Mais de 50 corpos são achados em 'depósito dos horrores' de Khadafi

Atualizado em  29 de agosto, 2011 - 11:08 (Brasília) 14:08 GMT

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BBC visita local onde segundo testemunhas cerca de 150 pessoas foram massacradas por Exército líbio.

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Mais de 50 corpos foram encontrados em um depósito na capital da Líbia, Trípoli, atrás da sede da temida Brigada Khamis, uma unidade especial do Exército líbio.

Sobreviventes dizem que os corpos eram de civis capturados pelo regime de Khadafi e executados na terça-feira, no ataque final dos rebeldes líbios contra Trípoli.

A reportagem da BBC visitou o local, onde o cheiro nauseante dos cadáveres recebe a equipe a dezenas de metros de distância.

A exposição de corpos começa fora do depósito. O corpo de um homem tinha os pés ainda atados com uma corda.

Dentro, sob um teto ainda esfumaçante, muitos corpos se resumiam a esqueletos.

É difícil saber quantas pessoas ao certo foram mortas no depósito. Muitos corpos foram removidos no sábado pelas famílias para receber um enterro decente.

Sobrevivente

Um senhor abatido, Fathallah Abdullah, chorava na entrada do depósito.

Ele disse à BBC que conseguiu escapar do massacre, mas teve de deixar lá dentro seus três filhos – Ibrahim, Abdul Hakim e Ali.

Os quatro haviam sido presos em meados de agosto na cidade de Zlitan.

Vítima de execução tinha ainda os pés atados a uma corda durante a visita da BBC

"Eu estava aqui", diz Abdullah, apontando para um canto repleto de crânios.

"Meus filhos estavam ao meu lado. Toda a área estava lotada de gente, empilhadas como animais. Não tinha espaço nem para colocar o pé no chão", contou.

Segundo Abdullah, cerca de 150 civis de diversas partes da Líbia estavam sendo mantidos no local, sob os olhos atentos de soldados uniformizados e mercenários. Outra testemunha fez uma estimativa semelhante.

Os prisioneiros estavam com sede e os guardas prometeram trazer água no fim do dia. Em vez disso, voltaram à noite carregados de armamentos.

"Eles começaram a atirar", disse Abdullah. "Depois, atiraram granadas. Três granadas. Eles paravam, saíam, voltavam e continuavam."

Quando outro prisioneiro conseguiu abrir a porta do depósito a chutes, Abdullah conseguiu escapar e se esconder sob um caminhão. Lá, ele ficou deitado, em silêncio, durante horas, ouvindo os sons do massacre que não podia evitar.

"Até as duas, três horas da manhã eles ainda estavam atirando", disse. "Mataram todos os sobreviventes."

Presos

Do lado de fora do depósito, Abdullah cumprimenta outro sobrevivente, Ali Hamouda, com um aperto de mãos triste. Hamouda está ferido. Seu primo está entre os mortos.

Ambos os homens disseram que mesmo soldados de Khadafi estavam entre os massacrados, supostamente por não obedecerem a ordens.

"Os soldados estavam no meio, sentados em lençóis", disse Ali. "Primeiro, eles foram levados para fora. Depois ouvimos tiros. Talvez eles tenham sido mortos. Depois, começaram a atirar em nós."

Fathallah Abdullah perdeu três filhos no massacre

O depósito foi o local onde uma equipe de reportagem da BBC ficou presa em março. Durante sua detenção, a equipe foi agredida e submetida a simulações de execuções.

Um técnico da equipe da BBC, Chris Cobb Smith, voltou ao local no domingo e reconheceu a cela onde a equipe foi presa e aterrorizada.

"Devo ter observado cada segundo do ponteiro do relógio. Definitivamente ouvimos gente sendo agredida e transportada para outras partes da estrutura. Acho que se tivesse sido em outro momento do conflito, talvez as coisas tivessem sido piores para nós."

Atrocidades

Moradores disseram à BBC que a área do QG da Brigada Khamis é de longa data associada com matanças. Restos de corpos já foram encontrados em diversos locais e levados para serem enterrados, eles disseram.

Quando a equipe da BBC visitou o local, que fica atrás de uma mesquita, havia marcas recentes que indicavam onde corpos haviam sido queimados.

À medida que os rebeldes passam a controlar áreas cada vez mais vastas de Trípoli, o temor é o de que mais atrocidades venham à tona.

O Conselho de Transição Nacional, o órgão rebelde, estima que entre 57 mil e 60 mil pessoas tenham sido detidas pelo regime nos últimos seis meses. Cerca de 10 mil foram liberados.

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