'Encontrei meu pai 30 anos após ter sido tirado dele': a busca por raízes de brasileiro adotado por britânicos

Edson (camiseta preta) e seu pai Ananias Direito de imagem Edson Sanderson
Image caption Edson e seu pai Ananias jogando uma partida de sinuca

A memória mais antiga de Edson Sanderson é uma viagem em um ônibus muito quente rumo a São Paulo, com a mãe e o irmão mais novo, Emerson. Sem intenção de voltar, ela os levara por centenas de quilômetros de distância para longe do pai, que ficou em Sonora (MS).

Na época, ele tinha aproximadamente de 3 anos e não fazia ideia de que não veria o pai novamente por mais de 30 anos.

Os dois finalmente se reencontraram em abril de 2019, graças a um post no Facebook.

Lembrando-se do momento, Edson, hoje com 38 anos, diz: "Quando cheguei ao aeroporto, era só alegria. Acho que o abracei um pouco demais!"

Direito de imagem Edson Sanderson
Image caption Edson (direita) na infância com Keith Sanderson e Cleverson

Os detalhes do que aconteceu com Edson e seu irmão depois que chegaram a São Paulo não são claros. Ele nunca foi capaz de estabelecer a sequência exata dos eventos.

As únicas coisas que ele sabe com certeza são: sua mãe o abandonou, ele acabou em um orfanato e de lá foi para as ruas. Edson nunca descobriu o que aconteceu com seu irmão.

No orfanato, ele ganhou fama de fujão, tanto que, quando Keith Sanderson viajou do Reino Unido em 1988 para adotar Edson, ele não tinha certeza se encontraria o menino lá.

Keith e sua esposa Jennifer, de Wiltshire, eram considerados velhos demais para adotar no Reino Unido e, por isso, encontraram Edson por intermédio de uma agência americana.

Direito de imagem Ed Sanderson
Image caption Keith e sua esposa Jennifer, pais adotivos de Edson, que o adotaram no Brasil

Do ponto de vista de Edson, tudo foi muito repentino: "As pessoas do orfanato disseram: 'Você quer ter uma família?' e eu disse: sim. Então, eles me apresentaram um homem enorme e me lembro de caminhar e abraçar a perna dele ".

Os Sanderson também adotaram um garoto mais velho chamado Cleverson. Algumas semanas depois, eles se encontravam em um novo país, com novos pais e um novo idioma para aprender.

"Minha família adotiva era incrivelmente amorosa", diz Edson, que agora vive em Trowbridge. "Embora no primeiro mês eu tenha odiado a comida e passado muito frio.

Direito de imagem Edson Sanderson
Image caption Edson hoje com sua esposa Catherine e filhos

"Lembro que saímos para procurar neve, porque Cleverson e eu pensávamos que seria como pedras no chão, nada a ver com o tempo."

Aos 18 anos, a vontade de encontrar os pais biológicos crescia em Edson, mas a primeira pesquisa, em 1998, em um site de ascendência não deu em nada.

Ter os próprios filhos nos anos seguintes aprofundou o desejo de se conhecer as próprisa raízes, mas a sorte dele só mudaria em dezembro de 2018, quando sua esposa Catherine teve a ideia de aproveitar o poder das redes sociais.

Ela publicou uma foto de Edson no Facebook ao lado de todas as informações os documentos de adoção traziam sobre a família brasileira.

O que eles não esperavam é que a postagem fosse lida e compartilhada por milhares de pessoas tão rapidamente.

"Dentro de 24 horas, recebi uma mensagem da minha sobrinha dizendo: 'Estou sentada aqui com seu pai agora'", lembra Edson.

O pai biológico de Edson, Ananias, ex-trabalhador de cana-de-açúcar, diz que tinha perdido toda a esperança de encontrar Edson e Emerson.

Ele conta que quando a mãe deles os levou para São Paulo décadas atrás, prometeu que voltaria em breve. "Ela até pegou dinheiro de nossos vizinhos dizendo que compraria coisas para eles", lembra Ananias.

Direito de imagem Ed Sanderson
Image caption Edson conseguiu encontrar seu pai biológico após publicar essa foto segurando cartaz no Facebook

Quando ele descobriu que ela o havia deixado para ficar com outro homem e não tinha intenção de voltar, ele pediu à irmã que fosse a São Paulo para procurar os meninos.

"Ela não conseguiu encontrar nenhum rastro deles ou da mãe", lembra ele. "Fiquei arrasado."

Décadas depois, quando viu o post de Edson, ele disse estar impressionado. "Era como se tivesse sido pai outra vez."

"Foi um momento muito bom. Fiquei muito feliz, mas também sou grato à família que o criou na Inglaterra."

Apesar da felicidade de Edson ao reencontrar o pai meses depois no Brasil, ele sabia que não podia recuperar o tempo perdido.

"Eu estava me encontrando com um estranho", diz ele. "Quando criança, eu nem conseguia me lembrar de como meu pai era".

Eles ainda aguardavam os resultados de um teste de DNA para confirmar o vínculo paterno, mas decidiram não adiar o encontro por causa dos problemas de saúde de Ananias.

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Image caption Apesar de ter reecontrado pai, Edson ainda não sabe o que aconteceu com irmão desaparecido

Depois de uma semana, eles formaram uma nova relação, e o vínculo foi selado durante uma partida de futebol.

"Nós dois nos sentamos na cama, assistindo ao time dele, o São Paulo, e tomamos uma cerveja juntos. É isso que todos os meninos esperam de seus pais.

"Toda vez que eu o via depois daquilo, eu dava um grande abraço e um beijo nele."

Embora encontrar seu pai tenha sido um sonho que se tornou realidade para Edson, ele diz que não vai se sentir totalmente satisfeito enquanto seu irmão estiver desaparecido.

Ele sempre esperou que sua mãe soubesse a resposta e, em uma estranha reviravolta do destino, teve a oportunidade de lhe fazer a pergunta.

Direito de imagem Edson Sanderson
Image caption Edson com sua sobrinha e seu pai biológico quando viajou para reencontrá-lo no Brasil

Um investigador particular em São Paulo viu o apelo do Facebook e disse tê-la localizado.

Uma ligação pelo Skype foi organizada, mas Edson lembra que a mulher do outro lado da linha era evasiva. "Quando perguntei o que havia acontecido comigo e com Emerson, tudo o que ela disse foi que não conseguia se lembrar."

Decepcionado, mas indiferente, Edson diz que sua busca por Emerson continuará.

Os resultados do DNA finalmente confirmaram a paternidade de Ananias, mas a alegria durou pouco tempo. Em junho, o pai de Edson morreu enquanto dormia.

No entanto, Edson diz que o encontro com Ananias foi a melhor decisão que ele já tomou. "Tive a sensação de que essa era minha família biológica", diz ele.

"Eu o encontrei, e ele morreu sabendo que seu filho está em segurança e bem."

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