espalham pelo YouTube em diversos canais com dicas sobre gravidez e outros

'Fraude'

O Conselho Regional de Farmácia do Espírito Santo (CRF-ES) confirmou outra irregularidade nos sites macaperuanaoficial.com.br e macaperuanavermelha.com: o uso fraudulento de registro de farmacêutico responsável do Estado nos sites e em rótulos do produto que comercializam.

Só com este registro a atividade farmacêutica pode ser exercida.

O número que consta nos dois sites é associado a Edson Moraes. O CRF-ES disse à BBC News Brasil que Moraes não é o verdadeiro titular do registro nem tampouco seu nome consta nos cadastros do Conselho.

"A farmacêutica cujo número estaria sendo utilizado de forma irregular e sem o conhecimento da mesma, foi avisada do ocorrido para que tomasse as providências que julgasse necessárias", disse o presidente do CRF-ES, Luiz Carlos Cavalcanti.

O órgão disse ainda que "nenhum farmacêutico inscrito com o CRF apresentado (nos rótulos) é responsável por este tipo de empresa, o que por si só constitui uma fraude", e que enviou o caso à área de coordenação de fiscalização para que seja investigado.

"O uso de um número de CRF-ES sem autorização do profissional e sem anotação no órgão fiscalizador pode configurar indícios de infrações sanitárias além de outros crimes como exercício ilegal da profissão", disse Cavalcanti.

O CRF-ES encaminha denúncias do tipo à polícia e à vigilância sanitária.

Infertilidade

No Brasil, o índice de casais com alguma dificuldade para engravidar acompanha o de outros países: 20%.

O número, segundo Nilka Donadio, da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, engloba aqueles que não conseguem resultados positivos, após 12 meses tentando com relações frequentes e sem usar métodos contraceptivos.

Direito de imagem Cedida
Image caption Nilka Donadio, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, recomenda cuidado aos casais que buscam autotratamento

A médica observa que "o tratamento de infertilidade é emocionalmente muito difícil para o casal, muitas vezes demorado, caro e que existem pouquíssimos hospitais públicos oferecendo", o que acaba estimulando o uso de produtos como a maca peruana. "Na hora que alguém fala que tem um método infalível para engravidar em 30 dias, você acha que essas pessoas não tentam?".

Muitas, segundo a médica, buscam soluções nas redes sociais sem nem saberem o porquê de não engravidarem.

Causas

Nos homens, as causas mais comuns de infertilidade são a varicocele - uma dilatação anormal das veias dos testículos - além de alterações hormonais e causas que não encontram diagnóstico.

Nas mulheres, a principal causa é a endometriose. Outras comuns são a presença de miomas ou pólipos no útero, possíveis obstruções nas trompas e causas hormonais, a exemplo de alteração de tireoide ou existência de ovário policístico - que impede a ovulação.

As chamadas causas autoimunes, em que as mulheres engravidam, mas abortam com mais facilidade, também entram nesse escopo, assim como infecções provocadas por bactérias como clamídia, gonococo e mycoplasma, que deixam sequelas nas trompas.

Sem diagnóstico

Em alguns casos, porém, a razão não é encontrada, como aconteceu com a empresária Heloísa Amaral, de 41 anos.

"Eu fui a um ginecologista, fiz todos os exames de fertilidade e nenhum apontava problemas", lembra.

Foram 5 anos de tentativas, duas inseminações artificiais e uma fertilização in vitro, sem sucesso. "Com o desgaste emocional e o financeiro", ela decidiu parar com tudo. Até ouvir uma amiga e, depois, uma terapeuta holística.

"Ela disse: 'Você vai fazer acupuntura, tomar maca peruana, diminuir a carga de trabalho, vai descansar'."

"Três meses depois eu estava grávida", diz ela.

"Tenho certeza de que não foi coincidência, mas também não coloco o resultado sobre a maca peruana exclusivamente. Foi um conjunto de ações, uma mudança de qualidade de vida, que deu resultado".

Ela engravidou em 2015 e diz que a busca "foi sofrida".

