A história dos fascinantes tratamentos de saúde com vinho na França

Adega Histórica dos Hospícios de Estrasburgo Direito de imagem Alamy
Image caption Desde 1395, o Hospital Civil de Estrasburgo tem uma relação simbiótica com a Adega Histórica dos Hospícios de Estrasburgo

O médico grego Hipócrates, conhecido como o pai da medicina, fez experimentos com vários tipos de vinho para tratar doenças, acreditando que "o vinho é apropriado para a humanidade, tanto para o corpo saudável quanto para o corpo doente".

Nos tempos modernos, nós aprendemos que devemos beber com moderação, mas, na França, um país cuja viticultura remonta ao século 5 a.C, "à votre santé" - ou "à sua saúde" - é um brinde que ressoa bem até no século 21.

Para aprender mais sobre a deliciosa relação francesa entre vinho e medicina, eu visitei uma adega nas entranhas de um hospital medieval em Estrasburgo, cidade localizada na região da Alsácia, no leste da França.

Estrasburgo, uma cidade moderna com 2 mil anos de história, é mais conhecida pelo seu centro (chamado Grande-Île), listado como Patrimônio Mundial da Unesco em 1988.

Turistas visitam o local em bandos para conhecer seus mundialmente famosos pontos turísticos, incluindo o Palácio Rohan e suas feirinhas de natal, além de jantar nos seus restaurantes de vinho como Chez Yvonne ou Maison Kammerzell, que fica em um prédio de 1427.

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Image caption Hipócrates dizia que 'o vinho é apropriado para a humanidade, tanto para o corpo saudável quanto para o corpo doente'

Mas eu estava indo ao Hospital Civil de Estrasburgo, um hospital universitário criado em 1119. Naquela tarde chuvosa, as ruas estavam vazias e, conforme eu andava pelas vias de pedras com dois companheiros, era fácil imaginar a aparência da cidade há centenas de anos atrás.

Adega medicinal

Desde 1395, o Hospital Civil de Estrasburgo tem uma relação simbiótica com a Adega Histórica dos Sanatórios de Estrasburgo, que fica exatamente embaixo do hospital: um literalmente não existiria sem o outro. Por cerca de 600 anos, muitos dos pacientes do hospital pagaram suas contas médicas com vinhos.

Era uma prática comum na França, já que as vinícolas geravam renda para os hospitais e as adegas, que funcionavam como geladeiras enormes, eram os locais perfeitos para manter os vinhos na temperatura certa.

Apesar de os tratamentos com vinho serem onipresentes nos tempos antigos, Thibaut Baldinger, gerente da adega que visitei, afirma ter visto indícios de que o uso do vinho como remédio não foi interrompido até 1990.

Uma garrafa de Châteauneuf-du-Pape, por exemplo, seria a prescrição médica para o inchaço, enquanto uma garrafa do preferido do verão por aqui, Côtes de Provence rosé, era usado para tratar a obesidade.

Colesterol alto? Duas taças de Bergerac. Para herpes, era recomendado que os pacientes tomassem um banho de banheira com o adorável Muscat de Frontignan. Problemas de libido? Seis taças de Saint-Amour transformariam o paciente em um Don Juan na hora - curiosamente, duas jarras desse vinho também eram recomendadas para "problemas femininos".

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Image caption Thibaut Baldinger, gerente da adega, afirma ter visto evidências de que o vinho foi usado como remédio até 1990

"E quanto ao fígado?", perguntei. Baldinger riu: "Talvez alguns tratamentos funcionassem melhor que outros".

Mais tarde, percebi que a lista de tratamentos de vinho incluía três garrafas inteiras de Beaune com água com gás para cirrose, o que me leva à conclusão de que ao menos uma pessoa da história moderna acreditou que ficar ébrio pode ser um antídoto para a falência do fígado.

Registro histórico

Apesar de os tratamentos de vinho terem sido encerrados, a adega continua tendo um papel importante na produção histórica de vinho ao continuar mantendo alguns dos melhores vinhos do país enquanto apoia financeiramente o hospital. Em 1995, porém, a adega quase foi relegada aos livros de história devido ao que Baldinger chamou de "falta de lucratividade".

No século 20, o hospital vendeu pedaços de vinícolas para financiar projetos que precisavam de ajuda imediata. Porém, a adega foi forçada a abandonar barris gigantes de vinho envelhecido depois que uma lei do país - a Loi Évin - foi aprovada em 1991.

A lei era mais rígida com o armazenamento de bebida como tentativa de prevenir o alcoolismo, o que significa que o governo não aceitaria mais barris de bebida no porão de um estabelecimento de saúde.

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Image caption Pacientes do hospital recebiam taças de vinho como tratamento para doenças até apenas algumas décadas atrás

O antecessor de Baldinger, Philippe Junger, tornou-se um verdadeiro defensor da adega ao trazer o apoio de vinicultores da região e criando a Sociedade de Interesse Agricultor Coletivo (Sica, na sigla em francês). O coletivo encontrou formas de convencer parlamentares a manter a adega aberta ao falar de sua importância para o patrimônio da região.

Ao salvar o local histórico, dezenas de vinícolas da Alsácia começaram a se esforçar mais para melhorar seus vinhos sob o zelo de Junger e dos enólogos da adega. Desde 1996, realiza-se uma competição de "teste cego" todo mês de janeiro - e o vinho que não é aprovado é retirado da adega.

