A estranha história por trás do filme escrito pelo ditador espanhol Franco

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Image caption Guerra Civil Espanhola é pano de fundo de filme escrito pelo general Franco

A maioria das ditaduras termina em revolução. A Espanha foi uma rara exceção.

Francisco Franco morreu em paz em 1975, quase quatro décadas depois de as forças fascistas triunfarem na Guerra Civil Espanhola. Franco acreditava que passava o poder à confiança do Rei Juan Carlos.

Mas o rei era sensível à maré da história e, assim que o líder fascista morreu, começou a instaurar a democracia. A transição da ditadura à democracia foi impressionantemente tranquila. E isso significa que a Espanha nunca realmente lidou com o seu passado.

Franco deixou seu país com uma bagagem - e um debate interminável sobre o que fazer com ela. O Vale dos Caídos, uma robusta basílica construída para honrar os mortos na guerra civil, é onde Franco está hoje enterrado - pelo menos até o momento, já que um decreto real aprovado recentemente pelo Parlamento espanhol ordena a remoção de seus restos mortais para outro lugar.

Há incontáveis ruas e praças com o nome do fascista. Há até uma reconhecida fundação dedicada a celebrar vida e obra de Franco. Mas uma estranha relíquia deixada para trás é um filme cujo roteiro foi escrito por Franco sob um pseudônimo em 1942 e que pode ser assistido online na Espanha.

O longa-metragem Raza(Raça) surgiu com um pedigree de extrema direita. Ele não apenas foi roteirizado por Franco, mas dirigido por José Luis Sáenz de Heredia, primo de Primo de Rivera, fundador da Falange, o partido fascista posteriormente liderado por Franco.

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Image caption Franco escreveu o roteiro de Raza com um pseudônimo; produção pode ser assistida online na Espanha

A princípio, o filme era simplesmente uma propaganda. Ele narra a história dos Churrucas, uma família militar na zona rural da Espanha. No primeiro ato, rodado em 1897, o pai patriarcal morre heroicamente na defesa da colônia espanhola de Cuba contra os Estados Unidos, deixando sua mulher criando por conta própria três filhos e uma filha.

Décadas depois, um filho busca dinheiro e poder na política, enquanto os outros seguem vocações mais tradicionais, como de soldado, padre e dona de casa.

Quando começa a guerra civil, a família é dividida. Pedro, o filho rebelde, se aproxima do governo Republicano. Os outros ficam firmes do lado de Franco.

No final, no entanto, Pedro enxerga o erro de sua escolha e se retrata, provando a si mesmo a verdadeira alma da "raça espanhola" - como o resto dos Churrucas. Ao final, a família se une pelo heroísmo do filho predestinado, José, que ganhou poder como um líder militar dos fascistas.

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Image caption Raza foi dirigido por José Luis Sáenz de Heredia, primo de Primo de Rivera - fundador do partido fascista, a Falange

É uma alegoria que mostra a Espanha como uma família dividida pela guerra, mas que ao final volta a se unir pela ação de um filho predestinado. Como filme, não é muito original. Mas como propaganda criada pelo próprio Franco, ela contém profundidades acidentais: reflete sobre sua intenção e trai suas vaidades.

Moldando uma imagem

A família Churruca é uma versão revisada favoravelmente da própria família de Franco - e o herói José Churruca é um alter ego ficcional do próprio ditador. Ambas as famílias são galesas. Ambas têm uma história de serviço naval, mas José, assim como Franco, serviu ao Exército.

Tanto José quanto Franco lutaram no Marrocos e têm um irmão republicano que mais tarde é "resgatado". Ambos adiam o casamento até terminarem o serviço militar. Em resumo, Razaapresenta uma narrativa em que Franco, de forma tênue, disfarçado de José Churruca, retrata-se como o filho divinamente ordenado da família nacional espanhola.

Mas Raza foi mais do que um projeto de vaidade: era uma tentativa de influenciar a memória do público.

Franco escreveu o filme em 1940, logo depois do fim da guerra civil. Segundo estimativas, meio milhão de pessoas foram mortas. Ambos os lados cometeram atrocidades contra seus inimigos; depois do Camboja, a Espanha foi o segundo país com o maior número de sepulturas em massa do mundo.

Embora Franco tenha protestado contra a influência internacional sobre a Espanha, ele recebeu uma assistência vital de fascistas italianos e alemães. E derrubou um governo eleito democraticamente. Em outras palavras, a guerra foi complexa, e Franco queria oferecer uma narrativa mais simples para servir a seus propósitos: Raza seria a versão oficial da guerra.

