Como um barbeiro ajudou a conseguir os dois únicos esqueletos completos de ave gigante extinta há 350 anos

A reconstituição da face de um dodô Direito de imagem Alamy
Image caption A reconstituição da face de um dodô

Muitas pessoas conhecem a triste história do dodô. O pássaro gorducho e incapaz de voar era tão saboroso e manso que foi caçado até a extinção no século 17 por marinheiros holandeses chegando às Ilhas Maurício, no Oceano Índico. Mas nem todo mundo sabe que essa história é cheia de incorreções.

A carne do dodô era gostosa? Nem tanto, pelo menos de acordo com escavações em fossas de entulho de antigos assentamentos da ilha, que estão cheias de ossos de outros animais, mas que não contam com um único vestígio do pássaro. Pelo visto, o pássaro não era apreciado pelos colonizadores holandeses.

Caçado até a extinção? Como, se as ilhas naquela época era coberta por uma floresta tropical praticamente impenetrável e os dodôs estariam protegidos dos avanços dos marinheiros?

Marinheiros e ratos

Em relação ao volume corporal, o dodô que vemos em gravuras e reconstruções é provavelmente baseado em ilustrações feitas de pássaros superalimentados ou de espécimes empalhados sem muito esmero. Na vida selvagem, o dodô era muito mais magro.

Mas por que há tantos mal entendidos sobre esse ícone da extinção de animais provocada pelo homem? A resposta está na maneira vergonhosa como o Dodô foi tratado desde que o último pássaro morreu, há cerca de 350 anos. É bem possível que tenhamos perdido o dodô pelo menos outras duas vezes.

"Esquecemo-nos do dodô várias vezes, em uma contínua série de tragédias", diz Leon Claessens, do College of the Holy Cross, em Worcester (EUA).

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Image caption Por muitos anos, acreditou-se que dodôs tinham sido exterminados a pauladas por marinheiros holandeses

Claessens e seus colegas, que incluem Julian Hume, do Museu de História Natural de Londres, estão tentando dar ao pássaro a atração que merece.

Sabemos que os dodôs não voavam, que eram "primos" dos pombos e que habitavam Maurício, mas é difícil traçar seu processo evolucionário. "Maurício tem solo ácido e um clima tropical úmido. São condições ruins para fósseis", explica Claessens.

O que podemos dizer com certeza é que eles surgiram nos últimos 8 milhões de anos - simplesmente porque foi há 8 milhões de anos que a Maurício, um arquipélago vulcânico, emergiu.

A extinção do dodô é mais fácil de analisar que suas origens. Marinheiros holandeses provavelmente encontraram a ave pela primeira vez em 1598, o que foi o começo do fim para as espécies. Mas não por causa dos marinheiros diretamente. Havia poucos assentamentos em Maurício - e pouca gente para caçar o pássaro.

É bem mais provável que o problema para as aves tenham sido os ratos e outros animais trazidos pelos navios e que se espalharam pela ilha, comendo os ovos do dodô e competindo por alimento. Os pássaros foram avistados pela última vez na década de 1660. O dodô se perdeu para sempre.

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Image caption Esqueleto composto de um dodô

Ou pelo menos os dodôs vivos, porque espécimes do estranho pássaro tinham sido enviados para a Europa para estudos científicos. Museus e universidades tinham esqueletos e exemplares empalhados sobreviveram. Infelizmente, os cientistas europeus do século 17 não perceberam o quão valiosos os espécimes eram.

O dodô despareceu na época errada. Sua extinção ocorreu muito antes da ciência aceitar que espécies poderiam desaparecer para sempre. Os cientistas argumentavam que um Deus todo-poderoso não condenaria suas criações a um destino como aquele, certo?

Para se ter uma ideia, foi apenas em 1796 que surgiu o trabalho seminal de alerta para a realidade da extinção, por meio do paleontólogo francês Georges Cuvier. Significa dizer que curadores de museus nos séculos 17 e 18 estavam confiantes de que havia mais dodôs para substituir espécimes danificados. Danos ou perdas eram comuns, especialmente em uma época em que a taxidermia ainda estava na infância e museus tinham controles toscos de acervo.

Os restos de espécimes de dodô foram se reduzindo a alguns poucos. "Na Universidade de Oxford, por exemplo, havia um dodô completo, mas no século 18 sobraram apenas a cabeça e um pé. O Museu Britânico tinha um pé, mas ele sumiu. O que resta hoje é uma caveira em Copenhague e parte de um bico em Praga", explica Claessens.

No século 19, não havia um único exemplar completo. O dodô estava perdido pela segunda vez. E teria caído na obscuridade para sempre se não fosse o trabalho de dois pesquisadores vitorianos, Hugh Edwin Strickland e Alexander Gordon Melville. Em 1848, eles publicaram um livro sobre o pássaro e, inadvertidamente, reaqueceram o interesse pelo dodô.

A ponto de o livro aparecer em nada menos que o clássico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

Foi também durante a Era Vitoriana (1837-1901) que Maurício se tornou uma colônia britânica, e as ilhas viraram o foco de intenso interesse paleontológico. Por anos, pesquisadores procuraram fósseis de dodô. Mas a descoberta aconteceu quase por acidente - em 1865, quando operários instalavam uma linha ferroviária.

"Os operários começaram a aparecer com ossos, que moíam para usar como fertilizante em seus pequenos pedaços de terra. Um engenheiro levou alguns ossos para o diretor de uma escola da ilha e ambos viram que se tratavam de restos de dodô quando consultaram o livro de Strickland e Melville.

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Image caption Pássaros eram menos desajeitados do que se imaginava

Os ossos foram encontrados em Mare aux Songes, um manguezal repleto de restos mortais, alguns com 4 mil anos de idade. Logo a Europa começou receber de novo o dodô. Mas os modelos eram todos montados com ossos de pássaros diferentes. Em 1901, o dodô foi considerado um mistério resolvido.

Mas Claessen e seus colegas veem as coisas de maneira diferente. Eles estudaram ossos encontrados no século 19 pelo paleontólogo amador Louis Etienne Thirioux, cujos achados foram ignorados por cientistas, e detectaram um grau entusiasmante de uniformidade - basicamente, Thiroux, que era um barbeiro, descobrira nada menos que dois esqueletos quase completos de dodôs. Os únicos que conhecemos até hoje.

Mas a busca pelo dodô esbarrou no problema de as autoridades de Maurício aterraram Mare aux Songes na primeira metade do século 20 para combater infestações de mosquitos. A própria localização do manguezal caiu no esquecimento e só foi redescoberta por volta de 2005. Escavações encontraram ossos, mas nenhum esqueleto.

Para tornar o mistério ainda mais torturante, ninguém sabe onde Thiroux encontrou seus esqueletos. Claessens leu todos os documentos deixados pelo barbeiro em busca de pistas.

O dodô, pelo menos por enquanto, parece perdido pela terceira vez.

Leia a versão original dessa reportagem (em inglês) no site BBC Earth.

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