Por que ecologistas querem soltar elefantes e leões pela Europa

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Image caption Elefantes asiáticos podem desaparecer dentro de 50 anos

No dicionário ambientalista, um novo termo parece estar ganhando cada vez mais importância: o rewilding, algo que poderia ser traduzido como "resilvestramento", ou seja, o ato de restaurar regiões naturais a seu estado original, inclusive com a reintrodução de grandes mamíferos a certos habitats hoje ocupados por seres humanos.

Trata-se de uma estratégia polêmica: alguns ecologistas temem o impacto a longo prazo de se reintroduzir animais extintos nos nossos ecossistemas modernos; outros setores, como agricultores, veem com maus olhos a ideia de ter predadores naturais cercando seus rebanhos.

Mas na Dinamarca, um grupo de "resilvestradores" radicais quer vencer os preconceitos e defendem que as planícies da Europa e da América do Norte deveriam abrigar não só espécies nativas, como lobos e linces, mas também animais como leões, elefantes e guepardos.

Um dos primeiros projetos do grupo é introduzir uma população de elefantes asiáticos no norte da Dinamarca.

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Image caption Há milhares de anos, leões habitavam outros continentes além da África

Ole Sommer Bach, curador do zoológico Randers Rainforest, e seus colegas já têm experiência no assunto. Eles supervisionaram o bem-sucedido projeto que reintroduziu o bisão europeu no país escandinavo. Para eles, os elefantes são uma etapa natural dessa filosofia.

"O bisão europeu estava extinto na Dinamarca há cerca de 8 mil anos, e quando começamos a falar em reintroduzi-lo, há 15 anos, as pessoas riam", conta Bach. "Hoje é uma realidade."

Para que o projeto com os elefantes dê certo, é crucial fazer um preparo e um monitoramento. "Não pretendemos simplesmente soltá-los e esperar que eles acabem na Espanha ou sei lá onde", explica o cientista. "Vamos estabelecer uma área demarcada e cercada para ver o que acontece.

O objetivo é analisar aspectos como a interação dos elefantes com as árvores nativas ou o impacto de seu esterco nas comunidades de insetos.

Há também benefícios econômicos em preservar ecossistemas dessa maneira. "Se você inventar uma máquina que faz tudo o que um elefante faz, você vai ficar milionário", diz Bach. "Eles são capazes de tantas coisas, de derrubar árvores a espalhar sementes. E eles já existem! Só precisamos usá-los."

Volta no tempo

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Image caption Camelos poderiam ser introduzidos na América do Norte, onde já viveram seus ancestrais

O que Bach e seus colegas pretendem fazer é voltar no tempo alguns milhares de anos. Cerca de 13 mil anos, exatamente para o fim do Plistoceno, um dos períodos da era Cenozóica.

A quantidade de anos espanta meros mortais como nós, mas em termos geológicos trata-se de um instante da vida da Terra.

Hoje, a "megafauna" que resta no planeta está basicamente limitada à África e à Ásia. Mas durante o pleistoceno, todos os continentes eram habitados por mamíferos de grande porte, dos vombates gigantes da Austrália às várias espécies de elefantes que vagavam pela Europa e pela América do Norte.

Os animais podem ter desaparecido, mas os ecossistemas que evoluíram com eles permanecem, e suas funções estão drasticamente reduzidas com a falta dessas espécies cruciais.

Os "resilvestradores" radicais sugerem que alguns animais ainda encontrados na África e na Ásia - muitos à beira da extinção - são semelhantes a seus ancestrais e poderiam sobreviver em outros continentes.

De volta à Era do Gelo

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Image caption Gado Heck foi reintroduzido com sucesso em parque natural da Holanda

A ideia não é nova. O primeiro a propô-la foi o geólogo americano Paul Martin, que defende que a humanidade foi o principal detonador das extinções da megafauna em todo o planeta.

Na última década, a teoria ganhou defensores como Josh Donlan e Harry Greene, da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, que publicaram um artigo na revista científica Nature, no qual defendiam a reintrodução no continente de camelos, leões e elefantes, com dois objetivos: restaurar os ecossistemas norte-americanos, restabelecendo processos ecológicos que já não ocorrem mais; e trazer uma nova abordagem à preservação dos animais do século 21, não restringindo-os a seus habitats nativos.

As críticas e ataques vieram de vários setores da comunidade científica, e até hoje não se vê muitas iniciativas de "resilvestramento" nos Estados Unidos.

Do outro lado do Atlântico, no entanto, governos e a população em geral têm se mostrados mais receptivos à ideia. Em toda a Europa foram feitos projetos bem-sucedidos, alguns até com o rótulo de "Plistoceno".

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Image caption Projeto quer levar rinocerontes-brancos da África para a Austrália em nome da preservação

Na Holanda, por exemplo, a Oostvaadersplassen é uma área de pântano que hoje abriga bovinos de heck, cavalos konik e veados-vermelhos, imitando a comunidade de herbívoros que viveu no local há milhares de anos.

"Queremos criar um espaço para os processos naturais", explica Perry Cornelissen, biólogo do parque. Em vez de optar por sistemas artificiais de manejo para criar um habitat perfeito para as aves do pântano, seus criadores optaram pela abordagem silvestre. "Nosso monitoramento mostra que os herbívoros realmente criam grandes áreas de campinas para gansos e outras aves."

Na Rússia, o Parque Plistoceno é uma "tentativa de restaurar as estepes da Idade do Gelo". Mas, assim como o parque holandês, este ainda não quer introduzir espécies exóticas como leões ou elefantes.

Responsabilidade mundial

Mas, realisticamente, é fácil usar o conceito do "resilvestramento" como uma estratégia para salvar espécies exóticas ameaçadas de extinção? A resposta parece estar na Austrália.

O país lançou um projeto para lidar com a situação desastrosa dos rinocerontes na África. Se a caça por causa dos chifres do animal se mantiver no ritmo atual, esses mamíferos podem desaparecer da natureza antes de 2024.

Isso levou o cientista Ray Dearlove a chegar à mesma conclusão que os defensores do "resilvestramento" do Plistoceno: os rinocerontes precisam ser preservados fora da África.

O plano é trazer para a Austrália uma população de rinocerontes brancos e negros até o fim deste ano.

As condições climáticas e de terreno se parecem - com a vantagem de que a caça será proibida.

"Eu preferia ver os rinocerontes sobrevivendo e se reproduzindo na África, mas a realidade é que isso não está acontecendo. Eles vagaram pelo continente por milhões de anos e hoje a África do Sul concentra 95% dos rinocerontes do mundo", afirma Dearlove.

Para o dinamarquês Bach, o mundo inteiro tem a resposabilidade de preservar espécies ameaçadas, mesmo que elas se concentrem em apenas um ou dois continentes. "Dentro dos próximos 50 anos, os elefantes asiáticos podem desaparecer completamente. Temos que evitar isso", afirma.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site da BBC Earth.