Exposição em Paris mostra artistas sob efeito de drogas

A galeria Maison Rouge, em Paris, abriga uma exposição com obras de artistas que estavam sob o efeito de drogas ou que reproduzem as sensações psicológicas provocadas pelo consumo dessas substâncias. Acima, o artista pós-moderno islandês Erró compara nessa obra a seringa usada por viciados a uma arma. "A Dose", inspirada em histórias em quadrinhos. O artista americano Bryan Lewis Saunders relata em suas obras a quantidade de droga ingerida por ele, como nesse “autorretrato sob efeito de droga (meio grama de cocaína)”. Desde 1995, Bryan Lewis Saunders realiza ao menos um autorretrato por dia. Nesta obra, o artista havia consumido cristais de metanfetamina, um poderoso estimulante que provoca euforia. Aqui, uma instalação da artista japonesa Yayoi Kusama, famosa por utilizar bolinhas em suas criações. O visitante pode entrar nesta obra, que tenta reproduzir as alucinações visuais provocadas por psicotrópicos, alterando a percepção do espectador. “A Última Ceia” é uma serigrafia do artista britânico Damien Hirst, que substitui Jesus e os 12 apóstolos por caixas de remédios, cujos nomes das embalagens foram trocados por alimentos típicos da cozinha inglesa, como salsichas e feijão. O artista, um dos mais caros da atualidade, sugere nessa obra o lugar de destaque que os medicamentos têm na vida cotidiana das pessoas. “O poeta exala” é uma foto do poeta, dramaturgo e cineasta francês Jean Cocteau, feita em 1959 pelo fotógrafo Lucien Clergue. A exposição em Paris também apresenta vários desenhos de Cocteau, que foi viciado em ópio e passou por vários processos de desintoxicação. Ele escreveu a obra “Ópium”, ilustrada com desenhos que tentam mostrar as alterações dos sentidos causada pela droga. A mostra apresenta inúmeras fotos que ilustram o cotidiano dos viciados em drogas, como esta do fotógrafo espanhol Alberto Garcia-Alix. A palavra “Fix” escrita na parede é uma gíria para “dose de droga”, normalmente injetada. Também há fotos do cineasta e fotógrafo americano Larry Clark, como a de uma mulher grávida injetando-se. Esta obra é do artista e cineasta francês Daniel Pommereulle, morto em 2003. Sua exposição “Objetos de tentação”, com mesas cheias de drogas e objetos para consumi-las, provocou grande escândalo quando foi aberta, nos anos 1960. Na época, ainda era possível expor drogras ilegais. Ao término da exposição, os visitantes tinham levado tudo embora. O artista francês Raymond Hains realizou em 1987 a série de serigrafias “American Express”, que reproduzem o efeito de distorção da visão após o consumo de drogas como o LSD ou ácidos. Influenciado pelo surrealismo, o pintor austríaco Arnulf Rainer realiza a série “Faces Farces” de autoretratos após ter tido alucinações com o LSD e ter visto manchas coloridas em fotos de rostos de pessoas. Ele participou, nos anos 60, de um programa de pesquisas da Universade de Lausanne sobre os efeitos do uso de drogas como o LSD.

"Sob Influências"

Uma exposição em Paris apresenta obras de artistas que estavam sob o efeito de drogas variadas e também criações que reproduzem as sensações psicológicas e as alucinações provocadas pelo consumo dessas substâncias.

A exposição "Sob Influências – Artistas e Psicotrópicos", apresentada na galeria Maison Rouge, em Paris, reúne 250 obras de 90 artistas, entre eles vários famosos, como Jean-Michel Basquiat, Damien Hirst, Francis Picabia, Jean Cocteau, o brasileiro Hélio Oiticica e o cineasta e fotógrafo Larry Clark.

"Sob Influências" também permite ao visitante ter experiências sensoriais.

Para entrar, é preciso percorrer um corredor, a obra de arte "Swinging Corridor", do artista belga Carsten Höller, com paredes que parecem estar em ligeiro movimento, para dar ao espectador a sensação de um estado de embriaguez.

Na entrada desse corredor, incensos reproduzem o cheiro da fumaça do ópio. Visitantes têm apreciado tanto os incensos que acabam escondendo alguns nos bolsos, fazendo com que a galeria esteja com problema de falta de estoque, como constatou a reportagem da BBC Brasil.

Em alguns casos, a própria droga é a obra, como a do artista Adel Abdessemed, que "capturou" em uma caixa de vidro o cheiro deixado pela fumaça do haxixe.

Na mostra, há ainda uma sala com objetos utilizados para o consumo de drogas, como uma mesa de inox usada em um espaço autorizado para viciados na Suíça (com uma placa lateral fixada ao tampo para proteger as paredes do centro de eventuais vômitos), além de obras feitas a partir de seringas e outros materiais usados pelos dependentes químicos.

A obra do brasileiro Hélio Oiticia, a "Quasi-Cinema 02-CC5", redesenha os traços do rosto do guitarrista Jimmy Hendrix com linhas de pó branco, na capa de seu disco "War Heroes". Sob a capa, uma folha de papel alumínio, normalmente usada para "esquentar" a droga.

"Os artistas, sempre em busca de novas formas de criação, de transgressões, de estímulos, de caminhos para a imaginação, praticamente não podiam evitar de descobrir os efeitos das drogas", diz Antoine Perpère, curador da exposição e chefe de um centro de acompanhamento para dependentes em Paris.

"Mas o artista não é um drogado como qualquer outro porque ele tem a preocupação de transmitir o que vivenciou ao estar sob influência das drogas", afirma o curador, que ressalta que a exposição não tem por objetivo fazer julgamentos morais ou a apologia das drogas.

Entre as obras na exposição que foram criadas por artistas que estavam sob o efeito de drogas estão os autorretratos do artista americano Bryan Lewis Saunders, realizados após a utilização de uma substância diferente a cada dia, como cristais de metanfetamina, maconha ou cocaína.

A exposição também apresenta vários desenhos do poeta e cineasta francês Jean Cocteau, que foi viciado em ópio e passou por vários processos de desintoxicação. Durante uma dessas curas, ele começou a escrever a obra "Ópium".

Uma segunda parte da exposição apresenta obras que tentam reproduzir as distorções dos sentidos causadas pelos psicotrópicos, como a instalação da artista japonesa Yayoi Kusama, famosa por utilizar "bolinhas" em suas criações.

Há também uma série de fotografias que mostram o cotidiano dos viciados, como as realizadas pelo fotógrafo e cineasta americano Larry Clark, com imagens, por exemplo, de uma grávida injetando heroína.

Os vídeos e filmes também têm grande destaque na mostra "Sous Influences". Em um deles, uma câmera que não muda de posição durante vários minutos exibe apenas o rosto de uma garota que acaba de consumir LSD, cabendo ao espectador tentar interpretar a "viagem" da jovem.

No final da exposição, há uma sala, que visualmente parece com uma biblioteca, com as paredes cobertas de fotos de livros sobre toxicologia que pertencem à Universidade de Harvard.

A mostra fica em cartaz na Maison Rouge até 19 de maio.

Notícias relacionadas