Dedos de Lúcifer, a rara (e cara) iguaria portuguesa que homens arriscam a vida para colher

Costa Vicentina, Portugal
Image caption Percebes são um tipo de crustáceo que cresce em rochedos de difícil acesso | Foto: Tim E. White/BBC

Para entender por que um restaurante me cobrava 100 euros (cerca de R$ 400) por um prato de percebes - crustáceos conhecidos em Portugal como "dedos de Lúcifer" -, decidi passar um dia com os homens corajosos que arriscam suas vidas para colhê-los na chamada Costa Vicentina, no extremo sudoeste de Portugal.

Essas iguarias, muito populares em Portugal e na Espanha, são chamadas de "dedos de Lúcifer" por causa de sua aparência bizarra: seus troncos grossos lembram dedos e seus "pés" têm forma de diamante, assemelhando-se a garras.

Os percebes só crescem e se multiplicam em rochedos na chamada zona intermareal do oceano (área entre as marés altas e baixas), onde são alimentados pelo plâncton trazido pelas ondas que quebram. Diferentemente de outros crustáceos, não podem ser cultivados e o mar agitado torna sua colheita perigosa.

Image caption Caçador de percebes, Fernando Damas largou carreira promissora como designer industrial 19 anos atrás para colher iguaria em tempo integral Foto: Tim E. White/BBC

Dia de trabalho

Por causa do valor monetário e gastronômico dessas trufas do mar - como às vezes os percebes são chamados -, mergulhadores vão à sua caça assim que as temperaturas ficam mais amenas.

"Mesmo um dia ruim no mar é melhor do que um dia bom no escritório", diz Fernando Damas, um caçador de percebes que largou uma carreira promissora como designer industrial 19 anos atrás para colher a iguaria em tempo integral. "O oceano é cheio de maravilhosas surpresas".

Image caption "Há muitos casos de mergulhadores que batem à cabeça e morrem afogados", diz mergulhador João Rosário | Foto: Tim E. White/BBC

Negócio perigoso

Na Costa Vicentina, um antigo provérbio diz: "Nunca dê as costas para Deus quando mergulhar em busca dos dedos de Lúcifer". O mergulhador João Rosário explica que, nesse caso, Deus se refere ao poder do mar. "Quando você mergulha para colher percebes e ignora a imprevisibilidade do oceano, você provavelmente será ferido ou morto", diz. "Há muitos casos de mergulhadores que batem a cabeça e morrem afogados. Os "sortudos" quebram um braço ou uma perna. Isso sem falar nos cortes provocados pelas pedras".

Image caption Percebes podem ser alcançados subindo pelas falésias ou mergulhando de um barco | Foto: Tim E. White/BBC

Diferentes escolas de pensamento

Os percebes podem ser alcançados subindo pelas falésias ou mergulhando de um barco. Não existe consenso sobre qual é a técnica menos perigosa. Quem desce 100 metros pelas falésias por meio de uma corda para colher os crustáceos durante a maré baixa correm o risco de cair ou acabar esmagado contra as rochas pela arrebentação. A alternativa é permanecer a uma distância segura dos penhascos quando a maré está ligeiramente mais alta, e depois nadar em direção ao rochedo, tentando sincronizar cada movimento com o das ondas.

Image caption Mergulhadores atuam em pares por razões de segurança | Foto: Tim E. White/BBC

Trabalho em equipe

Os mergulhadores atuam em pares por razões de segurança, e você acaba confiando sua vida nas mãos de seu parceiro, assinala Damas, que vem mergulhando com Tiago Craca nos últimos seis anos. Eles formam a dupla perfeita, compartilhando decisões sobre onde e quando é seguro mergulhar.

"Ele tem a metade da minha idade e já salvou a minha vida, diz Damas. Naquele dia, estava preocupado com outras coisas. Você não pode perder o foco no que está fazendo - é muito perigoso. Eu não vi que meu pé inchou e acabei ficando preso em uma fenda. Felizmente, Tiago percebeu que estava embaixo d'água por muito tempo e veio me buscar".

Image caption Apenas 80 licenças de mergulho para caça de percebes são emitidas a cada ano | Foto: Tim E. White/BBC

Um setor regulado

Em Portugal, a caça dos percebes é fortemente regulada e todas as atividades de mergulho são controladas pela cidade de Villa do Bispo, onde se localiza a sede da Associação Dos Marisqueiros Da Vila Do Bispo. Apenas 80 licenças de mergulho são emitidas a cada ano. A maioria dos mergulhadores vive ali ou nas proximidades da cidade litorânea de Sagres. O mercado de peixes de Sagres é o único lugar onde os mergulhadores são legalmente autorizados a vender os percebes a donos de restaurantes e fornecedores. Um mergulhador só pode colher até 15 kg diariamente, e os preços variam entre €30 e €60 o quilo, dependendo da qualidade e do tamanho do crustáceo, explica Paula Barata, presidente da associação.

Image caption Apesar das regras rígidas, caça de percebes permanece abundante | Foto: Tim E. White/BBC

"Nosso caixa eletrônico no mar"

Apesar das regras rígidas, a caça dos percebes permanece abundante. Trata-se de um negócio lucrativo e a guarda-costeira não consegue fiscalizar todos os locais. Também é um negócio secreto, e nem mesmo os mergulhadores licenciados compartilham onde mergulham ou planejam mergulhar devido à raridade da iguaria.

Um dos mergulhadores no mercado de peixe da cidade de Portimão, a 55 km a leste de Sagres, emite sua opinião: "Não me importo com as regras. A Costa Vicentina pertence ao povo - não ao governo. Os percebes são o nosso caixa eletrônico no mar. Temos o direito de sacar o nosso dinheiro."

Image caption Há apenas uma maneira de comer os dedos do diabo - com seus próprios dedos | Foto: Tim E. White/BBC

Sem talheres

É justo perguntar por que todo esse rebuliço em torno dessa iguaria. Mas ao prová-la, encontra-se rapidamente a resposta. Imagine-se descansando em um dia de sol na praia. O vento toca o seu rosto e você consegue sentir o cheio do mar. Esse é o verdadeiro gosto dos percebes.

E há apenas uma maneira de comer os dedos do diabo - com seus próprios dedos, diz Sérgio Meudes, gerente do restaurante Marisqueira Azul, em Lisboa, onde os percebes são incluídos no menu sempre que possível. É necessário segurar firmemente a garra colorida do percebe e retirar sua casca para, então, revelar a carne.

Image caption Segundo a tradição portuguesa, só existe uma maneira de cozinhar os percebes adequadamente: na água fervente com sal | Foto: Tim E. White/BBC

Somente uma maneira de preparar

Segundo a tradição portuguesa, só existe uma maneira de cozinhar os percebes adequadamente: na água fervente com sal. Mas não se pode passar do ponto, pois isso é necessário rezar o Pai Nosso. "Mesmo se você rezar lentamente, nunca vai demorar mais de um minuto", diz Adriano Lemes, chef do Marisqueira Azul. "Retire-o da água fervente e coloque-o no gelo para terminar o processo de cozimento. Não adicione nenhuma especiaria e, principalmente, nenhum molho", destaca.

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