A cidade suíça que é obcecada pelo número 11

Relógio de 11 horas Direito de imagem Mike MacEacheran
Image caption O relógio de 11 horas de Solothurn é composto por 11 engrenagens e 11 sinos

Em uma manhã recente, precisamente às 11h, Therese Stählin me esperava em silêncio na entrada da cidade barroca de Solothurn, na Suíça, observando o relógio.

"Às 12h, nós precisamos estar no relógio de 11 horas", disse ela, toda afobada quando eu cheguei.

Onze horas era o horário mais auspicioso para se encontrar na cidade, ela me dissera por e-mail alguns dias antes, mas era igualmente importante que não chegássemos atrasados para o meio-dia. Tivemos de nos apressar.

Cruzamos uma ponte de pedestres sobre o Rio Aare, viramos à esquerda na Klosterplatz e passamos por um grande armazém do século 18 - apertando o passo - para chegar a um lugar que revelaria muito sobre a história e a obsessão inusitada desta cidade pouco conhecida, localizada à sombra das montanhas da cordilheira do Jura, na Suíça.

À vista de todos, na fachada de um banco de investimentos, estava o relógio pendurado na parede. Ele é a chave para uma curiosidade desconhecida até mesmo pela maioria dos suíços.

O relógio - que tem um mostrador de 11 horas, sem o número 12 - pode parecer uma anomalia desconcertante para qualquer visitante desavisado. Mas não se engane; não é por acaso. Quando as 11 engrenagens giram para tocar seus 11 sinos, o Solothurner Lied, hino não oficial da cidade, é executado.

O mecanismo não informa apenas as horas (ainda que de forma enigmática). Também ajuda a revelar o fascínio da cidade com o número 11.

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Image caption Referências ao número 11 podem ser encontradas por toda a cidade

História de uma obsessão

Solothurn, fundada pelos romanos há 2 mil anos, mas esquecida por muitos turistas hoje em dia devido à proximidade com a capital, Berna, é uma cidade preocupada com o número 11. Não se trata de uma estratégia de marketing, tampouco coincidência. Mas a cidade abriga 11 igrejas, 11 capelas, 11 fontes, 11 torres e 11 museus - um conjunto arquitetônico surpreendente.

As construções datam do século 15 até os dias de hoje. Algumas são antigas e desgastadas pelo tempo, enquanto outras são supermodernas - como é o caso do Enter, único museu da Suíça dedicado a computadores e tecnologia.

Em geral, os visitantes se detêm a contemplar o edifício mais antigo da cidade - o relógio astronômico, todo decorado com estrelas douradas e a figura de um rei, um cavaleiro e um esqueleto que se movimentam. Mas eu queria me aprofundar mais.

Stählin não se diz uma especialista em numerologia, apenas uma entusiasta. Sua autoridade sobre o assunto vem de ter crescido na cidade e do prazer em compartilhar seu conhecimento como historiadora.

"Essa história nunca vai morrer", ela me diz, enquanto observamos o relógio de 11 horas dar suas últimas badaladas.

"Mas agora, precisamos ir - você ainda tem de ver a nossa obra-prima numérica."

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Image caption Solothurn abriga 11 igrejas, 11 capelas, 11 fontes, 11 torres e 11 museus

Descemos à Judengasse, ou rua dos judeus, passando por um prédio impressionante que já abrigou a Blacksmith's Guild - uma das 11 sociedades medievais da cidade - e não demorou muito para chegarmos ao lugar sobre o qual Stählin estava falando: a magnífica Catedral de St. Ursus, resplandecente ao sol do meio-dia.

Neste patrimônio histórico, o número 11 está presente de maneira quase inimaginável. A catedral foi construída, como era de se esperar, em 11 anos, e concebida pelo arquiteto italiano Gaetano Matteo Pisoni, que projetou o edifício com uma infinidade de símbolos e sinais.

A catedral evoca alguns elementos enigmáticos do processo da sua criação, mas também sequências numéricas que, em última análise, se somam a algo muito mais poderoso.

Em frente à sua fachada românica, o que impressiona o visitante é o brilho calculado por trás da moldura da catedral. Há três lances de escada com 11 degraus cada. E duas fontes clássicas que acompanham a escadaria - uma com a estátua de Gideão (personagem bíblico) e outra de Moisés com chifres de diabo - cada uma decorada com 11 pequenas torneiras, por onde a água escorre para uma bacia, refrescando o calor do verão.