"Eu já estava com uma idade avançada e no meu caso não tinha nada que pudesse confirmar uma infertilidade. Isso para mim era pior, porque eu sabia que o problema estava comigo. Que talvez fosse um problema mental mesmo, de controle, desequilíbrio na época. E eu acordei pra isso. Percebi que precisava mudar".

A maca que ela usou foi comprada em uma farmácia. Em grupos de que participa no WhatsApp ela e outras mulheres comentam sobre o produto.

Ela conhece várias que tomam. Mas não sabe o final dessas histórias.

A empresária também diz que, até esta entrevista, não havia visto o produto como anúncio nas redes sociais.

Ela afirmou que não o compraria com o apelo que os vendedores fazem, de que é a supersolução para as mulheres que querem ser mães e não conseguem. "Eu acho que essa é uma forma agressiva de lidar com um assunto tão delicado no universo feminino, que é a infertilidade. É aproveitar que você está num momento frágil, sensível. Eu vejo até como cruel".

Direito de imagem José Cáceres
Image caption A maca é divulgada oficialmente pelo Peru como 'superalimento', mas sua fama como afrodisíaco corre o mundo

'O desafio'

Ao ser questionada se está falhando na atuação - uma vez que algumas de suas resoluções estão sendo descumpridas -, a Anvisa admite que a fiscalização das vendas do produto na internet é um "grande desafio" .

Outras propagandas irregulares de maca peruana haviam sido proibidas em 2017 e 2018 e, segundo a Anvisa, continuam vetadas.

"Anúncios proibidos hoje, quando retirados, muitas vezes são republicados em outros sites e atualmente não existem ferramentas que permitam ao agente fiscalizador a interrupção da ocorrência da irregularidade, como interdição e recolhimento de mercado que são observadas no ambiente físico", diz a Agência. "Mas a fiscalização continua e a reincidência é um agravante".

Em casos de uso de depoimentos falsos, a empresa envolvida pode responder perante os órgãos de defesa do consumidor. E também pode ter de se explicar à Anvisa: "O site que está divulgando esses depoimentos transformou-o em materiais publicitários e passa a ser responsável pela sua divulgação com fins comerciais, uma vez que é decisão dele publicar ou não o depoimento", diz a Agência.

A Anvisa orienta a população a desconfiar de produtos apresentados como "milagrosos", e observa que propagandas de medicamentos devem ter "informações completas, claras e equilibradas, que alertem quanto aos riscos inerentes ao uso, sem destacar apenas os benefícios".

'Alerta'

Direito de imagem Reprodução
Image caption Agência federal americana descobriu ingrediente não declarado em produto à base de maca e alertou consumidores sobre riscos

A FDA - agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, fez um alerta parecido em nota à BBC News Brasil, ao ser consultada sobre a venda de maca peruana no mercado americano.

A FDA complementou que "não é porque um produto alega ser natural que o consumo é seguro" e chamou a atenção para um alerta que divulgou em 26 de junho - aconselhando os consumidores a não comprarem ou usarem o produto "Peru Maca", independentemente de onde é fabricado.

"Fizemos uma inspeção em um lote e a análise em laboratório comprovou que havia uma substância não declarada no produto".

O ingrediente oculto, o sildenafil, é usado no tratamento da disfunção erétil no homem, e chega ao mercado como Viagra.

O perigo, segundo a FDA, é de ele "interagir com nitratos encontrados em alguns medicamentos, como a nitroglicerina, e reduzir a pressão sanguínea de quem toma a níveis perigosos".

Pessoas com diabetes, pressão alta, colesterol alto ou doenças cardíacas, que normalmente tomam nitratos, seriam um potencial grupo de risco.

Nos casos de infertilidade, Nilka Donadio diz que a crença no poder da maca pode acabar prejudicando um tratamento de gravidez eficaz.

"Vejo o malefício de a mulher perder tempo, demorar a buscar um tratamento efetivo para usar um produto que não é cientificamente comprovado... e aí, quando ela vai buscar o tratamento adequado, às vezes, o tempo passou".

Apesar de ter sido informada de todos os questionamentos sobre o uso da maca, por meio da reportagem, *Ana disse que continuará usando o produto até o fim de seu kit.

"Vou continuar tomando porque já comprei. Mas meu sentimento de agora em diante é de pezinho no chão quando o assunto for maca".

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