A história por trás do flamingo de plástico rosa, um estranho símbolo kitsch do otimismo americano

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Image caption Don Featherstone criou o ícone do kitsch americano em 1957 na cidade de Leominster

A placa indicando Leominster, cidade à beira da pitoresca Route 2 no Estado americano de Massachusetts, está gasta, mas as letras escritas são claras: "Leominster: Pioneira Cidade dos Plásticos".

Mas uma nova e colorida placa poderia ser erguida, bem brilhante e com pássaros rosas de pernas longas dizendo "Leominster: Origem do Flamingo Rosa de Plástico".

Foi aqui, em 1957, que surgiu este amado ícone do kitsch - termo utilizado para designar um estilo popular considerado de mau gosto artístico ou de baixa qualidade. Seu criador, Don Featherstone, formado na escola de arte do Museu de Arte de Worcester, ali perto, fez parte da equipe de designers da Union Products de Leominster, uma empresa de plásticos que fazia tanto produtos funcionais quanto itens fantásticos para casa e jardim. Featherstone foi incumbido de ter ideias novas para ornamentos de gramado de plástico.

Ele nunca tinha visto um flamingo de verdade, então baseou seu design em fotos que achou em uma revista da National Geographic.

Seus pássaros tinham longas e finas pernas de metal ancorando os animais no chão - pernas tão finas que mal pareciam capazes de suportar o corpo cor de rosa e cheio de penas do flamingo. Seus pescoços elegantes terminavam em uma cabeça gentilmente curvada e um nobre bico em formato de gancho.

Como os flamingos da vida real são animais altamente sociáveis, os pássaros de Featherstone foram criados e vendidos em pares: um abaixado, como se estivesse se alimentando, e o outro ereto, como se estivesse de guarda. Flamingos de verdade se alimentam na lama, não no gramado.

"Ele sempre deixou claro que não tinha a intenção de fazê-los parecer com os reais", diz Marc Abrahams, editor da revista dos Anais de Pesquisa Improvável, baseada em Cambridge, Massachusetts. E quanto às críticas e inesperada fama que os flamingos deram a Featherstone? "Ele era um pintor muito talentoso, mas ele disfarçava isso. Sua atitude foi aceitar isso", diz Abraham.

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Image caption Featherstone era funcionário da empresa Union Products em Leominster, Massachusetts

Plástico como símbolo

Em 1996, a revista anual do Prêmio Ig Nobel, criado para prestigiar as descobertas mais estranhas do mundo, incluiu Featherston por seus flamingos.

"Esses prêmios são diferentes no sentido de que são para coisas que fazem você rir e refletir mais sobre eles. Parte da atração dos flamingos de Don é que é difícil explicar por que eles são fascinantes ou especiais."

No brilhante mundo novo do otimismo americano pós-guerra, os pássaros rosa de Featherstone eram um símbolo do sonho americano e seus ideais da boa vida, como viajar para um lugar exótico - ou ao menos sonhar com isso. O plástico era o material barato e milagroso que ajudou a nova cultura de consumo dos Estados Unidos.

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Image caption Featherstone nunca tinha visto um flamingo de verdade, então ele embasou seu design em fotos que achou em uma revista da National Geographic

No entanto, nem todos aprovaram os flamingos de Featherstone. "Eles foram considerados vulgares em um primeiro momento", diz Nancy Featherstone, viúva de Don, "mas Donald sempre disse que o flamingo não é vulgar, é o que as pessoas fazem com ele que o deixam vulgar". "Chegou um ponto em que os lugares baniram flamingos rosa de plástico. Então Donald foi lá e fez flamingos azuis. Ele tinha um ótimo senso de humor."

Em meados dos anos 1960, o movimento ambientalista de retorno à natureza declarou que até a palavra "plástico" era um adjetivo para coisas falsas, e o sonho americano foi exposto como um ideal vazio baseado em consumismo. De alguma maneira, porém, os flamingos rosa de plástico sobreviveram e foram parar na lista de coisas kitsch-cool. Alguns creditam isso ao filme absurdo de John Waters Pink Flamingos, de 1972, que questiona ideias de gosto e fama.

"Eu sabia do filme de John Waters, mas não foi por isso que eu gostava deles", diz Beth Lennon, escritora dos guias de viagem Retro Roadmap e colecionadora de itens da cultura pop americana. Ela tem vários pares de Featherstones, como são conhecidos os flamingos autênticos, em sua casa na Pensilvânia.

