O país que ganhou um novo (porém antigo) nome

Mbabane, capital de eSwatini Direito de imagem Thomas Cockrem/Alamy
Image caption Em abril de 2018, o rei anunciou que o país passaria a se chamar eSwatini, que significa 'Terra dos Suazi'

No aniversário de 50 anos de independência da Suazilândia do domínio britânico, em abril do ano passado, o rei Mswati III surpreendeu os súditos ao mudar o nome do país africano.

O monarca anunciou que a nação abandonaria o nome colonial e voltaria a se chamar eSwatini, nome de origem indígena que significa "Terra dos Suazi".

O comunicado foi acompanhado de uma confusão inicial.

"O rei disse em suazi (língua nativa) o que poderia ser traduzido literalmente como 'o reino de eSwatini agora será conhecido como reino de eSwatini'", relembra a americana Jessica Elliott, autora do blog How Dare She, que participou das celebrações do Jubileu de Ouro.

"Só quando a tradução em inglês foi transmitida pelos alto-falantes que as pessoas entenderam e reagiram. Foi um aplauso surpreso, mas entusiasmado."

Jiggs Thorne, que nasceu em eSwatini e criou o Bushfire, festival de música que acontece todos os anos no país, também ficou surpreso, mas satisfeito pelo fato de terem resgatado o nome original da nação.

"É claro que um país mudar de nome não é um acontecimento comum", diz ele.

"A mudança não impactou nosso festival, talvez seja mais aparente quando participamos de feiras de música e nos apresentamos como 'festival de eSwatini', e a maioria dos representantes de outros países não tem ideia de quem somos e de onde somos."

Embora promover o novo nome seja desafiador, à medida que o resto do mundo precisa aprendê-lo, a população local está extremamente contente com a mudança. Conversamos com alguns moradores para entender o sentimento de orgulho no país com o nome mais novo do mundo.

Por que as pessoas amam eSwatini?

O país sem saída para o mar, localizado no sudeste da África, pode ser pequeno em tamanho, mas apresenta uma paisagem bem variada - contempla tanto uma região montanhosa com clima ameno, quanto uma área de planície quente e seca. A crescente legislação ambiental protege suas belezas naturais, que continuam sendo a principal atração para novos moradores e visitantes.

"É impossível não admirar a beleza natural do país com suas lindas montanhas e paisagens, seu verde e sua vida selvagem", diz Lindokuhle Mthupha, que mora em Mbabane, capital do país.

Direito de imagem Maurice Brand/Alamy
Image caption O país tem promulgado leis ambientais para proteger suas belezas naturais

"Nossas reservas para caça são sempre a primeira parada para a maioria dos turistas."

"Eu vim para a Suazilândia por duas semanas para um trabalho temporário e nunca mais fui embora", conta a sul-africana Ruth Buck, proprietária do Hotel Foresters Arms, 30 quilômetros a sudoeste de Mbabane.

"Adoro dirigir pelas estradas no campo e admirar o cenário em constante mutação, além dos animados mercados suazi. É um país tão bonito e com uma atmosfera tão calorosa que foi fácil ficar."

Buck também se sentiu acolhida pela população local, que considera amigável, bem-humorada e generosa.

Robert Jupp, diretor administrativo do hotel Mantenga Lodge, nasceu em eSwatini e voltou ao país depois de estudar na África do Sul.

"Eu amo a paz, a beleza natural, a liberdade, a simpatia das pessoas, o clima", enumera Jupp, acrescentando que o tamanho do país facilita o deslocamento, embora os moradores locais estejam sempre dispostos a ajudar os recém-chegados que por ventura possam se perder.

Como é morar em eSwatini?

Os dois principais centros urbanos do país, Mbabane (a capital) e Manzini (a maior cidade), ainda são pequenos para os padrões de outros países - possuem apenas 76 mil e 110 mil habitantes, respectivamente, que adotam um ritmo de vida tranquilo, raramente apressado.