"Todo produtor de vinho parceiro dá uma pequena porcentagem de sua produção à histórica loja da adega como aluguel", diz Baldinger. Os lucros da parte da produção da adega são investidos na compra de equipamento médico para o hospital.

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Image caption Hoje, a adega produz 140 mil garrafas de vinho por ano

Alguns vinhos da adega nunca são vendidos. Baldinger apontou para um pequeno armário embutido na parede de pedra da adega. Dentro, há uma caveira e uma garrafa de vinho - o líquido dentro descoloriu para um vermelho sangue - com uma data escrita: 1472. "Há especulações de que a caveira era do Senhor Arthur, o primeiro mestre da adega. Ele pode ter tomado vinho demais", diz Baldinger.

E quanto à história desse vinho - o primeiro produzido pela adega? "Eu te mostro", diz Baldinger, levando-nos para longe do armário e entre duas colunas de barris gigantes de carvalho. Lá, um velho portão de ferro separa a adega de um depósito, no qual há meia dúzia de barris de carvalho menores.

Relíquia alcoólica

Baldinger puxa uma grande chave do seu bolso e abre o portão que nos leva ao Vin Blanc d'Alsace (Vinho Branco da Alsácia), que acredita-se ser o mais antigo vinho branco mantido em um barril.

Baldinger explica que esse vinho só foi provado três vezes: a primeira foi em 1576, quando os habitantes de Zurique (que fica a 200km dali) enviaram uma quantidade enorme de mingau a Estrasburgo para mostrar que a cidade daria assistência em caso de necessidade.

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Image caption A adega abriga o que é conhecido como o vinho branco mantido em barril mais antigo do mundo, que data de 1472

Em menos de 24 horas, o mingau chegou, ainda quente. Baldinger diz que Estrasburgo reagiu ao ato de bondade dando um gole do famoso vinho da cidade aos enviados de Zurique.

A segunda prova aconteceu em 1718, durante a reconstrução do hospital após um incêndio devastador, quando a farmácia (que era uma padaria 200 anos atrás), a capela protestante e a adega foram as únicas construções não afetadas pelo desastre.

"Um frasco contendo o vinho de 1472 foi simbolicamente derramado na primeira pedra do novo prédio e, nessa ocasião, o vinho foi provado pela segunda vez", explica Baldinger.

A terceira e última vez que o vinho foi tomado foi em 1944. Durante a Segunda Guerra Mundial, a adega operou sob o comando dos nazistas (que, segundo Thibaut, encheram a maioria dos barris com seu vinho preferido, o Bordeaux).

Após o fim da guerra e pouco depois da libertação de Estrasburgo, o general Leclerc (que mais tarde se tornaria Marechal da França) tomou um gole de celebração do velho vinho.

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Image caption O vinho de 1472 só foi provado três vezes

A maioria dos visitantes da adega não pode nem passar pelo portão, mas, talvez por sentir nosso entusiasmo, Baldinger perguntou se queríamos cheirar a jóia da adega. Bien sûr, respondemos.

Baldinger gentilmente tirou a rolha do barril de carvalho e a colocou sob nossas narinas, permitindo que o cheiro penetrasse nossos olfatos.

Conhaque. Eu não sou uma sommelier experiente, mas, assim como o conhaque francês, o vinho tinha um cheiro que lembrava geleia de ameixas, com tons de baunilha - algo que me lembrava da velha caixa de charutos do meu avô. "Parece delicioso", eu disse, esperançosa. "Talvez um golinho?"

Bandinger balançou a cabeça. O pH do vinho, diz ele, é 2,28 - muito ácido para beber sem machucar o estômago (o pH da maioria dos vinhos brancos é mais alto que 3,0).

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Image caption O vinho é envelhecido na adega de seis a 10 meses antes de estar diponível para compra

Nem todo o vinho contido no barril foi produzido em 1472, no entanto. "Acrescentamos vinho toda vez que o carvalho está seco", diz Baldinger. "Quatro vezes ao ano, entre 4 e 6 litros são adicionados aos 400 litros originais. Selecionamos um Riesling ou um Sylvander que envelheceram na nossa adega".

E as uvas originais usadas no vinho? "Infelizmente, não sabemos", diz Baldiner. "Houve muita mutação ao longo dos anos, e muita mistura de uvas nas vinícolas."

Suspirei ao ver Baldinger fechar o barril - estava disposta a passar mal do estômago para poder dizer que provei esse vinho especial. Além disso, deve haver um tratamento de vinho para esse tipo de dor, não é mesmo?

Felizmente, há vários outros tipos de vinhos vintage para provar. Baldinger abriu uma garrafa de Gewürztraminer e nos deu uma boa quantidade para provar.

Sentamos ao redor de uma mesa com toalha quadriculada vermelha e branca e tomamos um gole: doce, como um buquê de lichias, era delicioso e energizante em uma noite úmida e chuvosa - e, de fato, até 1990, duas taças desse líquido eram usadas para tratar infecções.

Ao sair da adega, comprei uma garrafa desse "remédio" da Alsácia para minha família colocar no seu armário de remédios - ou mesa de jantar - em casa.

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