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Image caption Franco está hoje enterrado no Vale dos Caídos, uma basílica robusta construída para honrar os mortos da guerra civil

Raza remodela a história espanhola por meio da visão nacionalista de Franco: Deus, família e a raça espanhola. Os fascistas eram apoiadores dessas coisas; os republicanos eram contra. Isso significa que os fascistas não lutavam pelo poder político, mas pela salvação da Espanha.

Enquanto isso, os republicanos são agentes do caos: sujos e ferozes, engolindo o vinho da comunhão e metralhando padres. A divisão não é sutil, e as imagens fortes ficam na mente. Em uma sequência, um grupo de padres é levado para a praia; suas pegadas somem na areia molhada enquanto rezam, abençoando a si próprios e aos homens prestes a matá-los.

Um truque que o filme usa para emprestar o peso da verdade aos eventos é misturar imagens fictícias e documentais. Isso ocorre, por exemplo, na sequência final, na qual os nacionalistas celebram a vitória pelo fim da guerra civil.

Os close-ups de José Churruca no lugar de honra do desfile são cortados por imagens do desfile da vitória de Franco em 1939. Em seguida, outra sequência mostra uma montagem dos momentos de clímax do filme - as mortes heróicas dos homens da família Churruca, por exemplo - misturadas a imagens reais da guerra civil. Esses truques de edição borram as fronteiras entre as histórias de José e Franco.

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Image caption O então príncipe Juan Carlos da Espanha - na imagem, ao fundo de Franco em 1975 - começou a transição da Espanha de uma ditadura para a democracia

Na realidade, Raza foi a coisa mais próxima de uma autobiografia que Franco produziu, e ele manteve um olho atento em sua produção. Enquanto o filme era gravado, quase todo dia um motorista chegava com instruções precisas de como as sequências deveria ser.

Projeto caro

A produção foi generosamente financiada pelo Estado, com 1,65 milhão de pesetas - uma fortuna na época. Isso foi, em parte, gasto em dezenas de locações e roupas do figurino, além de centenas de extras e quase 45 mil metros de filme - apenas um de cada 15 foi usado. Até Orson Welles teria rido por tamanho gasto.

Quando a filmagem terminou, Franco teve uma exibição privada. Saénz de Heredia se lembra: "Assistimos ao filme juntos, Franco e eu na frente, sua esposa e outros atrás; do canto do meu olho, sob a luz da tela, eu vi que ele estava emocionado, que seus olhos estavam molhados e atentos, o que me deixou feliz, porque significava que tudo tinha dado certo. E quando terminou, ele me disse exatamente isto: 'muito bem, Saénz de Heredia — você conseguiu'".

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Image caption Desamparats Bayona, 88, tem um retrato de seu pai, Vicente Bayona, um dos muitos executados que foram enterrados em valas comuns da era Franco

No entanto, a satisfação de Franco teve curta duração. Mais tarde, ele reescreveu a história para atender às suas necessidades - já que, com o tempo, suas necessidades mudaram. Ao final da década, os fascistas perderam a Segunda Guerra Mundial, e a versão de Franco da guerra civil tinha de ser reescrita para legitimar seu poder.

Então, em 1950, Franco censurou seu próprio filme e ordenou a destruição de todas as cópias que se pudesse encontrar. Em uma nova versão, o título se tornou Espíritu de una Raza (Espírito de uma Raça). Todas as saudações fascistas foram cortadas.

O inimigo mudou: de republicanos, maçons, burgueses e políticos para, simplesmente, os comunistas. E os golpes contra os EUA foram removidos - eles em breve se tornariam aliados da Espanha. Agora, Raza era compatível com os novos contornos políticos da Guerra Fria.

Foi um toque convenientemente orwelliano. A construção do mito de Franco, da qual Razafoi parte, borrou o registro histórico. Até hoje, mais de 40 anos depois de sua morte, não há consenso sobre o que significaram a guerra civil e sua ditadura.

As poucas pesquisas conduzidas revelam uma persistente ambivalência. Uma delas, realizada em 2008, mostrou que a maioria acreditava que o franquismo teve "tanto um lado bom quanto ruim". A mesma pesquisa revelou que o público se opunha a processar ex-oficiais de Franco e se mostrava indiferente a uma comissão da verdade para atribuir responsabilidades pela guerra civil.

Atualmente, apenas uma pequena minoria acredita na versão de Razada história, mas isso pode ter semeado dúvidas e confusões suficientes para proteger o legado de seu arquiteto.

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