O sufoco dos millennials espanhóis para driblar a crise e conseguir pagar as contas

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Image caption Os millennials espanhóis gastam em média mais da metade de sua renda mensal com aluguel

A startup espanhola Mr Jeff ganharia provavelmente o prêmio de empresa com o nome mais millennial da Espanha. O serviço de lavanderia com entrega em domicílio tem esse nome por causa de Jeffrey, o mordomo da série de televisão The Fresh Prince of Bel Air, da década de 1990, cuja trilha sonora de abertura ainda ecoa na mente de muitos millennials.

A Mr Jeff, inaugurada em 2016, em Valência, foi idealizada por três jovens empreendedores - todos millennials, não é de se surpreender - e se expandiu rapidamente da Espanha para a América Latina. Para o fundador Eloi Gómez, de 26 anos, abrir sua própria empresa era um caminho óbvio.

"Quatro ou cinco anos atrás, a sensação era de que, caso eu não (abrisse um negócio próprio), teria que ir para o exterior ou precisaria cursar um mestrado, porque um trabalho real parecia loucura. Era impossível conseguir um emprego de verdade", diz ele.

No mundo todo, millennials estão sofrendo as consequências de uma crise econômica devastadora - empregos mal remunerados com contratos temporários, aumento dos preços da moradia e a pressão de sustentar uma população que está envelhecendo.

Na Espanha, os jovens sentiram essa tensão de forma particularmente cruel. Em comparação com os integrantes da geração X (nascidos entre 1966 e 1980) quando tinham entre 30 e 34 anos, os millennials da mesma idade têm uma renda disponível 30% menor em termos reais.

"Esta é provavelmente a primeira geração que, em certa medida, não tem a garantia de que se beneficiará de melhores condições de vida do que seus pais", diz Marcel Jansen, professor de economia da Universidade Autônoma de Madri e pesquisador da Fundação de Estudos Econômicos Aplicados, também na capital espanhola.

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Image caption Diante das perspectivas desanimadoras de emprego, Eloi Gómez fundou a startup Mr Jeff

Cinco anos após a crise econômica mundial, em 2013, os níveis de desemprego entre os jovens do país chegaram a 56%. Ao longo da última década, o desemprego prolongado aumentou cinco vezes entre essa parcela da população.

"Nossa geração foi ensinada que você só precisa estudar e obter um diploma universitário, que depois disso você terá um emprego", diz Gómez. Mas os millennials como ele tiveram que buscar um plano B, se afastando do modelo seguido pelas gerações anteriores.

O futuro incerto está impulsionando a chamada "geração perdida" da Espanha em direção a empregos não tradicionais para ganhar a vida. Na Espanha moderna, a trajetória linear não é suficiente para muitos sobreviverem.

Custo de vida

Os aluguéis na Espanha estão subindo 12 vezes mais rápido que os salários. O aluguel médio mensal aumentou durante os primeiros três meses de 2018 para 1.025 euros - chegando a 1.603 euros em Barcelona e 1.549 euros em Madri.

Em contrapartida, pesquisadores do Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha estimaram o salário médio mensal do país em 943 euros para quem tem de 20 a 24 anos; 1.323 euros, de 25 a 29 anos; e 1,612 euros, entre 30 e 34 anos.

Na extremidade inferior da média de aluguel, mesmo os millennials mais bem remunerados gastam estatisticamente mais de 50% de seu salário mensal com moradia - muito além do limite de 30% recomendado por especialistas.

Pesquisadores da Comissão Intergeracional do centro de estudos britânico Resolution Foundation concluíram que "os millennials têm renda substancialmente menor do que a geração X na mesma idade. Na Espanha, por exemplo, a renda padrão dos millennials na faixa de 30 anos é - até agora - 30% (7 mil euros) menor do que a da geração X".

E, embora os padrões de vida tenham certamente melhorado nos últimos 30 anos, se as condições são realmente "melhores" é pouco claro, de acordo com o economista Francisco José Goerlich, que trabalha na Universidade de Valência, na Espanha.