Há ainda 11 portas, com um pé direito dividido em três partes - de 11 metros cada - que culmina em um campanário de 66 metros de altura.

"Pisoni ficou desnorteado com a ideia", afirma Stählin, como se ainda estivesse perplexo com o conceito depois de todos esses anos.

"Ele foi obrigado pelo governo da época a incluir o número 11. E ele fez isso. Em toda parte. Até mesmo um dos altares é feito de 11 tipos de mármore", acrescenta.

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Image caption A Catedral de St. Ursus tem 11 altares, 11 portas e três lances de 11 degraus

Em qualquer outro lugar, a catedral da cidade costuma ser barulhenta devido ao burburinho dos visitantes. Aqui, não. É como se Solothurn tivesse sido apagada da história e caído no esquecimento. Éramos apenas eu, minha guia e os ecos dos nossos passos cruzando a nave da igreja.

Religião e geopolítica

Caminhamos até a 11ª pedra, que se encontra na parte central da construção, único lugar de onde você pode ver os 11 altares da catedral. Eu reparei também que os bancos estavam dispostos em fileiras de 11.

Todo mundo em Solothurn conhece essa história, é claro, mas ninguém consegue lembrar exatamente como ou por que sua cidade natal se tornou tão obcecada pelo número 11.

Reza uma lenda popular que elfos mágicos saíam da montanha de Weissenstein, localizada nas redondezas, para encorajar os habitantes da cidade que trabalhavam duro, mas nunca prosperavam. A adoção do número 11, ou "elf" em alemão, teria sido a forma do povo homenagear seus salvadores. Pelo menos é o que diz a lenda.

Uma explicação mais razoável é a conotação bíblica do número - muitos moradores de Solothurn veem o 11 como um número "sagrado" e profético. Na numerologia, 11 é considerado o mais intuitivo de todos os números, comumente associado à fé e à vidência.

Mas outras crenças mantidas pelos fiéis da Catedral de St. Ursus são igualmente interessantes.

"Havia 12 apóstolos, mas 11 representam o sonho de tentar alcançar algo melhor", diz Stählin, fechando a porta da catedral, enquanto voltamos a caminhar sob a luz do dia.

"Para nós, simboliza a busca incessante pela perfeição - é um código de esperança."

Se a religião é um dos filamentos numerológicos do DNA de Solothurn, a geopolítica é outro. Ao longo da história, a singularidade deste número pode ser rastreada até o fim da Idade Média, sem ter que procurar muito para encontrar um padrão.

Em 1481, Solothurn se tornou o 11º Cantão da Confederação Suíça e, no século 16, foi dividido em 11 protetorados. Além disso, o número aparece pela primeira vez, em 1252, quando as guildas medievais votaram para eleger 11 membros do conselho da cidade.

É impossível entender completamente a mentalidade da Solothurn medieval, mas a presença do número 11 é algo natural para a cidade agora. É especialmente fascinante saber que as crianças ganham uma comemoração especial no 11º aniversário.

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Image caption Muitos empreendimentos em Solothurn adotaram o número 11, incluindo a cervejaria familiar Öufi-Bier

Da mesma forma, a Confiserie Hofer, uma padaria centenária, criou astutamente 11 tipos de barras de chocolate, e a principal cervejaria da cidade também pegou carona no conceito.

"Meu pai é de Berna e ele nunca tinha ouvido falar da 'história do número 11'", diz Moritz Künzle, enquanto me mostra a cervejaria da família - Öufi-Bier (Cerveja Onze, em tradução livre) -, que fica a uma curta caminhada do centro de Solothurn.

"Mas gostamos da ideia de um número como marca. É inusitado e fácil de lembrar. Fomos os primeiros a fazer isso, mas agora há um tal de '11' para lá, '11' para cá. Está aumentando a cada ano."

O projeto de um uísque de 11 anos envelhecido em barris de cerveja também está em andamento.

Por mais de 500 anos, Solothurn desenvolveu uma relação excepcional com o número 11. É tempo demais para ser uma mera coincidência. E a tendência não parece que vá mudar tão cedo.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.

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