A surpreendente forma como o homem de Neanderthal pegou herpes

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Image caption Neandertais eram bem mais evoluídos do que se imagina

Os neandertais eram bastante parecidos conosco. Seu cérebro tinha o mesmo tamanho e eles carregavam muito do nosso DNA. Eram bons caçadores, extremamente bem adaptados ao frio e também eram artesãos de mão cheia - sabiam, por exemplo, fazer as mesmas ferramentas de madeira que o Homo sapiens.

Éramos tão parecidos que, quando os humanos modernos encontraram grupos de neandertais na Europa e na Ásia, as duas espécies se miscigenaram. Vemos evidências em todos europeus e asiáticos modernos.

Análises de DNA dos neandertais, comparadas com as do homem moderno, revelaram também que genes causadores de diversas doenças hoje comuns foram resultados da reprodução interespécie.

Úlceras

Um novo estudo, porém, propõe que a transmissão de doenças foi em mão-dupla. Quando o Homo sapiens encontrou o neandertal, ele também os infectou. Entre os patogênicos pode estar o vírus herpes simplex 2, que causa a herpes genital, e a Helicobacter pylori, uma bactéria que causa úlceras.

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Image caption O herpes genital teria sido uma das doenças transmitidas pelo Homo Sapiens

Charlotte Houldcroft, da Universidade de Cambridge, e seu colega Simon Underdown, da Oxford Brookes University, ambas no Reino Unido, chegaram a essa conclusão após considerar o fato de que alguns dos mais comuns genes de neandertais presentes no homem contemporâneo têm algum papel na luta contra doenças.

Isso sugere que lidar com patogênicos era algo importante na vida durante a Idade da Pedra, quando as duas espécies se encontraram. Os pesquisadores também estudaram as árvores genealógicas de diversos patogênicos para estabelecer quando elas infectaram humanos modernos pela primeira vez.

Muitas teriam originado em animais e foram transmitidas para humanos nos últimos oito mil anos, após o advento da agricultura. Mas agora está claro que um número de doenças já afetava os humanos milhares de anos antes disso. Isso significa que teriam sido carregadas pelos humanos modernos vindos da África, quando encontraram os neandertais. E a miscigenação fez com que doenças fossem passadas para as duas espécies.

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Image caption Cérebro dos neandertais era praticamente do mesmo tamanho que o do homem contemporâneo

As doenças não teriam matado os neandertais rapidamente, segundo Houldcroft. "Teria sido uma progressão gradual rumo a uma saúde mais fragilizada".

Hoje em dia não é comum uma pessoa morrer dessas doenças arcaicas - elas têm um impacto pequeno na nossa saúde. Mas, os neandertais já estavam enfrentando outros problemas quando essas doenças chegaram até eles.

Evidências genéticas sugerem que a população da espécie já era baixa por volta de 50 mil anos atrás. A adição de patogênicos teria colocado pressão extra na capacidade de caça e busca de alimento dos grupos de neandertais, normalmente formados por 15 a 30 indivíduos. Se algum dos grupos tivesse desaparecido, isso teria sido devastador para a população neandertal como um todo.

O influxo de doenças pode ser a peça que falta para resolver o mistério da extinção dos neandertais, que sumiram do mapa enquanto nossa espécie florescia. "Não creio que algum dia vamos encontrar uma só teoria para explicar o que matou os neandertais, mas há evidência crescente de que muita coisa aconteceu em um período de poucos milhares de anos, o que foi cumulativamente matando a espécie", explica Houldcroft.

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Image caption Baixa diversidade genética poderia explicar maior fragilidade diante de doenças

"É como se cada bando tivesse passado por desastres personalizados, e ao longo do tempo foram-se perdendo mais e mais grupos".

Mudanças climáticas também podem ter sido um fator, por conta de redução das florestas em que viviam os neandertais, resultando em menos comida.

O genoma do neandertal não mostra traços de doenças modernas, mas poderemos em breve inferir sua presença analisando sinais de genes variantes conhecidos pela resistência a patogênicos disseminados pelas populações neandertais.

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"Temos um registro da seleção natural ao analisarmos que genes estão presentes e quais estão ausentes", explica Underdown. "Conseguimos reconstituir os desafios enfrentados por nossos ancestrais 40 mil anos atrás, usando os registros genéticos para reconstituir sua vida cotidiana.

Um novo estudo especula que os neandertais tiveram mais problemas diante de doenças que não pareceram afetar tanto o Homo sapiens. Essa análise mais recente mostra que neandertais tinham baixa diversidade genética em muitos genes responsáveis pela resistência imunológica.

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Image caption Neandertais sabiam fazer ferramentas de pedra

Humanos modernos, por outro lado, apresentam muito mais diversidade. E embora as duas espécies tenham trocado doenças, o Homo sapiens estava mais bem preparado para lidar com novas infecções.

George Perry, da Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA), é coautor do estudo e explica como sua análise ressalta o papel da transmissão de doenças em nossa evolução.

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"Quando populações viveram separadas por algum tempo, suas doenças também evoluíram de forma separada" , diz Perry. "Sendo assim, quando duas populações se juntam e trocam essas doenças, pode haver efeitos em uma ou ambas populações.

Infelizmente para os neandertais, o Homo Sapiens, tinha uma melhor caixa de ferramentas genética para lidar com as doenças.

Leia a versão original dessa reportagem (em inglês) no site BBC Earth

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