"É verdade que os aluguéis em alta, especialmente nas grandes cidades, são uma parte importante dos gastos, então o dinheiro que sobra para outras coisas é, de certo modo, menor", diz ele.

Um plano de voo diferente

Cristina Robles, de 30 anos, estudou cinema documental e estagiou em empresas de Madri, incluindo a emissora nacional Televisión Española. Ela também descobriu que entrar no mercado de trabalho como uma millennial era difícil - especialmente em comparação com seus antecessores.

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Image caption Cristina Robles, de 30 anos, à direita, se juntou recentemente a uma cooperativa de entregas de bicicleta

"Todo mundo espera que você faça cinco trabalhos diferentes em um e receba 650 euros por mês", diz ela.

Robles não conseguiu emprego na indústria de mídia - em vez disso, faz parte da La Pájara Ciclomensajería, um serviço de bicicletas que oferece entregas, agendadas online ou por telefone, inclusive de pedidos de comida.

A La Pájara foi lançada em setembro de 2018 por cinco amigos millennials - três espanhóis, um costa-riquenho e um italiano. Os cinco tinham experiência de trabalho prévia na chamada "gig economy" (baseada em trabalhadores temporários e sem vínculo empregatício), incluindo na empresa de entregas Deliveroo.

Eles queriam deixar esse modelo restritivo e migrar para algo em que tivessem mais autonomia e relações de trabalho mais éticas.

"Acho que o segredo é que somos os donos da cooperativa e todo o dinheiro é compartilhado por nós", diz Martino Correggiari, de 30 anos. Ele acrescenta que "não há intermediários", como outros modelos de negócios da "gig economy", que dependem de contratantes. O coração da La Pájara, ele enfatiza, está em trabalhar por conta própria.

No momento, os ciclistas estão perto de ganhar 9 euros por hora, mas como o negócio começou recentemente, eles estão no que chamam de "fase de transição": construindo uma base de clientes forte. (A Espanha não tem um salário mínimo por hora, mas o mínimo mensal exigido é de 735 euros ou de 4,50 euros por hora, para uma semana de 40 horas).

O novo trabalho de Robles é arriscado, mas ela está ganhando mais do que seu último emprego na TV, que era um estágio não remunerado.

"Adoramos estar nas ruas e pedalar, e é muito legal se você pensar que pode ser pago por algo que realmente ama", diz ela.

A geração 'perdida' que se encontrou

María Ramos é coautora do livro El Muro Invisible ("O Muro Invisível", em tradução livre), que explora a barreira entre os jovens e adultos independentes na Espanha. Segundo ela, as restrições econômicas enfrentadas por millennials estão retardando seu crescimento através de marcos importantes da vida.

Algumas transições - como a paternidade ou maternidade - estão acontecendo cada vez mais tarde e, em alguns casos, são adiadas por completo.

"Esse atraso na Espanha é muito evidente", diz Ramos. "Aos 30 anos, 78% dos jovens ainda moram na casa dos pais. A falta de estabilidade nos empregos dos jovens é enorme e, em muitos casos, se estende por toda a vida".

Em 2018, a Espanha registrou sua menor taxa de natalidade em 40 anos: 1,3 filhos por mãe. Em 1972, eram 2,9 filhos.

"Os millennials ficam mais tempo com os pais, casam-se mais tarde e têm filhos mais tarde", concorda Gómez.

"Minha mãe tinha 16 anos quando saiu de casa e meu pai tinha 25 anos", conta.

Além das mudanças de estilo de vida, muitos millennials também estão repensando o que significa ser bem-sucedido, tanto profissionalmente quanto pessoalmente.

"As pessoas estão procurando mais experiências do que metas de vida; aos 30 anos, vou me casar, ter dois cachorros e, se tudo der certo, ter um filho. As pessoas não estão medindo suas vidas em objetivos, estão medindo suas vidas em experiências", avalia Robles.

"Se este trabalho nos permite ter uma vida decente e gostar do que fazemos... então eu acho que não estamos fazendo nada de errado."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Capital.

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