Rosana (Facebook/ Reprodução)
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'Prefiro meu filho na cadeia', diz brasileira mãe de jihadista na Síria

A mãe de Brian De Mulder, o jovem belga de origem brasileira que desde janeiro de 2013 engrossa as filas do autodenominado "Estado Islâmico" na Síria, deseja que o filho seja condenado no processo contra a organização extremista Sharia4Belgium. O julgamento foi reiniciado nesta segunda-feira, em Antuérpia.

"Eu prefiro que meu filho seja condenado, prefiro todos os dias da minha vida ir na cadeia visitar meu filho, levar comida, pasta de dente, as coisas que ele necessitar, do que saber que meu filho é um terrorista e está agora na Síria", afirmou Rosana Rodrigues em entrevista à BBC Brasil.

De Mulder é um dos 46 acusados no que está sendo chamado de "o megaprocesso do jihad", que analisa o papel da Sharia4Belgium no recrutamento de jihadistas belgas.

Se condenado, pode pegar até cinco anos de prisão por participar de atividades de um grupo terrorista e publicar ameaças de atentados na Bélgica, contra o ministro da Defesa, Pieter De Crem, e contra o líder político holandês Geert Wilders.

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Assim como ele, a maioria dos acusados continua na Síria e está sendo julgada à revelia.

Radicalização

Apesar de desejar a condenação do filho, Rosana e seu advogado apresentaram argumentos a seu favor ao longo das audiências.

"Até agora ninguém procurou saber o que meu filho foi, como foi criado. Quero levar fotos do meu filho, do começo da criação dele até quando ele foi pra esse lugar (Síria)", explicou.

"Saí do meu país para criar meus filhos na Bélgica do meu jeito, para educar meus filhos para que fossem pra frente, pessoas de bem, que não fizessem mal aos outros, que não roubassem, usassem drogas. Foi pior", ela lamenta.

Seu objetivo é mostrar como a influência de Fouad Belkacem, líder e antigo porta-voz de Sharia4Belgium, foi determinante para a radicalização de De Mulder e sua decisão de participar do conflito sírio.

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Image caption Ilustrações mostram membros do Sharia4Belgium sendo julgados; Belkacem é o 4º da esquerda para a direita

O jovem, católico praticante, sem antecedentes criminais ou problemas familiares, começou a frequentar as reuniões do grupo em Antuérpia em 2010, em busca de consolo depois de uma decepção com a desejada carreira de jogador de futebol.

Em um intervalo de dois anos, se converteu ao islã e foi mudando gradualmente seus hábitos sociais, alimentares e de vestuário, tornando-se cada vez mais radical.

Em janeiro de 2013, foi para a Síria e se juntou ao agora autodenominado "Estado Islâmico", argumentando que pretendia ajudar civis contra a opressão do regime do presidente sírio Bashar Al Assad.

Rosana diz que se pergunta todos os dias "como um menino que teve boa criação, uma mãe excelente, um pai que faz tudo" pode fazer parte de um grupo extremista.

E acusa as autoridades belgas de não terem impedido a viagem do filho, apesar de vigiar seus passos desde 2011 devido à ligação com Sharia4Belgium.

"Fui pedir ajuda à polícia e riram na minha cara. Se tivessem feito o trabalho deles como deve ser feito, meu filho e os filhos de outras pessoas que estão agora doidas como eu não estariam assim."

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Image caption Em uma das sessões, Rosana teve de ser retirada da sala após se indispor com membros do grupo

Ela espera que Belkacem também seja condenado no "megaprocesso do jihad" e, depois de cumprir sua pena, seja expulso do país.

"A Bélgica tem que condenar esse vagabundo do Fouad Belkacem e Sharia4Belgium, tem que parar de ter medo dessa gente."

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Doutrinamento

As autoridades belgas começaram a investigar a implicação de Sharia4Belgium no conflito sírio em fevereiro de 2012, após alertas de pais sobre diversos jovens que deixaram o país para se envolver no combate.

Desde então, o número de belgas que integram grupos extremistas como a Frente Al Nusra ou o autodenominado "Estado Islâmico" passou de 80 para 400. O número de europeus no conflito chegou a 3 mil, ante apenas 500 há um ano, segundo a União Europeia.

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O principal acusado no julgamento, Fouad Belkacem, 32 anos, de nacionalidade belgo-marroquina, pode ser condenado a até 15 anos de prisão.

Para o Ministério Público, ela era o "líder incontestável" da Sharia4Belgium e o responsável pelo recrutamento e doutrinamento religioso e ideológico de novos membros, os conduzindo à jihad na Síria.

Ele está detido em Bruxelas desde abril de 2013 por incitação ao ódio.

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Image caption Brian, Rosana e a irmã, Bruna (Facebook/ Reprodução)