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Image caption Os flamingos de Featherstone se tornaram um símbolo do sonho americano

"Eu sou uma fã pedante de Featherstone e consigo identificar um flamingo falso à distância. Os verdadeiros têm uma tonalidade específica de rosa", diz ela. "Eles são elegantes, seus pescoços têm aquela curva graciosa. Além disso, o detalhe das penas é algo que as cópias não têm".

Suas barrigas também têm a assinatura de Don, que foram adicionadas aos moldes originais para o aniversário de 30 anos dos pássaros.

Ícone exótico

Featherstone não criou um mero enfeite, ele criou um ícone da cultura exótica que aconteceu em paralelo com a onda Tiki, os sonhos havaianos.

Os flamingos tinham ares de elegância e continuam a tê-los: estilistas como Lily Pulitzer usaram os flamingos em vestidos de verão e peças de praia; no site de vendas artesanais Etsy, os flamingos rosa são impressos em tudo, de aventais até assentos de privada.

Nos anos 1950, eles eram um símbolo do exótico no dia a dia. "Eles eram fabricados em Massachusetts, não em Los Angeles ou na Flórida", diz Lennon. "Não era em um lugar exótico."

Leominster certamente não é um lugar exótico.

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Image caption Os Featherstones originais levam a assinatura de seu criador

Nos anos 1800, era conhecida como "Cidade do Pente" devido a sua importância na fabricação de pentes feitos com chifres de animais e marfim. Como esses materiais naturais se tornaram mais raros e caros, a indústria do pente virou a indústria do celulóide no final de 1800. Nessa época, foram abertas linhas ferroviárias na região e novas ondas de imigrantes chegaram para o trabalho.

No começo do século 20, muito antes do filme A Primeira Noite de um Homem mostrar o plástico como o produto do futuro, a empresa Viscoloid, de Leominster, produziu plásticos e, com a crescente mecanização do processo de produção, surgiram companhias como a Union Products, Tupperware (que foi inventada por Earl Tupper, que nasceu em Leominster) e Foster Grant (que foi fundada por Sam Foster, que foi funcionário da companhia Viscoloid).

Nos anos 1950, a empresa adotou uma tecnologia de moldagem por injeção, mudando suas novas linhas de enfeites de casa e jardim de flats para tridimensionais. Featherstone tinha como tarefa desenhar esses novos moldes.

"Eu acho que seu primeiro design foi um pato", diz Abrahams. "Os flamingos foram o segundo. Ninguém esperava que eles seriam especiais ou tivessem uma ótima vida comercial, mas eles continuaram vendendo. Eles levaram a carreira de Don para lugares que ele nunca havia imaginado."

Os flamingos de Featherstone ainda são produzidos localmente pela Companhia Cado na cidade vizinha de Fitchburg, que comprou os moldes após o fim da Union Products em 2006. O Centro de Visitas Johnny Applesee, que fica na Route 2 pouco antes da entrada para Leominster, tem várias informações e produtos locais, incluindo os novos flamingos de plástico rosa de Featherstone, à venda. Quando eu visitei o local, havia dois pássaros grandes expostos junto com caixas menores deles, incluindo uma dupla de flamingos zumbis que sobraram do Halloween. Há também camisetas e moletons com estampas que reafirmam Leominster como local de nascimento dos pássaros.

Direito de imagem Linda Laban/BBC
Image caption Os flamingos de Featherstone ainda são produzidos localmente pela Companhia Cado

A meia hora de carro dali, na pequena cidade de Lunenburg, o shopping cooperativo Jeffrey's Antique também tinha versões grandes do pássaro de Featherstone datando de 1980 com hélices e uma coleção de flamingos vintage com diferentes designs.

Parece que os pássaros não são mais considerados vulgares. O Museu de Belas Artes de Boston tem um par deles em sua coleção permanente e, quando Featherstone morreu em 2015 foi tema de obituários em diversos veículos, a exemplo do New York Times e do Washington Post. "Mais de 20 milhões de pássaros foram comprados desde seu surgimento em 1957", escreveu o Post à época.

O artista documentou sua criação no livro The Original Pink Flamingos: Splendor on the Grass (Os Flamingos Rosa Originais: Esplendor na Grama, em tradução livre), publicado em 1999, e manteve 57 flamingos no seu gramado, marcando o ano de seu nascimento.

"Eles foram seus primeiros filhos, eles eram como suas crianças", diz Nancy. "Donald sempre disse 'onde mais você consegue uma elegância tropical por menos de US$ 10?'"

Leia a versão original desta matéria (em inglês) no site da BBC Travel

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