"Levamos o tempo que for preciso com tudo... tudo mesmo", diz Mthupha.

"Somos muito calmos e relaxados."

A maioria da população fala inglês e suazi, mas os moradores apreciam o uso de saudações e despedidas no idioma nativo - e esses cumprimentos amistosos continuam sendo uma parte importante da cultura local.

Direito de imagem Keren Su/China Span / Alamy
Image caption Celebrar a herança cultural nacional também é uma parte importante da vida em eSwatini

"Nós ainda acreditamos em cumprimentar desconhecidos", afirma Mthupha.

"Somos um país muito pacífico, gentil, humilde e otimista. Qualquer um que vier aqui pode atestar sempre o fato de que somos muito humildes e amorosos", completa.

Celebrar a herança cultural nacional também é uma parte importante da vida em eSwatini.

"Temos várias cerimônias culturais que sempre atraíram multidões, e é aí que realmente celebramos o que é ser LiSwati [o nome do povo suazi]!", explica Mthupha.

O festival Umhlanga, que acontece todo mês de setembro, começa com mulheres jovens cortando cana para presentear a rainha. Em seguida, elas vestem trajes típicos para um grande espetáculo de canto e dança.

Já o festival Incwala, que ocorre entre dezembro e janeiro, marca a celebração do reinado - envolve um ritual de purificação de um dia inteiro, um grande desfile protagonizado pelo rei e militares vestidos com todas suas insígnias e uma enorme fogueira em que certos objetos são queimados para representar a passagem do ano velho.

O que mais você deve saber?

Uma das últimas monarquias absolutistas no mundo, eSwatini enfrenta uma acentuada disparidade de riqueza entre autoridades do governo (incluindo o rei Mswati III) e o povo. O próprio Jubileu de Ouro custou muito caro e expôs o dilema de celebrar a cultura local e a frustração com o governo.

"Há um imenso orgulho da cultura suazi e as pessoas pareciam ansiosas em compartilhá-lo [no Jubileu de Ouro]", conta Elliott.

"Mas elas também estavam ávidas para compartilhar sua fúria com um governo que prioriza gastos e enriquecimento pessoal em detrimento da prosperidade do país."

O país proíbe a criação de partidos políticos de oposição, e os cidadãos podem ser punidos por criticar o governo ou o rei.

A nação também luta contra a grande taxa de pessoas infectadas por HIV, vírus causador da Aids - mas fez grandes avanços na década passada para aumentar o acesso ao tratamento antirretroviral.

Direito de imagem Emanuele Stano / Alamy
Image caption Festivais anuais, como o Umhlanga, celebram a cultura local

Ainda assim, o acesso à assistência médica adequada pode ser considerado restrito, o que faz com que muita gente opte por se aventurar na vizinha África do Sul para cuidar da saúde.

Apesar das dificuldades econômicas do país, o orgulho do povo se reflete em eventos internacionais como o Bushfire, festival que reúne 26 mil pessoas de todo o mundo, no vale de Ezulwini, localizado entre Mbabane e Manzini.

Realizado anualmente em maio, o evento oferece atrações musicais, workshops criativos e palestras. Parte do lucro é destinado a instituições de caridade locais, como a Young Heroes, que trabalha diretamente com órfãos da Aids.

Antes e depois do novo nome, o país sempre foi aquele em que o cuidado com o próximo emerge naturalmente.

"Ainda temos o que chamamos de ubuntu", afirma Mthupha.

A palavra se traduz em um sentimento de humanidade comum em relação aos outros e na noção de viver como parte de uma comunidade mais ampla.

"Isso se aplica a todos. Você não perde a energia e a atitude positiva", acrescenta.

Um conselho para quem vai visitar eSwatini? "Prepare-se para se apaixonar completamente por pessoas novas, por uma cultura diferente e por um novo país. Mas o mais importante, prepare-se para se sentir extremamente e generosamente acolhido por estranhos."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.

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